Dia 29/11/2013 Sexta-Feira Antarctica Express
Domir pra que ? Não me lembro de ter ido deitar e já era sexta dia
29/11. A festa de despedida foi grande pois esse grupo se identificou muito com
a viagem, provavelmente por causa do Drake pesado que enfrentamos. Eu passei
praticamente a noite toda trabalhando de DJ e ajudando Gabriel no Bar. Quando
fechamos o panorama longe já se passavam de 4 hs da manhã. Tomei café correndo
e já trabalhando, entre instalação do banner na escada de entrada do navio,
bagagens de passageiros que saíam e outros que chegavam e toda a carga de
comida que estava chegando – de ovos a pão, de verduras a yogurte. Quando deu
10h30 meus braços estavam arranhados e duros de carregar caixas e ainda fedendo
a cebola (carreguei uns 4 sacos grandes). Ainda assim eu estava animado para ir
a cidade, ver se arrumava uma boa camisa que eu estava precisando e um café com
internet. A camisa eu até achei, mas a internet não. Aparentemente coma
tempestade, as comunicações ficaram prejudicadas. Consegui conexão só no porto,
e ainda faltando 15 minutos para entrarmos. Então tive que acelerar o processo
de envio do blog.
Os passageiros começaram mesmo a chegar entre 15 e 16 hs e até eu foi
tranquilo, embora um pouco demorado por conta da pesagem das malas. Dessa vez
estávamos pesando toda a bagagem para organizar o vôo de volta dia 3 de
Dezembro. O vento começou a soprar um pouco mais forte na hora de zarpar mas
mesmo assim Ushuaia aparecia radiante sob um sol baixo e as montanhas da
cordilheira Darwin ainda brancas de neve. Atravessamos em algumas horas o
canal, durante o treinamento de abandono do barco (obrigatório para os
passageiros) e chegamos em Port Williams na hora da janta, para um passeio
semi-noturno pela cidade e pelo Mikalvi. Como eu gosto desse lugar ! a Ilha
Navarino é um excelente ponto turístico, com uma vista magnífica. Os cachorros
soltos na rua são tão amigáveis que chegam
junto rapidamente para lamber nossos pés e brincar apenas com um leve aceno
de mão. Encontrei meu velho amigo “pretinho”, um cachorro magro e super alegre
que vive no Iate Clube e brincamos um pouco até a hora de voltar ao navio. Eu
estava morto. Precisava dormir o mais rápido possível e mal encostei na cama,
com meu celular tocando música, nem me lembro qual era a segunda música da
lista – apaguei instantaneamente.
Dia 30/11/2013 Sábado – Drake sweet Drake
Acordamos cedo as 6h00 na intenção de descer em Cape Horn, mas o vento
tinha aumentado muito durante a noite e estávamos pegando 50 nós entre as
ilhas. Cape Horn era visível com seu monumento ao Wandering Albatroz, mas
impossível de desembarcar. Deixamos o prático perto da ilha e seguimos rumo
sudeste, rumo a Neverland. Ao invés do tapete mágico vermelho das histórias das
1001 noites, me sinto em um tapete azul de aço, com seu indescritível “Z”
branco no nariz do barco, cortando rápido as águas azuis do mar no fim do mundo
rumo ao paraíso branco. Serão ainda 27 dias de viagem até eu voltar a
realidade, algo tão distante mas já tão perto que dá aquele aperto no coração.
Só me resta aproveitar cada minuto como se fosse o último.
| Lake Drake |
O dia passou de forma tranquila com o balanço habitual sempre
intercalado de pequenas pancadas de ondas rápidas no costado de boreste. Eu
trabalhei um pouco nas fotos, dei uma palestra, assisti outras e dormi um pouco
também (êta balancinho bommm), e assim o
tempo acaba voando um pouco.
Dia 01/12/2013 Domingo – Lazy Drake Lake
Acordei com o sol batendo na vigia do meu quarto e um céu azul lá fora.
Entrávamos na parte final da viagem em um Drake Lake. Praticamente não haviam
ondas (grandes) e o barco navegava rápido e tranquilo pelas águas azuis do
Drake. A temperatura havia caído bastante e já estávamos em Neverland mais uma
vez. Naquele dia eu não tinha absolutamente nada para fazer (sem palestras e
sem duties) então li um pouco, vi filme, dormir, zanzei pelo navio, bati
papo...tudo na mais santa paz. Até que passou rápido o dia. Uma hora ou outra
até vimos umas baleias, o navio se aproximou, mas nada fora do anormal para um
Drake Lake. A noite por volta das 23hs era possível ver as luzes de Frei bem ao
longe no horizonte e fui dormir esperando o dia seguinte que seria cheio.
Dia 02/12/2013 Segunda-feira Half Moon, Aitcho e Robert Point
Bom dia Half Moon ! foi minha frase no facebook, em uma ensolarada mas
fria e ventosa manhã de segunda-feira. Estávamos ancorados na frente da pequena
ilha com desembarque previsto para 08:30 hs. A ilha é uma rocha vulcânica em
forma de meia lua a sudeste da ilha Livingston nas Shetlands do Sul e embora
tenha alguns pontos de escarpas altas, ela apresenta boa parte da área coberta
de um campo de neve sobre antigas linhas de praia feita de seixos e matacões
rolados. Ali tem uma ruidosa colônia de pinguins de barbicha (Chinstraps) e
muitas aves como skuas, gaivotas e sternitas. Estava um pouco difícil de
caminhar por conta de uma camada grossa de gelo por cima da neve, que deve ter
se formado nos dias anteriores a nossa chegada. Demos uma boa volta na ilha,
visitando a colônia e encontramos ainda algumas focas dormindo graciosamente
sobre a neve na ponta sul. Subindo para norte na ilha, pelo extenso campo de
neve, chegamos a praia do outro lado onde encontramos uma baleia Minke morta,
sem parte da mandíbula e da língua. Muito provavelmente tinha sido vítima do
ataque de orcas que tem por hábito comer apenas essas partes que estavam
faltando. Era uma carcaça com boas semanas de idade e para deleite de skuas e
outros pássaros, estava acessível para ser devorada.
O vento subiu bastante e dificultou nosso retorno ao barco, para o
almoço. Já pela tarde mudamos de posição para um grupo de ilhas próximo chamado
Aitcho, especificamente a ilha Barrientos que tem uma colônia de pinguins
chinstraps mesclados com gentoos. Eu ainda dei um pulo na Ilha Robert com Ben
dirigindo o bote, para explorar uma ponta conhecida e ver se havia algo de
interessante para vermos. Encontramos um grupo de elefantes marinhos e uma
série de cabanas chilenas e uma base abandonada, completamente destruída. É uma
pena, pois o local era interessante, mas a paisagem apocalíptica estragava
bastante o cenário. Voltamos a Barrientos para a insanidade antártica
tradicional do Polar Plunge. Vários intrépidos passageiros pularam na água
gelada em troca de um “shot”’ de vodka e uma toalha seca. Foi no mínimo
divertido.
Novamente movemos o navio para uma posição melhor, para a ilha Robert,
onde desembarcamos antes da janta mais uma vez. A praia era pequena o swell
batia com força o que me deixou completamente molhado enquanto eu cuidava dos
passageiros que desembarcabam. O céu estava lindo, azul e com um por de sôl
maravilhoso, mas minhas mãos congelavam com a água molhada sobre elas. Não foi
fácil o desembarque, mas fizemos. Tivemos ainda a companhia agradável de várias
baleias jubartes que se alimentavam praticamente coladas ao navio. Os passageiros
aproveitaram bastante e a janta transcorreu tranquilamente até o final, quando
veio a notícia triste: teríamos vôo no dia seguinte as 06:00 hs da manhã o que
significava acordar pelo menos as 04:00 hs. Ninguém ficou contente, o que era
de se esperar, mas aparentemente havia uma tempestade chegando e o risco de
ficarmos presos com passageiros era grande, então o que nos restava a fazer era
tocar o barco e se preparar para Frei Rock’n Roll Day. Chegamos na baia Maxwell
na frente de Frei as 22h30 e eu ainda tinha muita coisa para fazer, permitindo
que eu fosse dormir apenas as 2 hs da manhã. Seria com certeza um dia longo.
Ainda antes de dormir eu fiz a barba...era meu tradicional dia de “cara limpa”
que marca a metade da viagem para mim. Em 26 dias estarei saindo definitivamente
do navio e voltando a realidade.
![]() |
| Baleias no por do sol |
Dia 03/12/2013 Terça-feira Frei “Rock” Day
A troca de passageiros é sempre uma tarefa complicada e bastante
estressante. Quando ocorre no horário desta última e nas condições de tempo que
tivemos, é pior ainda. Eram 03:50 da manhã quando eu pulei da cama e fui pegar
um chocolate quente. O navio estava quase todo adormecido, tirando nós staffs
que tínhamos como principal tarefa passar toda a bagagem para o deck 2 e
preparar a gangway. O tempo não estava muito firme e uma leve brisa já mostrava
que iria vir chumbo grosso durante o dia. Não eram 05:00 quando eu já estava
todo encapotado dentro do zodiac carregado de malas rumo a praia em Frei e em
menos de 30 minutos estávamos com o nosso “Big Foot” carregado e subindo a
pista com Hector ao volante. Hector, nosso motorista e fiel escudeiro de Frei,
é responsável por toda a comunicação com a base aérea chilena da Ilha Rei
George. Meu café da manhã foi meio sandwiche de presunto, devorado dentro da
van a caminho da área Charlie, onde esperávamos o vôo para as 06:10 hs. Quando
o avião pousou, foi aquela loucura que eu já estava acostumado de outras
operações, mas que eu não esperava era uma mudança de tempo tão violenta. De
uma fraca neve as 06:30 pulamos para uma nevasca com ventos de 40 nós em menos
de 15 minutos e a pista virou cena de filme de terror na Antártica.
![]() |
| Avião chegando na pista |
Com um certo esforço conseguimos tirar todos os passageiros da pista
para a praia e levar os passageiros da praia para a pista, para iniciarmos a
segunda e mais complexa parte da operação que consistia em transportar
passageiros e bagagem no meio de um mar em fúria. Ondas de 1,5 m explodiam na praia
quebrando o gelo que ainda se acumulava por ali e a visibilidade tinha caído para
menos de 100 metros. Logo coloquei um sapão e fui para a água ajudar Mariano a
controlar os botes em uma operação um tanto “molhada” que consistia em virar o
bote com a popa para a praia, para evitar que a água entrasse com muita força. A
adrenalina me ajudava a me manter aquecido, pois eu estava completamente
ensopado. As ondas passavam por cima da minha cabeça e entravam pela roupa
sapão adentro. As 08:00 já tínhamos praticamente todos os passageiros e
bagagens a bordo, completamente molhados e um pouco enjoados pois o navio já
jogava muito com as ondas e vento que castigavam em um mar força 10 com
certeza. Eu ainda tomei um banho quente antes de subir para o Panorama Lounge
onde o clima era de pós-guerra, pois os passageiros ainda tiveram que passar
pela apresentação de segurança e abandono do navio, molhados, com os coletes-salva
vidas e bastante enjoados, e não demorou muito para o doutor ter muito trabalho
com pílulas anti-enjoo e sacos de vômito.
Abrimos caminho entre as ondas rumo 125 SE para a ponta da Península
Antártica – estávamos indo para o mar de Weddell e Antarctic Sound. O navio
parecia um navio-fantasma, com menos de 10 dos quase 50 passageiros
perambulando pelo navio. Ainda tirei um cochilo antes do almoço para descansar
e o dia passou entre cochiladas e apresentações quase que individuais já que a
maioria dos passageiros estava escondida dentro de suas cabines.
E agora, depois do jantar, estávamos navegando tranquilamente por
Antarctic Sound rumo a Devil Island. Apesar da tranquilidade os passageiros
continuam escondidos em suas cabines. Ainda assim, que venha uma boa noite de
começo da Antarctica Classica 01.
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| Navio de Gelo - entrando em Antarctic Sound (abaixo e a direita) |




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