sábado, 7 de dezembro de 2013

Classica Antarctica 01 - do Mar de Weddell a Portal Point

Dia 04/12/2013 Quarta-feira Antarctic Sound

Era tarde da noite quando fui dormir. O navio ainda sentia o swell forte e o spray das ondas se acumulava em gelo ao redor de tudo no nariz no navio. Eu balançava na cama de tempos em tempos e o embalo até que facilitou meu sonho. Sonhei com o Brasil, com a praia em Santos, minha filhota, enfim...sonho de saudades. Mas o dia para mim começava cedo e despertei rapidamente quando meu relógio tocou as 06:00 hs. Eu senti durante a noite que o rumo do navio era errático e com várias pancadas de gelo no costado. Não reconheci de primeira o lugar em que estávamos quando levantei e olhei pela janela, e só depois de um tempo é que percebi que estávamos ainda em uma latitude mais ao norte. Era a entrada de Brown Bluff, na ponta da península, ainda sob domínio de Antarctic Sound. Durante a noite o navio tinha encontrado condições ruins de gelo e Mariano optou por ficar mais ao norte. Fazia um frio de gelar os ossos na praia lotada de pinguins adélie e todos os ninhos da pinguineira giante estavam com seus respectivos pinguins voltados para o vento, para proteger melhor os ovos. O vento frio vinha da calota polar sobre a península e soprava com força e baixíssima temperatura. Eu tentei fazer a primeira coleta de sedimento na pinguineira para o projeto da Erli, mas foi mais difícil do que eu imaginava. O solo estava completamente congelado e duro, e tirar sedimento dali foi uma tarefa árdua. Consegui encher um pote, mas com muitas pedrinhas. Tomara que sirva para ela. Ainda caminhei pelo glacier com outros passageiros e fechamos a praia para voltar ao barco quentinho e um almoço merecido.
Adelies em Brown Bluff

O vento diminuiu e o navio se deslocou mais para dentro do golfo Erebus & Terror, na porção noroeste do Mar de Weddel. Havia gelo marinho com uma espessura fenomenal e muita neve. Aquela parte do mar de Weddell ainda tinha gelo marinho de vários anos sobrepostos, formando uma barreira quase intransponível. Descemos ainda umas 25 milhas para sul até que o gelo começou a bloquear demais o navio. Não havia muito o que fazer e paramos para colocar os botes na água mais os caiaques (sim ! caiaques) e fizemos um tour na borda do gelo marinho, descemos em uma placa de gelo para foto do grupo e apesar do frio congelante. Janta na mesa, banho quente e cama ! era tudo o que eu precisava pois estava mais do que cansado.

Caiaques em Erebus & Terror Gulf

Dia 05/12/2013 Quinta-feira Gourdin e Astrolab

O dia amanheceu com céu azul e sol mas com vento muito forte e durante a noite o navio teve dificuldades para passar em Antarctic Sound por causa do gelo que estava derivando para dentro do Estreito de Bransfield. Ainda assim conseguimos chegar bem no horário do café na pequena ilha Gourdin, a Terra do Rei Pinguim. Na pequenina ilha do tamanho de um estádio de futebol encontramos pelo menos 20.000 pares de pinguins, das 3 espécies: Adélies, Gentoos e Chinstraps. O desembarque foi difícil por causa das ondas, vento forte e uma praia ainda coberta por muito gelo. Aparentemente estava fácil apenas para os pinguins que iam e vinham da água com pedrinhas na boca e a barriga cheia de comida. Ainda encontramos várias focas caranguejeiras dormindo na praia (se é que dava para chamar de praia: uma parece de pedra e gelo que tivemos que escalar para subir na ilha). O grupo de caiaques entrou na água também e aos poucos fomos transportando todos os passageiros. Não tive tempo de pegar amostras pois era um desembarque complexo devido a quantidade de pinguins próximos a rota que traçamos pela ilha. Mas no final deu tudo certo apesar do imenso trabalho de tirar e colocar os passageiros nos botes de transporte, incluindo o banho de água salgada que tomamos quando voltamos por causa das ondas e do vento fortíssimo. As rajadas eram tão fortes que obrigou o navio a ficar manobrando para nos dar uma sombra de vento e permitir o embarque do zodiac no navio.

A ilha do Rei Pinguim - Gourdin 

E assim que voltamos a bordo, como que por mágica, o vento parou, o sol continuou firme e a nossa frente (depois de umas horas de navegação) tínhamos Astrolab Island, com seus picos altos e uma enorma geleira sobre a montanha, o paraíso das aves. Era o lugar ideal para lançar zodiacs na água e dar uma volta, e foi o que fizemos. As montanhas na ponta norte da ilha são chamadas de “dentes de dragão” pois lembram mesmo os dentes de um enorme dragão adormecido. E entre os dentes existem canais que permitem atravessarmos de um lado a outro da ilha. A face leste da ilha estava qualhada de icebergs se debatendo nas ondas e se espatifando em vários pedaços, então ficou fácil para encontrarmos um bom pedaço de gelo para os drinks no bar. Antes de subir a bordo ainda encontramos uma foca leopardo descansando preguiçosamente em uma placa de gelo no meio das ondas. Com o sol e céu azul, o espetáculo estava completo. Haviam ainda baleias na área mas meu zodiac estava pesado e lento e resolvemos voltar a bordo. Os outros zodiacs ainda ficaram circulando por um tempo mas logo estavam todos a bordo para a merecida janta.


Embora o dia tivesse sido cheio, ainda deu tempo de fazer caipirinhas de kiwi, a pedidos de alguns passageiros australianos. Nada mal para terminar a noite. Dormi como uma pedra, casado mas feliz de mais um dia antártico com sol.

Dia 06/12/2013 Sexta-feira Cierva cove, Hydruga e Portal Point

Acordei com o wakeup call de Mariano pelo sistema de som do navio, 2 minutos antes do meu relógio tocar. Estava ensolarado e sem vento e o navio navegava tranquilamente dentro de Cierva Cove, na parte norte de Gerlache. O café da manhã foi navegando entre icebergs e pedaços de gelo, em direção a Hydruga Rocks, uma série de ilhas baixas cobertas com pouca neve e povoadas por pinguins chinstraps, cormorões, gaivotas, skuas e sempre com uma ou outra foca por ali. Passamos a manhã calmamente na ilha com sol e aproveitando o visual. A turma do caiaque (sim ! ainda não tinha comentado isso – 10 passageiros tem uma expedição única – remar entre blocos de gelo, pinguins e focas) remava ao longe e víamos esguichos de baleias no horizonte. Um dia perfeito, eu posso dizer ! Aproveitei e coletei material para o projeto Pinguins e Skuas da Erli e ainda tirei umas fotos bem calmamente e na maior paz.

Após o almoço o tempo continuou aberto, com um pouco mais de nuvens, mas ainda sem vento e com uma sensação boa sem frio. Estávamos entrando novamente no lado continental da península, em um local onde no passado cientistas acessavam a alta calota de gelo, chamado Portal Point. Este é um dos poucos locais por aqui que não vemos pinguim algum e sim, apenas gelo, na verdade, muitooo gelo. Portal Point fica ao fundo de uma baia cheia de icebergs e um glacier que tem pouca inclinação e permite uma caminhada suave, mas sobre uma ponte de gelo (ou seja, nos dois lados da ponte tem um abismo!). Fizemos uma caminhada tranquila, e fiquei no meio do caminho cuidando de alguns passageiros que não quiseram subir tudo. A vista era fantástica e o tempo ajudou bastante – sem vento e com um sol por trás das nuvens. Ainda desci a tempo de fazer um pequeno cruzeiro de zodiac com alguns passageiros entre os grandes blocos de gelo encalhados na baia rasa de Portal Point. E na volta para o navio, sentíamos o cheio de churrasco no ar de longe – nossa janta era o famoso Antarctic Barbecue e com certeza foi o melhor até o momento porque tinha sol, sem vento, mar tranquilo e boa música e comida. Além da carne deliciosa eu ainda guardei dois cookies de chocolate que o pessoal da cozinha faz de sobremesa. Simplesmente delicioso. O dia terminou com um por de sol fantástico em Gerlache norte, rumo a Deception, nosso próximo destino no dia 7.

Portal Point - a ponte de gelo.

Dia 07/12/2013 Sexta-feira Deception Island e Yankee Harbour


Deception é Deception ! como o próprio nome diz. Eram 08:00 hs quando entramos pelos Foles de Netuno, como é chamada a entrada da ilha e lançamos âncora em Whalers Bay. Fiquei com a parte da caminhada até a “Janela de Netuno”, o gap na parede da ilha, e passei frio porque não me movimentei o suficiente. Na verdade estava ventando um pouco, céu parcialmente nublado e eu gelado sem me mexer. Combinação nada agradável. Mesmo assim, bravos (ou loucos) passageiros se lançaram na água para o famoso polar plunge e eu prontamente pulei no último bote para o aconchego do navio. Seria um dia corrido. A tarde fomos para Yankee harbour, um porto natural na Ilha Greenwich, onde pude recuperar mais um sensor. O sol abriu e o vento praticamente parou, tornando a tarde super agradável. Yankee é uma ponta natural de rochas formando uma semi baia com elefantes marinhos, pinguins, skuas e outros pássaros. De Yankee ainda podemos ver o Sharp Peak em Livingston Island, o símbolo da empresa. Ficamos umas 3 horas por ali entre caminhadas e passeios de zodiac, até que deu a hora de voltar para casa e tomar um banho quente. Essa seria a última noite do grupo, onde normalmente comemoramos com um coquetel, janta especial e uma festinha com fotos da viagem. Foi o que passou e por volta das 23hs estávamos entrando na baia Fildes (ou Maxwell) e nas águas agora tranquilas para nosso ponto de fundeio. A previsão é de que teríamos vôo as 10 hs da manhã do dia 08. Então só me restou ficar no computador terminando o blog, arrumar minhas coisas e dormir para mais uma Classica Antarctica.

Por de sol na baia Fieldes (clique na imagem para ver maior).

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