Dia 04/12/2013 Quarta-feira Antarctic Sound
Era tarde da noite quando fui dormir. O navio ainda sentia o swell forte
e o spray das ondas se acumulava em gelo ao redor de tudo no nariz no navio. Eu
balançava na cama de tempos em tempos e o embalo até que facilitou meu sonho.
Sonhei com o Brasil, com a praia em Santos, minha filhota, enfim...sonho de
saudades. Mas o dia para mim começava cedo e despertei rapidamente quando meu
relógio tocou as 06:00 hs. Eu senti durante a noite que o rumo do navio era
errático e com várias pancadas de gelo no costado. Não reconheci de primeira o
lugar em que estávamos quando levantei e olhei pela janela, e só depois de um
tempo é que percebi que estávamos ainda em uma latitude mais ao norte. Era a
entrada de Brown Bluff, na ponta da península, ainda sob domínio de Antarctic
Sound. Durante a noite o navio tinha encontrado condições ruins de gelo e
Mariano optou por ficar mais ao norte. Fazia um frio de gelar os ossos na praia
lotada de pinguins adélie e todos os ninhos da pinguineira giante estavam com
seus respectivos pinguins voltados para o vento, para proteger melhor os ovos. O
vento frio vinha da calota polar sobre a península e soprava com força e baixíssima
temperatura. Eu tentei fazer a primeira coleta de sedimento na pinguineira para
o projeto da Erli, mas foi mais difícil do que eu imaginava. O solo estava
completamente congelado e duro, e tirar sedimento dali foi uma tarefa árdua.
Consegui encher um pote, mas com muitas pedrinhas. Tomara que sirva para ela.
Ainda caminhei pelo glacier com outros passageiros e fechamos a praia para
voltar ao barco quentinho e um almoço merecido.
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| Adelies em Brown Bluff |
O vento diminuiu e o navio se deslocou mais para dentro do golfo Erebus &
Terror, na porção noroeste do Mar de Weddel. Havia gelo marinho com uma
espessura fenomenal e muita neve. Aquela parte do mar de Weddell ainda tinha
gelo marinho de vários anos sobrepostos, formando uma barreira quase
intransponível. Descemos ainda umas 25 milhas para sul até que o gelo começou a
bloquear demais o navio. Não havia muito o que fazer e paramos para colocar os
botes na água mais os caiaques (sim ! caiaques) e fizemos um tour na borda do
gelo marinho, descemos em uma placa de gelo para foto do grupo e apesar do frio
congelante. Janta na mesa, banho quente e cama ! era tudo o que eu precisava
pois estava mais do que cansado.
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| Caiaques em Erebus & Terror Gulf |
Dia 05/12/2013 Quinta-feira Gourdin e Astrolab
O dia amanheceu com céu azul e sol mas com vento muito forte e durante a
noite o navio teve dificuldades para passar em Antarctic Sound por causa do
gelo que estava derivando para dentro do Estreito de Bransfield. Ainda assim
conseguimos chegar bem no horário do café na pequena ilha Gourdin, a Terra do
Rei Pinguim. Na pequenina ilha do tamanho de um estádio de futebol encontramos
pelo menos 20.000 pares de pinguins, das 3 espécies: Adélies, Gentoos e
Chinstraps. O desembarque foi difícil por causa das ondas, vento forte e uma
praia ainda coberta por muito gelo. Aparentemente estava fácil apenas para os
pinguins que iam e vinham da água com pedrinhas na boca e a barriga cheia de comida.
Ainda encontramos várias focas caranguejeiras dormindo na praia (se é que dava
para chamar de praia: uma parece de pedra e gelo que tivemos que escalar para
subir na ilha). O grupo de caiaques entrou na água também e aos poucos fomos
transportando todos os passageiros. Não tive tempo de pegar amostras pois era
um desembarque complexo devido a quantidade de pinguins próximos a rota que
traçamos pela ilha. Mas no final deu tudo certo apesar do imenso trabalho de
tirar e colocar os passageiros nos botes de transporte, incluindo o banho de
água salgada que tomamos quando voltamos por causa das ondas e do vento fortíssimo.
As rajadas eram tão fortes que obrigou o navio a ficar manobrando para nos dar
uma sombra de vento e permitir o embarque do zodiac no navio.
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| A ilha do Rei Pinguim - Gourdin |
E assim que voltamos a bordo, como que por mágica, o vento parou, o sol
continuou firme e a nossa frente (depois de umas horas de navegação) tínhamos Astrolab
Island, com seus picos altos e uma enorma geleira sobre a montanha, o paraíso
das aves. Era o lugar ideal para lançar zodiacs na água e dar uma volta, e foi
o que fizemos. As montanhas na ponta norte da ilha são chamadas de “dentes de
dragão” pois lembram mesmo os dentes de um enorme dragão adormecido. E entre os
dentes existem canais que permitem atravessarmos de um lado a outro da ilha. A
face leste da ilha estava qualhada de icebergs se debatendo nas ondas e se
espatifando em vários pedaços, então ficou fácil para encontrarmos um bom
pedaço de gelo para os drinks no bar. Antes de subir a bordo ainda encontramos
uma foca leopardo descansando preguiçosamente em uma placa de gelo no meio das
ondas. Com o sol e céu azul, o espetáculo estava completo. Haviam ainda baleias
na área mas meu zodiac estava pesado e lento e resolvemos voltar a bordo. Os
outros zodiacs ainda ficaram circulando por um tempo mas logo estavam todos a
bordo para a merecida janta.
Embora o dia tivesse sido cheio, ainda deu tempo de fazer caipirinhas de
kiwi, a pedidos de alguns passageiros australianos. Nada mal para terminar a
noite. Dormi como uma pedra, casado mas feliz de mais um dia antártico com sol.
Dia 06/12/2013 Sexta-feira Cierva cove, Hydruga e Portal Point
Acordei com o wakeup call de Mariano pelo sistema de som do navio, 2
minutos antes do meu relógio tocar. Estava ensolarado e sem vento e o navio
navegava tranquilamente dentro de Cierva Cove, na parte norte de Gerlache. O
café da manhã foi navegando entre icebergs e pedaços de gelo, em direção a
Hydruga Rocks, uma série de ilhas baixas cobertas com pouca neve e povoadas por
pinguins chinstraps, cormorões, gaivotas, skuas e sempre com uma ou outra foca
por ali. Passamos a manhã calmamente na ilha com sol e aproveitando o visual. A
turma do caiaque (sim ! ainda não tinha comentado isso – 10 passageiros tem uma
expedição única – remar entre blocos de gelo, pinguins e focas) remava ao longe
e víamos esguichos de baleias no horizonte. Um dia perfeito, eu posso dizer !
Aproveitei e coletei material para o projeto Pinguins e Skuas da Erli e ainda
tirei umas fotos bem calmamente e na maior paz.
Após o almoço o tempo continuou aberto, com um pouco mais de nuvens, mas
ainda sem vento e com uma sensação boa sem frio. Estávamos entrando novamente
no lado continental da península, em um local onde no passado cientistas
acessavam a alta calota de gelo, chamado Portal Point. Este é um dos poucos
locais por aqui que não vemos pinguim algum e sim, apenas gelo, na verdade,
muitooo gelo. Portal Point fica ao fundo de uma baia cheia de icebergs e um
glacier que tem pouca inclinação e permite uma caminhada suave, mas sobre uma
ponte de gelo (ou seja, nos dois lados da ponte tem um abismo!). Fizemos uma
caminhada tranquila, e fiquei no meio do caminho cuidando de alguns passageiros
que não quiseram subir tudo. A vista era fantástica e o tempo ajudou bastante –
sem vento e com um sol por trás das nuvens. Ainda desci a tempo de fazer um
pequeno cruzeiro de zodiac com alguns passageiros entre os grandes blocos de
gelo encalhados na baia rasa de Portal Point. E na volta para o navio,
sentíamos o cheio de churrasco no ar de longe – nossa janta era o famoso
Antarctic Barbecue e com certeza foi o melhor até o momento porque tinha sol,
sem vento, mar tranquilo e boa música e comida. Além da carne deliciosa eu
ainda guardei dois cookies de chocolate que o pessoal da cozinha faz de
sobremesa. Simplesmente delicioso. O dia terminou com um por de sol fantástico
em Gerlache norte, rumo a Deception, nosso próximo destino no dia 7.
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| Portal Point - a ponte de gelo. |
Dia 07/12/2013 Sexta-feira Deception Island e Yankee Harbour
Deception é Deception ! como o próprio nome diz. Eram 08:00 hs quando
entramos pelos Foles de Netuno, como é chamada a entrada da ilha e lançamos
âncora em Whalers Bay. Fiquei com a parte da caminhada até a “Janela de Netuno”,
o gap na parede da ilha, e passei frio porque não me movimentei o suficiente.
Na verdade estava ventando um pouco, céu parcialmente nublado e eu gelado sem me
mexer. Combinação nada agradável. Mesmo assim, bravos (ou loucos) passageiros
se lançaram na água para o famoso polar plunge e eu prontamente pulei no último
bote para o aconchego do navio. Seria um dia corrido. A tarde fomos para Yankee
harbour, um porto natural na Ilha Greenwich, onde pude recuperar mais um
sensor. O sol abriu e o vento praticamente parou, tornando a tarde super
agradável. Yankee é uma ponta natural de rochas formando uma semi baia com
elefantes marinhos, pinguins, skuas e outros pássaros. De Yankee ainda podemos
ver o Sharp Peak em Livingston Island, o símbolo da empresa. Ficamos umas 3
horas por ali entre caminhadas e passeios de zodiac, até que deu a hora de
voltar para casa e tomar um banho quente. Essa seria a última noite do grupo,
onde normalmente comemoramos com um coquetel, janta especial e uma festinha com
fotos da viagem. Foi o que passou e por volta das 23hs estávamos entrando na
baia Fildes (ou Maxwell) e nas águas agora tranquilas para nosso ponto de
fundeio. A previsão é de que teríamos vôo as 10 hs da manhã do dia 08. Então só
me restou ficar no computador terminando o blog, arrumar minhas coisas e dormir
para mais uma Classica Antarctica.
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| Por de sol na baia Fieldes (clique na imagem para ver maior). |






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