sexta-feira, 13 de dezembro de 2013

Classica Antarctica 02 - das Shetlands à Lemaire e de volta

Dia 08/12/2013 Domingo Frei Rock Day

Ops ! acabei de me perder nos dias da semana. Isso acontece quando trabalhamos 7 x 7. Comecei a escrever os detalhes dessa viagem e vi que de alguma maneira eu me perdi. Dia 08 domingo foi Frei Day, dia de troca de passageiros em Frei. Acordei com o sol forte batendo na vigia do meu quarto e praticamente sem vento. Que mudança ! Da última vez que estivemos aqui em Frei o tempo estava tão ruim que não víamos 1 metro a frente. O dia ia ser normal (aparentemente). Café da manhã as 08h00 e transporte das bagagens as 10h00. Como de costume, fui no primeiro bote carregado de bagagens até a praia onde nosso fiel senhor do Big Foot nos aguardava. Bagagens carregadas, subimos a pista em uma ensolarada manhã de domingo, mas não tão sonolenta como de costume, pois a base estava ansiosa para o evento da tarde: show do Metálica. Sim...a banda de Rock tinha passado no dia anterior por ali e agora estava na estação argentina de Carlini para fazer um show. Infelizmente nosso navio não foi convidado, mas o pessoal da base sim, então eles queriam mesmo era se livrar logo da gente. O avião chegou pontualmente fazendo um estrondoso sobrevoo a baixa altitude sobre a pista, e em menos de 15 minutos depois de aterrissar, já tínhamos terminado todo o trabalho com as bagagens. Céu azul, sem vento ainda, descemos para a praia e começamos o embarque do novo grupo. Good bye CA01, Welcome CA02. Eram 48 passageiros de várias nacionalidades, mas ainda com maioria americana. Eu estava morto, para variar, e fui direto para a cama depois do almoço. Não tínhamos previsão de atividade e iriamos cruzar o Estreito de Bransfield por toda a noite para chegar a Foyn Harbor no dia seguinte. Então, o resto do meu dia foi de dormir, comer, dormir – enfim descanço.

Dia 09/12/2013 Segunda-feira Entreprise Island e Danco Island

Acordei com o movimento do motor em baixa rotação. Como minha cabine fica no deck 02, na linha d’água e acima da sala de maquinas, qualquer mudança de rotação ou ângulo das hélices é sentido como mudança de som. Estavamos em aproximação de Foyn Harbour, nas ilhas Enterprise. Seria um passeio de zodiac pela manhã e eu estava afoito pois essa é realmente uma das coisas que mais gosto de fazer aqui. Pilotar um zodiac é uma experiência única. É como se o bote fosse uma extensão do meu pensamento, responde rápido aos comandos, mesmo os errados. Passamos a manhã entre as ilhas, explorando, até o naufrágio de um baleeiro antigo que estava sendo usado por dois veleiros e um pequeno navio de turistas como base. Foi um passeio tranquilo.

Zodiac trip em Foyn Harbour

Voltamos para o barco para o almoço e logo em seguida nos posicionamos no canal Herrera, na ilha Danco. Um pedaço de rocha coberta de neve e gelo com uma altura de pelo menos uns 300 m e de difícil escalada, mas com uma vista fantástica de 360 graus sobre o canal Herrera. O sol estava forte e acho que tostei um pouco apesar da grossa camada de protetor que eu sempre passo. Eu tinha um sensor instalado no topo da ilha que recuperei e ainda coletei material para o projeto Skuas e Pinguins da Erli na pinguineira no topo da ilha. Depois de tanto subir na neve fofa eu estava exausto e com muita fome. A janta veio na hora certa e o sono depois dela também. Finalizei meu dia no bar, escrevendo um pouco no computador, papeando com os amigos e aproveitando a vista do glacier Petzvald em Paradise Bay, onde fizemos um cruzeiro com o navio bem próximo da frente do glacier. Um pouco perto demais para mim ! mas o capitão estava confiante e o passeio foi bom. Nada como um dia duro de trabalho para que nossa cama fique mais confortável.
  
Dia 10/12/2013 Terça-feira Peterman Island & Dorian Bay

Às 06:00 hs pontualmente Mariano acordou a todos, estávamos na porta do canal de Lemaire. Havia bastante gelo e icebergs no caminho e o tempo estava cinza e encoberto. Ainda assim atravessamos com facilidade o canal e o acesso a ilha Petermann estava aberto. Nosso desembarque foi simples e rápido. Fiquei cuidando dos passageiros próximos ao refúgio argentino abandonado e aproveitei para coletar mais uma amostra para Erli. A ilha Petermann é bastante grande e há vários espaços cobertos de neve com boas caminhadas, perto de pinguineiras ou rochas. Tomei rumo ao “gap” que dá acesso a parte sul da ilha e minha tarefa era abrir caminho até a última pedra possível. Fiquei por um bom tempo ali esperando os primeiros passageiros que demoraram um pouco a chegar. Assim consegui meditar um pouco. O silêncio e a paz só eram quebrados com o som do rádio, que fiz questão de diminuir o volume. Eu adoro esse lugar – paz ! é isso que me lembra Petermann.
Foca Leopardo na frente de Lockroy

Voltamos ao barco para o almoço e tivemos trabalho para sair de Lemaire. Com o vento, o canal tinha ficado bloqueado com gelo e o caminho para Port Lockroy estava tomada por debris de pack ice e remanescentes de icebergs. Port Lockeroy ficava cada vez mais distante no tempo pois o navio tinha muita dificuldade para passar por ali. Quando Mariano nos chamou para a Gangway e o desembarque, já eram passados 16 hs. O Staff team entrou no bote e tentamos por 40 minutos chegar a Port Lockeroy sem sucesso. O gelo estava muito fechado e pedaços imensos de sea ice fechavam a passagem. Mariano quase quebrou o hélice do bote algumas vezes e ainda assim não nos movíamos. Lutamos para sair daquela armadilha de gelo, com danos em um dos remos (tentando liberar a frente do bote) e sem o sucesso de chegar a Port Lockroy, Mariano decidiu pedir ajuda ao navio e abrir caminho pela parte noroeste da ilha Gouldier até Dorian Bay. Havia um veleiro ali, o “Icebird”, que os disse que a frente de gelo tinha apenas uns 500 metros, e que o navio conseguiria passar facilmente. Colocamos todos os passageiros em botes, e enquanto o navio abria caminho pelo gelo, seguíamos atrás como um grande cisne azul e pequenos filhotes, até Dorian Bay. Ali, o “Icebird” já repousava nas águas tranquilas onde Amyr Klink tinha invernado com o Paratii. Descemos até a cabana inglesa que abria hoje um museu, como uma máquina do tempo, decorada e mantida como era a 50 anos atrás, e caminhamos pela costa de Dorian entre pinguins e neve. Lugar paradisíaco esse ! e excelente para veleiros.

Doce e querida Dorian Bay

Voltamos a bordo bem a tempo, no final da tarde, e bem a tempo de aproveitar mais um Antarctic Barbecue, temperado a vinho quente, bratwurst e cookies de chocolate branco. Chef Daniel estava inspiradíssimo. Ainda deu tempo de ir ao bar para o Antarctic Quiz coordenado por Ben e Mike, e ficar jogando Uno com Gabriel, o bartender, e Miette. Fui dormir depois da meia-noite, cansado do dia puxado, mas feliz por mais um dia sem um pingo sequer de monotonia.

Dia 11/12/2013 Quarta-feira Neko Harbour & Ohrne Harbour

Minha cabeça ainda doía de sono quando acordei com o relógio exatamente no momento que Mariano dava o bom dia habitual no sistema de auto-falante. Pulei da cama para o encontro diário do café da manhã onde dividimos as responsabilidades nas atividades do dia. Eu fiquei como taxi-boat para Neko Harbour, e me preparei para instalar mais um sensor para o próximo ano. A praia estava cheia de gelo e bem diferente da última vez que estivemos aqui. Boa parte da neve tinha degelado e a praia estava cheia de debris de gelo e pequenas pedras, mostrando que o glacier de Neko Harbour estava bastante ativo. Eu comecei cedo, levando o povo que faria a caminhada com raquetes de neve para a praia e abrindo caminho pelos blocos de gelo. Depois de algumas viagens, todos os passageiros estavam em terra e eu larguei ancora com o bote a uns 50 metros da praia e peguei uma carona no bote de Ruslan para poder subir ao topo do morro em Neko e instalar meu sensor. A caminhada até que foi fácil, pois a neve estava dura. Aparentemente tinha feito um pouco de frio na semana anterior já que os grãos de neve eram bem grandes e uma fina camada de gelo cobria toda a ponta de Neko. Após subir o pico e aproveitar a vista, comecei a descer com alguns passageiros quando de repente veio um estrondo enorme. Um pedaço do tamanho de um prédio se desprendia da geleira com muito barulho e mergulhava fundo na baia fazendo um mini-tsunami. Como combinado nesses casos, entramos todos no rádio avisando da onda, já que estávamos em um local bem alto e logo vi que o povo na praia se movia rapidamente para um local mais alto. Olhei meu bote e vi uma onda de uns 3 metros de altura indo na direção dele, mas virando para a praia...passou perto ! o bote estava em águas mais profundas e escapou por um pouquinho da onda. Blocos do tamanho de um ônibus se mexiam como se fossem de isopor e a praia foi completamente varrida pela onda. Desci correndo e quando cheguei lá estava Mariano sentado calmamente em cima de um dos nossos tambores de emergência, com os passageiros à volta tirando fotos. Todos bem, e “bem” excitados com a onda que varreu a praia. Um espetáculo e tanto.
Gaivota pescando
Voltamos a bordo, eu como taxi-boat novamente, e começamos a nos mover ara Ohrne Harbour, do lado direito da entrada (ou saída) do Canal Herrera. Mariano me pediu para trabalhar novamente como taxi-boat e por fim fazer um cruzeiro de zodiac com os passageiros que não queriam caminhar. Afinal, Ohrne Harbour era uma subida pesada e nem todos tinham preparo suficiente para isso. Peguei 10 passageiros e partimos para dar a volta no “Pão de Açúcar” antártico, já que assim se parece o morro de Ohrne Harbour. Encontramos vários pinguins, cormorões, uma foca e aparentemente uma baleia ao longe. Dei a volta pela baia bem próximo dos glaciares e entramos fundo no meio dos debris de gelo no fundo da baia. Peguei o gelo habitual para o bar e voltamos ao barco, e parti para dar suporte ao pessoal de terra para um evento muito especial: um casamento. Sim ! um casal de passageiros estava “casando”, em uma cerimônia dirigida pelo capitão do barco, em uma banquisa de gelo na praia e apenas para 4 convidados e padrinhos/madrinhas. Não é sempre que vemos um casamento antártico e o casal estava completamente feliz com o sonho realizado.

Voltamos ao barco e um pouco antes da janta tivemos uma surpresa: encontramos um grupo relativamente grande de orcas, caçando uma baleia “Sei”. Não tínhamos uma confirmação de se a caçada tinha sido um sucesso, mas vimos por várias vezes a baleia “Sei” fugindo e as orcas cercando. No final as orcas começaram a se juntar e seguir rápido rumo norte e não vimos mais a baleia “Sei”. Ou ela conseguiu escapar ou as orcas conseguiram jantar. E assim o dia se foi, e mais uma vez estávamos a caminho de Deception. Esta Classica Antarctica 02 estava chegando ao fim. Amanhã será o último dia. Buenas noches Ocean Nova.

Dia 12/12/2013 Quinta-feira Deception Island & Yankee Harbour

O balanço do barco diz tudo, e nessa manhã fria dizia que estávamos nos aproximando de Deception, já que um swell bem firme embalava a minha cama. A vontade de sair dela era zero, mas o dever nos chamou as 06:30 hs na frente dos Foles de Netuno. Eu tomei café, voltei para o quarto e troquei de roupa, e segui para a Gangway onde um frio gélido entrava pela porta. Baixíssima visibilidade. Mal dava para ver a praia. Mas seria um desembarque simples até. Segui com um grupo para a Janela de Netuno onde víamos o penhasco cheio de petréis e as ondas estourando na praia negra do lado de fora da ilha, e nada mais. Só nevoa. Ainda assim e com esse frio todo, uns 12 passageiros pularam na água no tradicional Polar Plunge. Voltamos para o almoço bem a tempo de eu parar com o rocar do meu estômago.

Waterboat em Deception


Nos movemos para Yankee Harbour e ainda consegui tirar uma breve soneca de 1 hora depois do almoço, e tínhamos pela frente um desembarque longo. Yankee Harbour era névoa pura e mal conseguíamos ver o final da praia. Desembarcamos na ponta onde ficam os elefantes marinhos e eu segui de guia de final de linha. Quando todos os passageiros já tinham visto os elefantes marinhos, peguei um bote e segui para a outra ponta da praia (que tem mais de 3 km de comprimento) enquanto os passageiros caminhavam pela praia tirando fotos e curtindo a névoa densa. A paisagem mudou então de cinza para branco, com uma neve fina e fria caindo por tudo. A pinguineira estava bastante ativa e tivemos trabalho controlando o tráfego de pinguins e passageiros, mas no final deu tudo certo. Finalizado o desembarque, tomei uma ducha quente merecida e partimos para o cocktail de despedida com o Capitão, e a janta. Eu já estava em frenesi, pois isso significava 3 horas para Maxwell Bay e internet chilena. Por hora o tempo continua fechado e não sabemos de nenhum plano de vôo, mas pelo menos temos a esperança e os planos. E assim termina mais uma Classica Antarctica (a de número 02) e amanhã é Rock Day in Frei.

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