Dia 08/12/2013 Domingo Frei Rock Day
Ops ! acabei de me perder nos dias da semana. Isso acontece quando
trabalhamos 7 x 7. Comecei a escrever os detalhes dessa viagem e vi que de
alguma maneira eu me perdi. Dia 08 domingo foi Frei Day, dia de troca de
passageiros em Frei. Acordei com o sol forte batendo na vigia do meu quarto e
praticamente sem vento. Que mudança ! Da última vez que estivemos aqui em Frei
o tempo estava tão ruim que não víamos 1 metro a frente. O dia ia ser normal
(aparentemente). Café da manhã as 08h00 e transporte das bagagens as 10h00.
Como de costume, fui no primeiro bote carregado de bagagens até a praia onde
nosso fiel senhor do Big Foot nos aguardava. Bagagens carregadas, subimos a
pista em uma ensolarada manhã de domingo, mas não tão sonolenta como de costume,
pois a base estava ansiosa para o evento da tarde: show do Metálica. Sim...a
banda de Rock tinha passado no dia anterior por ali e agora estava na estação
argentina de Carlini para fazer um show. Infelizmente nosso navio não foi
convidado, mas o pessoal da base sim, então eles queriam mesmo era se livrar
logo da gente. O avião chegou pontualmente fazendo um estrondoso sobrevoo a
baixa altitude sobre a pista, e em menos de 15 minutos depois de aterrissar, já
tínhamos terminado todo o trabalho com as bagagens. Céu azul, sem vento ainda,
descemos para a praia e começamos o embarque do novo grupo. Good bye CA01,
Welcome CA02. Eram 48 passageiros de várias nacionalidades, mas ainda com
maioria americana. Eu estava morto, para variar, e fui direto para a cama
depois do almoço. Não tínhamos previsão de atividade e iriamos cruzar o
Estreito de Bransfield por toda a noite para chegar a Foyn Harbor no dia
seguinte. Então, o resto do meu dia foi de dormir, comer, dormir – enfim descanço.
Dia 09/12/2013 Segunda-feira Entreprise Island e Danco Island
Acordei com o movimento do motor em baixa rotação. Como minha cabine
fica no deck 02, na linha d’água e acima da sala de maquinas, qualquer mudança
de rotação ou ângulo das hélices é sentido como mudança de som. Estavamos em
aproximação de Foyn Harbour, nas ilhas Enterprise. Seria um passeio de zodiac
pela manhã e eu estava afoito pois essa é realmente uma das coisas que mais
gosto de fazer aqui. Pilotar um zodiac é uma experiência única. É como se o
bote fosse uma extensão do meu pensamento, responde rápido aos comandos, mesmo
os errados. Passamos a manhã entre as ilhas, explorando, até o naufrágio de um
baleeiro antigo que estava sendo usado por dois veleiros e um pequeno navio de
turistas como base. Foi um passeio tranquilo.
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| Zodiac trip em Foyn Harbour |
Voltamos para o barco para o
almoço e logo em seguida nos posicionamos no canal Herrera, na ilha Danco. Um
pedaço de rocha coberta de neve e gelo com uma altura de pelo menos uns 300 m e
de difícil escalada, mas com uma vista fantástica de 360 graus sobre o canal
Herrera. O sol estava forte e acho que tostei um pouco apesar da grossa camada
de protetor que eu sempre passo. Eu tinha um sensor instalado no topo da ilha
que recuperei e ainda coletei material para o projeto Skuas e Pinguins da Erli
na pinguineira no topo da ilha. Depois de tanto subir na neve fofa eu estava
exausto e com muita fome. A janta veio na hora certa e o sono depois dela
também. Finalizei meu dia no bar, escrevendo um pouco no computador, papeando
com os amigos e aproveitando a vista do glacier Petzvald em Paradise Bay, onde
fizemos um cruzeiro com o navio bem próximo da frente do glacier. Um pouco
perto demais para mim ! mas o capitão estava confiante e o passeio foi bom.
Nada como um dia duro de trabalho para que nossa cama fique mais confortável.
Dia 10/12/2013 Terça-feira Peterman Island & Dorian Bay
Às 06:00 hs pontualmente Mariano acordou a todos, estávamos na porta do
canal de Lemaire. Havia bastante gelo e icebergs no caminho e o tempo estava
cinza e encoberto. Ainda assim atravessamos com facilidade o canal e o acesso a
ilha Petermann estava aberto. Nosso desembarque foi simples e rápido. Fiquei
cuidando dos passageiros próximos ao refúgio argentino abandonado e aproveitei
para coletar mais uma amostra para Erli. A ilha Petermann é bastante grande e
há vários espaços cobertos de neve com boas caminhadas, perto de pinguineiras
ou rochas. Tomei rumo ao “gap” que dá acesso a parte sul da ilha e minha tarefa
era abrir caminho até a última pedra possível. Fiquei por um bom tempo ali
esperando os primeiros passageiros que demoraram um pouco a chegar. Assim
consegui meditar um pouco. O silêncio e a paz só eram quebrados com o som do rádio,
que fiz questão de diminuir o volume. Eu adoro esse lugar – paz ! é isso que me
lembra Petermann.
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| Foca Leopardo na frente de Lockroy |
Voltamos ao barco para o almoço e tivemos trabalho para sair de Lemaire.
Com o vento, o canal tinha ficado bloqueado com gelo e o caminho para Port
Lockroy estava tomada por debris de pack ice e remanescentes de icebergs. Port
Lockeroy ficava cada vez mais distante no tempo pois o navio tinha muita
dificuldade para passar por ali. Quando Mariano nos chamou para a Gangway e o
desembarque, já eram passados 16 hs. O Staff team entrou no bote e tentamos por
40 minutos chegar a Port Lockeroy sem sucesso. O gelo estava muito fechado e
pedaços imensos de sea ice fechavam a passagem. Mariano quase quebrou o hélice
do bote algumas vezes e ainda assim não nos movíamos. Lutamos para sair daquela
armadilha de gelo, com danos em um dos remos (tentando liberar a frente do
bote) e sem o sucesso de chegar a Port Lockroy, Mariano decidiu pedir ajuda ao
navio e abrir caminho pela parte noroeste da ilha Gouldier até Dorian Bay.
Havia um veleiro ali, o “Icebird”, que os disse que a frente de gelo tinha
apenas uns 500 metros, e que o navio conseguiria passar facilmente. Colocamos todos
os passageiros em botes, e enquanto o navio abria caminho pelo gelo, seguíamos atrás
como um grande cisne azul e pequenos filhotes, até Dorian Bay. Ali, o “Icebird”
já repousava nas águas tranquilas onde Amyr Klink tinha invernado com o
Paratii. Descemos até a cabana inglesa que abria hoje um museu, como uma
máquina do tempo, decorada e mantida como era a 50 anos atrás, e caminhamos
pela costa de Dorian entre pinguins e neve. Lugar paradisíaco esse ! e
excelente para veleiros.
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| Doce e querida Dorian Bay |
Voltamos a bordo bem a tempo, no final da tarde, e bem a tempo de
aproveitar mais um Antarctic Barbecue, temperado a vinho quente, bratwurst e
cookies de chocolate branco. Chef Daniel estava inspiradíssimo. Ainda deu tempo
de ir ao bar para o Antarctic Quiz coordenado por Ben e Mike, e ficar jogando
Uno com Gabriel, o bartender, e Miette. Fui dormir depois da meia-noite,
cansado do dia puxado, mas feliz por mais um dia sem um pingo sequer de
monotonia.
Dia 11/12/2013 Quarta-feira Neko Harbour & Ohrne Harbour
Minha cabeça ainda doía de sono quando acordei com o relógio exatamente
no momento que Mariano dava o bom dia habitual no sistema de auto-falante.
Pulei da cama para o encontro diário do café da manhã onde dividimos as
responsabilidades nas atividades do dia. Eu fiquei como taxi-boat para Neko
Harbour, e me preparei para instalar mais um sensor para o próximo ano. A praia
estava cheia de gelo e bem diferente da última vez que estivemos aqui. Boa parte
da neve tinha degelado e a praia estava cheia de debris de gelo e pequenas
pedras, mostrando que o glacier de Neko Harbour estava bastante ativo. Eu
comecei cedo, levando o povo que faria a caminhada com raquetes de neve para a
praia e abrindo caminho pelos blocos de gelo. Depois de algumas viagens, todos
os passageiros estavam em terra e eu larguei ancora com o bote a uns 50 metros
da praia e peguei uma carona no bote de Ruslan para poder subir ao topo do
morro em Neko e instalar meu sensor. A caminhada até que foi fácil, pois a neve
estava dura. Aparentemente tinha feito um pouco de frio na semana anterior já
que os grãos de neve eram bem grandes e uma fina camada de gelo cobria toda a
ponta de Neko. Após subir o pico e aproveitar a vista, comecei a descer com
alguns passageiros quando de repente veio um estrondo enorme. Um pedaço do
tamanho de um prédio se desprendia da geleira com muito barulho e mergulhava
fundo na baia fazendo um mini-tsunami. Como combinado nesses casos, entramos
todos no rádio avisando da onda, já que estávamos em um local bem alto e logo
vi que o povo na praia se movia rapidamente para um local mais alto. Olhei meu
bote e vi uma onda de uns 3 metros de altura indo na direção dele, mas virando
para a praia...passou perto ! o bote estava em águas mais profundas e escapou
por um pouquinho da onda. Blocos do tamanho de um ônibus se mexiam como se
fossem de isopor e a praia foi completamente varrida pela onda. Desci correndo
e quando cheguei lá estava Mariano sentado calmamente em cima de um dos nossos
tambores de emergência, com os passageiros à volta tirando fotos. Todos bem, e “bem”
excitados com a onda que varreu a praia. Um espetáculo e tanto.
| Gaivota pescando |
Voltamos a bordo, eu como taxi-boat novamente, e começamos a nos mover
ara Ohrne Harbour, do lado direito da entrada (ou saída) do Canal Herrera.
Mariano me pediu para trabalhar novamente como taxi-boat e por fim fazer um
cruzeiro de zodiac com os passageiros que não queriam caminhar. Afinal, Ohrne
Harbour era uma subida pesada e nem todos tinham preparo suficiente para isso.
Peguei 10 passageiros e partimos para dar a volta no “Pão de Açúcar” antártico,
já que assim se parece o morro de Ohrne Harbour. Encontramos vários pinguins,
cormorões, uma foca e aparentemente uma baleia ao longe. Dei a volta pela baia bem
próximo dos glaciares e entramos fundo no meio dos debris de gelo no fundo da
baia. Peguei o gelo habitual para o bar e voltamos ao barco, e parti para dar
suporte ao pessoal de terra para um evento muito especial: um casamento. Sim !
um casal de passageiros estava “casando”, em uma cerimônia dirigida pelo
capitão do barco, em uma banquisa de gelo na praia e apenas para 4 convidados e
padrinhos/madrinhas. Não é sempre que vemos um casamento antártico e o casal
estava completamente feliz com o sonho realizado.
Voltamos ao barco e um pouco antes da janta tivemos uma surpresa: encontramos
um grupo relativamente grande de orcas, caçando uma baleia “Sei”. Não tínhamos uma
confirmação de se a caçada tinha sido um sucesso, mas vimos por várias vezes a
baleia “Sei” fugindo e as orcas cercando. No final as orcas começaram a se
juntar e seguir rápido rumo norte e não vimos mais a baleia “Sei”. Ou ela
conseguiu escapar ou as orcas conseguiram jantar. E assim o dia se foi, e mais
uma vez estávamos a caminho de Deception. Esta Classica Antarctica 02 estava
chegando ao fim. Amanhã será o último dia. Buenas noches Ocean Nova.
Dia 12/12/2013 Quinta-feira
Deception Island & Yankee Harbour
O balanço do barco diz tudo, e nessa manhã fria dizia que estávamos nos
aproximando de Deception, já que um swell bem firme embalava a minha cama. A
vontade de sair dela era zero, mas o dever nos chamou as 06:30 hs na frente dos
Foles de Netuno. Eu tomei café, voltei para o quarto e troquei de roupa, e
segui para a Gangway onde um frio gélido entrava pela porta. Baixíssima
visibilidade. Mal dava para ver a praia. Mas seria um desembarque simples até.
Segui com um grupo para a Janela de Netuno onde víamos o penhasco cheio de petréis
e as ondas estourando na praia negra do lado de fora da ilha, e nada mais. Só
nevoa. Ainda assim e com esse frio todo, uns 12 passageiros pularam na água no
tradicional Polar Plunge. Voltamos para o almoço bem a tempo de eu parar com o
rocar do meu estômago.
| Waterboat em Deception |
Nos movemos para Yankee Harbour e ainda consegui tirar uma breve soneca
de 1 hora depois do almoço, e tínhamos pela frente um desembarque longo. Yankee
Harbour era névoa pura e mal conseguíamos ver o final da praia. Desembarcamos
na ponta onde ficam os elefantes marinhos e eu segui de guia de final de linha.
Quando todos os passageiros já tinham visto os elefantes marinhos, peguei um
bote e segui para a outra ponta da praia (que tem mais de 3 km de comprimento)
enquanto os passageiros caminhavam pela praia tirando fotos e curtindo a névoa
densa. A paisagem mudou então de cinza para branco, com uma neve fina e fria
caindo por tudo. A pinguineira estava bastante ativa e tivemos trabalho
controlando o tráfego de pinguins e passageiros, mas no final deu tudo certo. Finalizado
o desembarque, tomei uma ducha quente merecida e partimos para o cocktail de
despedida com o Capitão, e a janta. Eu já estava em frenesi, pois isso
significava 3 horas para Maxwell Bay e internet chilena. Por hora o tempo
continua fechado e não sabemos de nenhum plano de vôo, mas pelo menos temos a
esperança e os planos. E assim termina mais uma Classica Antarctica (a de
número 02) e amanhã é Rock Day in Frei.



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