sexta-feira, 29 de novembro de 2013

Small Ship - Big Drake

Dia 20/11 Quarta-Feira Drake mais uma vez

A primeira viagem “ship express” chegou ao fim rapidamente e a correria foi enorme para nós. As milhões de pequenas coisas para fazer a bordo se multiplicaram e passaram para a categoria de “zilhões”, e assim, o dia 20 passou com uma velocidade de um raio. Entramos no canal de Beagle as 16 horas do dia 19 e o prático nos levou graciosamente (ou melhor, rapidamente) para a frente de Port Williams, mas sem chance de desembarque. Era apenas um controle de aduana e passaportes. Ainda assim, deu para curtir umas horinhas da noite com os amigos no bar, jogando conversa fora e escutando música. Eu nem dormi – virei direto a noite terminando o blog e as fotos, além de escrever os e-mails que precisava. Em Port Williams consegui sinal para a internet e assim atualizei muita coisa no meu computador. Às 2 horas da manhã o prático argentino assumiu a dificílima tarefa de atravessar o navio de Port Williams para Ushuaia (estou sendo sarcástico !) e por volta das 7h00 atracamos novamente no nosso porto de partida, mas dessa vez com muita neve, e um vento gelado de quebrar o queixo. Com o café da manhã tomado, já começamos o trabalho pesado de bagagens e troca de passageiros e com um pouco de esforço, por volta das 10 hs da manha já tínhamos despachado praticamente todos os passageiros, restando apenas pequenas tarefas a bordo. Rapidamente montei minha mochila com o computador, peguei-me casaco e zarpei para a cidade a procura de um café com internet gratuita. Assim pude atualizar o blog a tempo. Tinha que voltar as 14h30 para o navio para estar completamente pronto para receber novos passageiros. É engraçado como o tempo é relativo. Olhando agora parece até que foi tudo bem tranquilo e fiz tudo que eu queria, mas na verdade, durante aquela manhã e tarde, o tempo correu tanto que a minha impressão é que deixei coisas para terminar (o que é meio verdade). Pelo menos pude falar com a família e alguns poucos e seletos amigos. Eu não era o único, Ben, Pernille, Mike, Miette e Nico estavam comigo por ali.
Aproveitando, embora já na segunda semana de blog, devo falar rapidamente sobre meus companheiros de Antártica XXI.
Wandering Albatroz voando sobre as águas do Drake


James Watts – nosso chefe de expedição é um inglês com vasta experiência antártica, e que está conosco pela primeira vez, nas duas primeiras viagens, substituindo “El Chefe” Mariano Curiel, que está “encalhado” em Punta Arenas e subirá a bordo na próxima Viagem. Dolores Figueroa, ou apenas Loli, é nossa gerente de qualidade e argentina workaholic de primeira, também conhecida como “formiga atômica”. Niguel é um britânico amante de pássaros e conhecedor (e vivenciador) de várias histórias antárticas, e está nesse ramo a uns 23 anos. Johnatan Zacarias, ou Jono, é o nosso francês fotógrafo oficial. Mike Hann é o nosso guitarrista canadense especialista em baleias. Ben Jackson, o new zelandês guru da meteorologia, atua como assistente de James, além de ser o principal responsável por vários de nossos protocolos de segurança. Pernille, a namorada de Ben, é uma dinamarquesa de braços fortes, escaladora e piloto de zodiac. Ruslan Elisev é um russo recém-incorporado ao grupo, responsável pelos zodiacs e pelas botas. Nico, meu companheiro de quarto, é um chileno guia de montanha e fotógrafo de excelente qualidade. Miette, uma chilena da altura de um pinguim imperador, também é nova no pedaço e cuida do shopping a bordo. E por último e não menos importante, meu querido amigo Dr. Sergio – o melhor cardiologista chileno a bordo e também o pior ortopedista (para quem não sabe, Dr. Sérgio que me atendeu a bordo 3 anos atrás quando eu fraturei o dedo – http://diarioantartico2010.blogspot.com). Na primeira viagem ainda contamos com Agustine, uma argentina corredora de ultramaratona e que será a responsável pelos passageiros em Punta Arenas.

Apresentações feitas, Mike e eu ficamos no cais entre 3 e 4 hs da tarde para receber os novos turista. “Battle stations” (postos de combate), gritava Mike cada vez que chegava um pequeno grupo. E realmente foi uma batalha – passaportes, traduções, identificações. Uffa...eramos 23 diferentes nações a bordo e as 16h40 minutos tínhamos todos os passageiros a bordo. Seguimos para Port Williams para mais uma sessão de tortura com a aduana chilena e prontamente seguimos viagem às 20hs par Cabo de Hornos. Infelizmente tivemos que deixar Agustine em Port Williams – saudades ! E assim entramos no Drake – eu morto de sono e casado, mas sensação de dever cumprido.

Dia 21/11 Quinta-Feira Drake Shaking Drake

O balanço do mar fazia eu escorregar da cama e antes de levantar já tinha percebido que a previsão que tínhamos parecia se concretizar. Ondas fortes e vento forte ! mas com um detalhe – a direção do mar e vento estava “empurrando” o navio na direção certa. Com isso, o balanço era muito melhor do que eu esperava. Contudo, os passageiros estavam sofrendo de “enjôo psicossomático”, ou seja, estavam enjoando só pelo fato de ser o Drake. Não tinha muita coisa para fazer a não ser me organizar. Pela manhã dei uma palestra sobre oceanografia geral do Oceano Austral, e mesmo com mar forte e um balanço desconfortável, os passageiros que estavam assistindo (uns 20 talvez) se mantiveram firmes e fortes. Pela tarde, após o almoço, tive mais tempo para mim, e pude experimentar novas técnicas de fotografia com meus amigos albatrozes e petréis. Ainda aproveitei para interagir mais, assistindo a palestras sobre baleias e sobre história antártica, dadas por Mike e Nigel, respectivamente, além de pequenas coisinhas. Eu estava feliz também porque havia recebido as licenças ambientais e poderia começar a coletar material para minha amiga Erli nessa próxima viagem. Eu já havia recuperado meus sensores e baixado os dados, que curiosamente mostravam temperaturas muito frias (-28°C) agora em outubro e setembro de 2013, enquanto que o inverno parece ter sido bem mais ameno pela península (-12°C). E assim o primeiro dia full Drake terminou com grandes “rollers”, ondas bem altas que faziam o navio balançar muito, mas um balançar devagar e continuo, daqueles que não dá enjoo. Só precisava de um pouco de equilíbrio e pronto. Drake sweet Drake.

Dia 22/11 Sexta-Feira Drake ensolarado Drake

Acordei com um forte sol entrando pela vigia da minha cabine e aos poucos começava a sentir que as ondas estavam longas e bem menores do que ontem. No mapa de navegação, tínhamos cruzado 3/4 do Drake e seguíamos firmes e em velocidade para sudeste, para o rumo entre as ilhas Smith e Deception. O café da manhã seguiu tranquilo até alguém gritar “baleiaaa”. A confirmação veio logo depois da ponte: uma baleia azul de 30 metros de comprimento nadava graciosamente na frente do navio. É óbvio que paramos, e ficamos dando voltas lentamente para se aproximar dela, mas, como todas as baleias grandes, elas não curtem muito navios e logo se afastou deixando apenas a visão do seu esguicho no horizonte. Voltei para o meu tranquilo café quente pelo menos até as 9hs pois logo em seguida eu estava dando uma palestra sobre dinâmica do gelo marinho, para um grupo de uns 15 sobreviventes do Drake. Até que foi tranquilo. O Drake estava calmo apesar das ondas de 3-4 m de altura em um swell bem longo vindo de noroeste.
Os dias no Drake são longos e sem muitas opções. Eu coloquei minhas fotos em ordem antes da palestra da tarde que era sobre os procedimentos de segurança com zodiac. Nesse momento, o navio entrou em uma calmaria ao redor, com um nevoeiro de cortar com faca. Não dava para ver um palmo na frente do nariz. E com isso, só nos restou a janta, e o final da noite no bar assistindo a Marcha dos Pinguins na versão original em francês, com os comentários de Jono sobre como o filme foi feito. Todo mundo cedo para cama – o dia será longo.

Dia 23/11 Sábado Gerlache – Curverville Island, Neko Harbour e Port Lockroy

Cinza e branco, essas eram as cores oficiais de Cuverville em uma manhã super fria e de maré alta, na maior colônia de pinguins Gentoo da região. Assim que chegamos à praia percebemos que o gelo seria um problema. Não havia espaço para desembarcar por causa da neve acumulada em uma forma de prateleira com um grande espaço vazio abaixo aberto pela maré, entre rocha e gelo. Tivemos que cavar o caminho a frente, meio dentro meio fora d’água e para isso usamos o sapão de neoprene, que em teoria deveria ser a prova d’água. Descobri minutos depois que o meu tinha um furo e logo eu tinha uns 5 litros de água dentro do meu. Nada problemático. Dava para aguentar até o final do desembarque. E os pinguins e passageiros aproveitaram bastante. Era ali em Cuverville que dava para perceber que os 5 metros que tínhamos que deixar entre nós e os pinguins era completamente desrespeitado pelos pinguins. Era só ficar quietinho e sentado na neve que os curiosos gentoos se aproximavam quase que passando por cima de nossas botas.

Pés de pinguins gentoo
5 metros de pinguin pode ser "bem perto"

E assim passou a manhã rápida com um almoço mais cedo que o normal pois estávamos entrando em Neko harbour, a paradisíaca baia Andvord com seus glaciares até o topo da calota antártica e águas paradas, mesmo sendo tudo cinza e branco por causa do mau tempo. Era hora de fazer exercício. Subir a escaleira de neve até o topo do mundo (quer dizer, mais ou menos o topo, pelo menos por ali), uma plataforma de rocha que se projeta para dentro do Glacier e aponta para a entrada da baia, com uma barulhenta colônia de pinguins Gentoo. Ali é o lugar ideal para ver o glacier de Neko se desprendendo e caindo ruidosamente na água, mas pelo frio e vento daquela manhã, acho que o glacier dediciu dormir até um pouco mais tarde. Não ouvimos nada, sequer uma pedrinha de gelo caindo na água, por todo o período de desembarque.
Recuperei ainda um dos meus sensores e desci para a praia fechando a linha aberta pelos passageiros e zarpamos dali rumo a Port Lockeroy, para um desembarque na pequena ilha Gouldier antes da janta. Bem, pelo menos era essa a idéia, mas infelizmente tinha um “francês” no caminho. O navio L’Austral, de bandeira e hábitos franceses, se atrasou na operação em Port Lockeroy e ficamos sentados na borda do gelo da baia esperando a graça francesa mover seus traseiros dali. É ... as vezes bate stress entre os navios porque a boa vontade é uma característica rara entre os operadores de turismo. Tudo isso demorou mais de 1 hora o que deixou todos com muita fome. Eu aproveitei para instalar mais um sensor na torre de Port Lockeroy, com a ajuda da chefe da base, a Helen e ainda deu tempo de bater um pouco de papo com as meninas de Lockroy naquela atmosfera dos anos 50 que a base exala. A janta chegou bem a tempo antes de eu ter um colapso de fome, as 21h00, seguido do merecido sono na minha cama com meu travesseiro gigante. Nada melhor do que uma cama quentinha depois de um dia gelado e cinzento, que por sinal, é o padrão dessa segunda viagem.

Dia 24/11 Domingo Lemaire and Petermann Island
Minha meditação em Verdnasky

Entramos no Canal de Lemaire com um nevoeiro muito forte e cheguei a pensar que não daria certo chegar mais ao sul. No entanto, apesar da neve fortíssima que caia naquele dia, Petermann island foi absolutamente normal (e muita fria). Mal dava para ver um palmo na frente do nariz. Pelo menos consegui instalar meu equipamento. Fizemos o trajeto normal dos passageiros e no finalzinho ainda consegui ir para a parte sul da ilha em um lugar que eu não conhecia muito. É estranho...segunda viagem e o meu ritmo é de introspecção. Adoro fechar a fila pois normalmente é o tempo que consigo ficar sozinho e aproveito mais a natureza mágica da Antártica.
Quebrando o gelo em Penola Strait

Quebrando o gelo em Penola Strait

Voltamos ao navio na hora do almoço e o capitão decidiu ver quanto o Ocean Nova aguentava de gelo. Ao sul do estreito de Penola havia muito gelo e mesmo assim o navio entrou firme e forte, quebrando o gelo para a alegria dos passageiros. Estávamos chegando a Verdnasky - a estação ucraniana nas ilhas Argentinas, nosso objetivo mais ao sul. Foi um desembarque dificil porque a ilha estava sem acesso direto e tinhamos que parar os zodiacs no gelo e caminhar por uns 400 metros sobre uma placa que para mim não parecia muito estável. Mesmo assim, fizemos o desembarque e eu fiquei de "boatsman" na borda daquele gelo fino, cuidando dos barcos. Excelente - pude desfrutar completmente da paisagem em solitário. Meditei por 20 minutos deitado no zodiac, sozinho, ouvindo o som do mar batendo no gelo, gotas, vento, skuas, gaivotas, pinguins....pequenos tintilares da natureza. Delicioso.

Logo os passageiros começaram a voltar e alguns deram um pouco de trabalho pois estavam completamente tontos por causa da Galinska (acho que é assim que se escreve), a bebida parecida com vodka que é servida em Verdnasky. Embarcamos todos (com certa dificuldade) porque o gelo fino da borda estava muito frágil e a cada investida do bote arrebentava toda a borda. Afinal, todos queriam voltar a bordo logo para desfrutar do excelente churrasco antártico. E assim terminou mais um dia em Neverland.

Tina e o Antarctic Barbecue

Dia 25/11 Segunda-Feira Paradise bay – the bay of whales

Fui acordado hoje as 6h15 pelo chamado no sistema de som do navio avisando que haviam orcas nadando ao redor do navio. Bem, meu cansaço ainda era visível e decidi que meu travesseiro era melhor do que qualquer espetáculo de orcas. Mesmo assim pulei da cama um pouco depois, para mais um dia no paraíso – estávamos em Paradise Bay. Porém, o paraíso estava um pouco mais cinza do que o de costume. Paramos na frente da estação argentina Almirante Brown que estava desativada – ninguém em casa, e com metros e metros de neve na porta da frente. Assim que chegamos na praia tivemos um pouco de trabalho para abrir caminho entre tanta neve. Minha tarefa era subir até o pico que tem atrás da estação abrindo caminho no meio de tanta neve fofa. Foi ai que o paraíso se mostrou um pouco menos paradisíaco. Ventos fortes de até 25 nós batiam com força na encosta gelada e levantavam nuvens pesadas de neve que giravam como pequenos tornados no gelo. A caminhada foi difícil e a subida mais ainda, mas a vista valia muito a pena. Ao redor da estação, pinguins Gentoo faziam uma boa algazarra e lá de cima do pico era possível identificar as manchas de guano na neve e a concentração de pinguins lá embaixo na estação. O vento subiu mais ainda e com certeza ultrapassou a marca dos 30 nós. O desembarcadouro na pedra que tínhamos usado para chegar a terra agora era lavado por ondas de 1 m de altura e muitos debris de icebergs que se espatifavam contra as pedras. Deu bastante trabalho para colocar todos os passageiros nos botes e voltar para o navio. Ficamos absolutamente molhados com o spray das ondas que batiam com força nos zodiacs, mas enfim entramos a bordo e fomos para um merecido almoço.

Pulando na neve em Almirante Brown - Paradise Bay

A tarde chegou com ventos fortes fazendo o navio adernar bastante, e era praticamente impossível ficar mais do que poucos minutos fora do barco. Com todo esse vento, o céu abriu em um azul profundo com nuvens negras no horizonte, carregadas de neve. Movemos o navio para um pouco mais ao norte, para um arquipélago chamado de Melchior Islands. Um resquício antigo da conexão entre a Antártica e a América do Sul, pois as rochas em parte das ilhas são as mesmas que encontramos nos dois continentes. Grandes paredes de andesita, com partes em granito rosado e intrusões de basalto, todas cobertas com uma grossa camada de glacê de neve bem branca ou mesmo gelo bem antigo, bem azul.  Mesmo com o vento forte decidimos lançar ancora atrás da estação argentina (isso mesmo ! Outra estação argentina abandonada !) e colocar os bote na água para um passeio através dos canais e labirintos entre as ilhas. Eu fiquei por último e tive apenas 4 passageiros comigo o que tornou a navegação um pouco mais difícil por causa do baixo peso e vento forte. Ainda assim, deu bastante prazer navegar por aquelas águas cheias de icebergs e pedaços de gelo flutuando entre os canais agitados pelo swell de alguns metros que bata na face norte das ilhas e penetrava pelos canais em ondas gordas. Eu naveguei por ali fazendo dupla com o zodiac do chefe Jamie, explorando as aberturas e as formas do gelo preso no meio das ilhas. Em um momento, Jamie parou e um passageiro pegou um pequeno bloco de gelo branco com poucas bolhas, para alguns drinks no bar. Dai começou o desafio – eu vi um gelo negro (praticamente sem bolhas) boiando perto do zodiac e falei que aquele poderia ser um pouco melhor para drinks. Alguém (não me lembro quem) disse que era grande demais e impossível de pegar (haha!). Nada é impossível por aqui, ou quase. Em nosso bote com 4 bravos passageiros e eu como piloto, decidimos trazer aquele imenso bloco pesando uns 200-250 kilos e em 10 minutos, com muito trabalho e usando o cabo da ancora do bote, e obviamente com a plateia do outro barco, batalhamos duro e pimba ! trouxemos para bordo um imenso pedaço de gelo, sob aplausos e festa dos passageiros. Com a alma lavada e o orgulho saciado, voltamos ao barco ainda com vento forte e então veio a notícia – estávamos voltando rumo a Ushuaia. A previsão do Drake era tão ruim nos próximos dias que decidimos não fazer Deception Island que estava previsto para a manhã do dia seguinte, e tomamos rumo um pouco mais aberto para cruzar o Drake em um ângulo melhor para enfrentar o swell e o vento forte. Fiquei no bar até um pouco mais tarde, conversando com Mike, Daniel (o chef da cozinha), Gabriel (bartender), Miete e Jono, e depois fui tentar domir com o balanço do bar batendo no costado do navio de tempos em tempos.
Super gelo de 200 kg para dentro do barco - tarefa fácil

Dia 26/11 Terça-feira- Drake Drake
O Drake pela vigia

Amanheceu com um Drake liso e praticamente sem ondas. Essa calmaria antes da tempestade é típica e dava para perceber o clima de tensão no ar. Tinhamos um dia cheio de palestras e pequenas coisas para fazer, mas o mais importante – preparar o navio para o que viria adiante. O capitão corria como louco, batendo a casa dos 13 nós, velocidade máxima do navio, e ao longe víamos o horizonte cinza escuro e o vento aumentando cada vez mais. Durante minha palestra sobre Mudanças Climáticas, o mar já começava a bater com mais força no navio, que balançava bastante, mas ainda em um nível aceitável. O resto do dia correu normal, mas tenso – pessoas pedindo pílulas contra enjoo e um almoço/janta com mais ou menos 60% de público. Fui para o bar a noite ver se assistia um filme legal mas na verdade estava mesmo era passando um filme chato e decidi ir dormir mais cedo, embalado por um Drake nervoso e que parecia estar pronto para uma luta.
Força 11 !

Dia 27/11 Quarta-feira Drake powerfull Drake

Não foi fácil. Realmente não foi fácil. O dia começou como esperado, as ondas ainda meio altas com 4-5 metros de altura e vento relativamente forte entrando pelo nariz do navio, um pouco à esquerda (bombordo). Quando passávamos uma onda um pouco mais alta mexia tudo. Fiz umas filmagens e pequenas fotos na ponte de comando, com o espetáculo de mar bravo e ondas altas. Tive ainda uma palestra pela manhã e foi o que salvou meu dia. Então veio o almoço e dai foi o caos. Justamente na hora mais importante, o navio entrou em uma zona com ondas mais altas ainda e a cada passagem de vaga grande, inclinávamos uns 25 graus, o que é bastante. A falta de experiência dos passageiros em mar bravo era óbvia, quando víamos pratos e copos voando para todos os lados. Ao invés de se agarrar nas mesas (que são fixas), as pessoas se agarravam nas cadeiras e dai é que rolavam mesmo. Que bagunça ! Mas o pessoal do hotel trabalha muito bem e controlou a situação perfeitamente. Durante a tarde, alguns passageiros se dispersaram para suas cabines e outros para o Panorama Lounge, para assistir um filme. Eu aproveitei para tirar fotos das ondas e Ben trouxe um inclinômetro – para medir a inclinação do barco nas ondas maiores. Acreditem ! o vento aumentou ainda mais e começamos a ser castigados por ondas de até 10 metros de altura. O pico de inclinação chegou a 42 graus o que significa praticamente andar pelas paredes. A coisa começou a ficar perigosa dai e o capitão decidiu fechar todos os decks, a biblioteca na popa e o Panorama Lounge. As coisas no meu quarto simplesmente voavam de um lado para outro e tive bastante trabalho de organizar tudo dentro do armário.

Mais um pouco de força 11

Na cozinha, molhos, bolinhos, frutas, frituras, simplesmente voavam, e quando passei no corredor do meu quarto (que dá de frente para a cozinha) escorria molho de tomate pela porta. Apesar do clima de destruição, o moral estava alto e ficamos todos juntos no restaurante e lobby do navio, fazendo piadas e brincando com a inclinação. Era impossível ter janta e o chef Daniel partiu para o plano de guerra – sandwiches, frutas e sorvetes – e mesmo assim ainda voou comida por todos os lados. Quando a noite chegou, ainda fomos para o Panorama longe fazer um limpa, reabrimos o navio e aos poucos o mar começou a ficar menos agressivo. Ainda tive uma ou duas ondas maiores que bagunçaram meu quarto mas nada tão grande como o que tivemos durante o dia. Eu fico imaginando o pequeno “Pelagic”, o veleiro que estava em Port Lockroy e que agora estava cruzando o Drake atrás da gente. Saldo: várias coisas quebradas, inclusive os ovos do chef Daniel, ondas de até 10 m de altura e ventos que bateram na casa dos 50 nós (100 km por hora mais ou menos).

Dia 28/11 Quinta-feira Dia de arrumar a casa


Acordei as 7h00 e fiquei zanzando pelos corredores do navio até o restaurante abrir para o café da manhã. Eu estava morto de fome. Embora estivéssemos protegidos pelas ilhas e a entrada do Canal de Beagle, o vento era forte batendo na casa dos 60 nós (mais de 120 km/h), fazendo com que o navio ficasse um pouco agitado. Ondas de 1 m e vento forte tornavam impossível a operação com o Prático. A manhã seguiu relativamente tranquila, mas de muito trabalho – limpeza de tudo que havia quebrado na cozinha e principalmente para nós do grupo, a organização da sala onde deixamos material de neve e estoque do shopping a bordo. O prático entrou a bordo depois de algum tempo, por volta das 10hs, em uma manobra bastante arriscada emparelhando a lancha rápida da marinha com o navio, em um canal protegido onde o vento parecia estar um pouco melhor. Dai seguimos para Port Williams onde tive a grata surpresa de ver o Almirante Maximiliano, o navio brasileiro H41, ancorado no porto, aparentemente aguardando por melhores condições de tempo para atravessar o Drake. Bem, tomara que tenham mais sorte do que nós. Agora nossos planos são de desembarcar as 17h30 em Port Williams e cruzar para Ushuaia apenas nesta próxima madrugada. Com isso, esse será a postagem desta viagem e a próxima, que começa amanhã dia 29/11, será postada dia 03/12 a partir de Frei Station, na ilha Rei George. E que Netuno nos proteja em mais uma travasseia do Drake em dois dias.
A zona que ficou a geladeira da cozinha

Daniel contando os ovos quebrados.


PS: Postando esse texto agora e desfrutando uma boa cerveja Beagle no Tantsara em Ushuaia, percebi a próxima viagem será um pouco mais complicada para postar informações. Vamos direto para as Ilhas Shetlands e depois esperaremos o vôo com a Primeira Antártica Clássica no dia 3 de dezembro. Até lá !

quarta-feira, 20 de novembro de 2013

10 dias - 2 drakes

Dia 12/11 Terça-Feira Drake sweet Drake
Eu pulei da cama quando o relógio tocou as 6h00 para ver onde estávamos. Já deixamos Cape Horn para trás e entravamos em um Drake calmo com pouco vento e sol. Uma visão e tanto. Pequenos petréis, grandes petréis, e albatrozes de várias espécies usavam a passagem do navio como uma montanha russa divertida e nos proporcionavam um espetáculo, como se quisessem ser fotografados. Fiz uma colagem de fotos e coloquei no facebook, usando a rede do navio que por sinal é bastante cara ! mas valeu a pena. Assim pelo menos a família e os amigos sabem onde estou e o que estou fazendo. Não tive muito tempo para escrever e-mails ou mesmo os cartões postais. Devo fazer isso mais para frente, mas tenho que fazer. Tudo é novo, tudo absolutamente novo e excitante. Sair da América do Sul e partir para Neverland era tudo o que eu queria, e estávamos finalmente a caminho. É claro, tinha o Drake, mas até o momento parece que estava tudo tranquilo. Dei uma palestra sobre “Southern Ocean Oceanography” e aproveitei o resto do tempo no trabalho do navio. As pequenas e infinitas coisas que nunca terminam a bordo haha. Fui dormir bem tranquilo mas na verdade eu queria mesmo era trabalhar no computador, mas assim que eu deitei a cabeça no travesseiro, minha cama começou a me puxar para dentro e tive que desligar o computador. Sweet dreams of Neverland.
Drake Lake Drake


Dia 13/11 Quarta-Feira Drake Drake
Acordamos em um Drake tranquilo e liso, com pouco vento e muitos pássaros na traseira do navio. Aproveitei minha manhã fazendo fotografias dos pássaros na popa do navio. Ainda estou aprendendo a mexer na câmera e Nico, meu companheiro de quarto e excelente fotógrafo, tem me dado altas dicas de como fazer isso. À tarde tive uma palestra sobre “sea ice dynamics” e ansiosamente esperamos pelo final da travessia.  Por volta das 22hs avistamos Smith Island e a Ilha Deception. Estávamos finalmente entrando em Neverland.
Petréis e Albatrozes ao redor do navio.


Dia 14/11 Quinta-Feira Ilha Cuverville e Wilhelmina Bay
Nosso primeiro desembarque foi muito esperado. Cuverville é “mamão com açúcar” pois é relativamente plano e tranquilo, com muitos pinguins Gentoo. Eu fiquei de Zodiac Driver pela manhã transportando as ordas de passageiros para a praia e relativamente livre para andar por onde eu quisesse ao longo da manhã. Foi um momento onde pude tirar várias fotos aproveitando a luz magnífica daquele lugar. Um casal francês bem novinho está dando a volta ao mundo e agora conosco na Antártica, e ela está tocando Ukelele (o pequeno violão havaiano) em cada lugar. Acabei aprendendo algumas notas para, quem sabe em um futuro próximo, ter o meu próprio Ukulele :) Tocar na Antártica é um privilégio. Passamos a manhã tranquila naquele lugar, com os passageiros extasiados com a beleza da ilha.
Pela tarde seguimos rumo NE para Willhelmina Bay, onde fizemos um longo (e gelado!) passeio de zodiac. Meu grupo, 8 alemães e um casal belga, me fez trocar a língua para o alemão, o que me fez pensar que tenho que treinar mais. Ainda preciso de alguns minutos para trocar de língua. Parece que com o tempo o alemão tem desaparecido do meu cérebro e só posso reavivar a memória treinando. Como sempre, meti a mão na água para tirar um bloco de gelo para o bar a noite, embora eu praticamente não tenho tido vontade de frequentá-lo. Acabei indo dormir cedo para aproveitar o dia seguinte onde entraríamos no Lemaire.
Cuverville & Wilhelmina bay


Dia 15/11 Sexta-Feira Lemaire, Petermann Island & Plenneau Bay
Dia de pular fora da cama bem cedo. As 5h00 pulei da cama e fui rápido para o Panorama Louge atrás da belíssima vista do Canal de Lemaire. Estávamos entrando nele, um pouco atrás de um outro navio de turismo, o “Polar Pionner” e seguimos para Petermann Island, o nosso destino mais autral. A ilha é uma formação vulcânica com um enorme platô que fdeve ter sido soerguido na última deglaciação pois e possível encontrar marcas do nível do mar em parte da ilha que hoje está bem acima (uns 50 m) do nível atual. O sol apareceu e acabou fazendo muito calor. Embora as temperaturas no ar variassem ao redor dos 0°C, o meu pequeno termômetro instalado junto ao corpo marcava uma temperatura de 12°C (!). Verão antártico ! Localizei de pois de um tempo meu sensor de temperatura na ilha, instalado em 2012, e agora eu teria uma ideia de como as temperaturas tinha variado no inverno. Na ilha encontramos pinguins Gentoo e Adélie dividindo o mesmo espaço, e próximo aos abismos de rocha, encontramos ainda um ruidoso grupo de Cormorões de olho azul.  Todos os ninhos de adélie estavam com ovos e os gentoos ainda estavam na fase de “namoro”. Era engraçado ver os gentoos roubando pedras dos ninhos dos adélies.
À tarde nos movemos para Plenneau Bay onde fizemos um passeio entre icebergs e encontramos uma ampla e firme placa de gelo para aguentar todos do grupo para uma foto. Quando juntamos as 82 pessoas no centro da placa, ele cedeu um pouco e faz uma piscina no meio da neve, o suficiente para molhar alguns, mas nada perigoso. Terminamos a foto e saímos rapidamente da placa que pareceu estar começando a se desestabilizar. Durante as duas horas seguintes, passeamos entre icebergs e placas de gelo, a procura de um pouco de vida marinha, mas tirando uma linha de pinguins que saiam da água próximo a uma banquisa de gelo, não havia mais nada por ali. Na volta, um excelente “barbecue” nos esperava a bordo, com muita carne e vinho quente. Sob o sol maravilhoso do fim de tarde antártico, era tudo que precisávamos para nossa próxima etapa – seguir para Port Lockeroy.
O Canal de Lemaire e Petermann Island 

Barbecue e Plenneau Bay


Dia 16/11 Sábado – Port Lockroy & Ohrne Cove
A noite foi barulhenta, com muitas pancadas no costado feitas por grandes blocos de gelo na passagem do navio. Quebramos muito gelo para passar pela área sul do estreito de Gerlache, até a Ilha Gouldier onde está a base de Port Lockroy. Praticamente fechado, o acesso a ilha Gouldier era uma barreira intransponível com gelo de até 2 m de espessura. O Capitão do nosso bravo navio decidou tomar outra rota, dando a volta na ilha e entrando ao norte pelo canal de Neumeyer. Tivemos muito trabalho para chegar a Port Lockroy e encontramos uma capa espessa de gelo sobre a Baia da Ilha Goldier. Ao invés de operarmos com Zodiacs para transportar os passageiros, decidimos “fixar” o navio no gelo e caminhar até a estação. Ficamos entre Jougla Point e Port Lockeroy, caminhando pelo gelo duro com apenas alguns buracos na linha de maré. Recuperei o meu pequeno sensor de temperatura que eu tinha instalado na torre de Port Lockeroy um ano antes e estava excitado para ver como seria a variação de temperatura por ali no inverno. Quando voltei ao navio na hora do almoço eu baixei os dados e vi que na verdade o inverno tinha sido bem tranquilo, com temperaturas relativamente altas (-10°C em média). Nevava muito pela manhã com um tempo fechado e cinza, mas conseguimos aproveitar bem a manhã. O “Pelagic”, um veleiro de 50 pés de aço que faz charters para a Antártica, estava fundeado logo atrás da estação, mas não havia ninguém em casa.
À tarde zarpamos para Ohrne Harbour, para subir uma enorme parede de neve e gelo até uma das mais belas formações daquela área. Muita neve, muita mesmo ! e o povo queimou calorias subindo aquilo tudo. A operação foi meio corrida e acabei ficando no meio do caminho, onde a maioria dos turistas e concentrava, cuidando um pouco daqueles que não estavam com fôlego para subir a parede. No final das contas, entre indas e vindas, eu devo ter subido e descido umas 4 vezes no total ! (Academia pra que ?!). No fina do dia eu estava bastante cansado mas satisfeito por mais uma missão cumprida. Em Orhne, a colônia de pinguins “Chinstrap” estava muito bem, alguns ninhos já com ovo, e praticamente nenhuma carcaça pela volta, embora nós observamos as skuas, as aves de rapina aqui na Antártica, bastante ativas. Um dos passageiros conseguiu inclusive fotografar uma skua pegando um ovo em um dos ninhos.
No final do dia, a festa foi concentrada no rancho da tripulação no convés inferior. Era o aniversário de René, o Hotel Manager com direito a karaokê e muita comida filipina (a maioria da tripulação é filipina, gente muito boa e alegre). Mas eu tinha que dormir e não fiquei até muito tarde. Eu estou tendo uma relação de amor e ódio com minha cama por aqui. As vezes quero dormir e ela não deixa, as vezes quero trabalhar nela e ela também não deixa.

Passeando no gelo na baia da ilha Goldier e meus amigos antárticos

Dia 17/11 – Domingo Ilha Deception & South Shetlands  
Navegamos pela madrugada até a ilha Deception já sabendo que a noite iria ser curta. A previsão de chegada em Baily Head na borda oriental de Deception estava prevista para as 05h30 da manhã. Então o jeito foi colocar o relógio cedo, pular da cama e se preparar. Seria um desembarque difícil. Baily Head é uma praia extensa voltada para nordeste com um swell (ondas longas) bastante grande. A praia é lavada pelas ondas a uma altura de mais de 5 metros e vimos ali blocos de gelo lançados por tempestades que dão a impressão de ter passado um tsunami por ali. A operação naquela praia consiste em enfiar o bote em velocidade praia acima, e 3 a 4 pessoas com Waders (um sapão de pescador, a prova d’água) seguram o bote enquanto tomamos uma ducha fria de água pelas ondas. Minha função era exatamente essa: segurar o barco na parte mais profunda da praia para que ele não virasse, juntamente com Mike, Jamie & Nico. Aproveitei e coloquei um capacete com a minha câmera Gopro instalada para filmar tudo. Entre indas e vindas, desembarcamos todos sem problemas (apenas um pouco molhados) e partimos para uma visita rápida a Baily Head com seus mais de 100.000 pinguins de barbicha (Chinstrap). A colônia estava bastante acordada com os pinguins gritando por todos os lados a procura de seus pares. Poucas carcaças na praia, o que indicava que estava tudo indo muito bem.  A maioria dos ninhos já tinha pelo menos 1 ovo e muito em breve os pares estariam colocando o segundo ovo. Espero voltar aqui nas próximas semanas para começar a coletar o material prometido para as meninas da UFRJ (Dra. Erli e companhia).
As 8h30 começamos o movimento de retorno, já completamente congelado e com os pés molhados, para me apropriar de um excelente e quente café da manhã. Enquanto isso, o navio deslizava tranquilamente para a entrada da baia, onde desembarcamos as 10h00 em Whalers Bay, dentro de Deception. Minha tarefa foi levar um grupo até a “Janela de Netuno”, como é conhecido o “gap” na parede da cratera com uma vista espetacular para o oceano. Embora com algumas nuvens e um pouco de sol, a atmosfera estava tão clara que podíamos ver ilhas e a península lá distante no horizonte. Voltando para o ponto de desembarque, já havia um movimento frenético dos passageiros para o famoso “polar plunge” – um banho nas águas “quentes” da praia em Deception. Na verdade, por causa da atividade vulcânica, a água em alguns pontos fica aquecida por fumarolas submersas, o suficiente para os passageiros se aventurarem na água. A grande maioria não hesitou em mergulhar, o que já era mais ou menos esperado.
Voltamos para o navio ao meio-dia para um almoço merecido e logo iniciamos nosso rumo a águas abertas do Drake. Estavamos voltando a Ushuaia. Logo na saída, pela tarde, começou o leve balanço e já metade do navio desapareceu nas suas cabines. O rádio do Dr. Sérgio não parava com chamados constantes de passageiros enjoados. Na hora da janta já era possível perceber que uns 20% estava fora de combate, e a previsão era de que ia ficar pior.

Deception Island e uma visitinha na sala de máquinas do Ocean Nova


Dia 18/11 Segunda-Feira Drake Drake Drake
Noite complicada para mim. Não consegui dormir direito e não foi por causa do balanço. Tive pesadelos e fiquei acordando toda hora. Tinhamos uma noite inteira para dormir bem e a minha foi picada. O navio está indo bem apesar das ondas rápidas e do vento forte pela proa. A manhã passou rápido com várias pequenas coisas para fazer, recolher botas, preencher papeladas e dar atenção para os turistas. A tarde tive minha palestra sobre ciência na Antártica, com um bravo grupo de uns 25 passageiros que resistiram ao balanço e assistiram até o fim. Nessa hora, como previa a meteorologia, ventos cada vez mais fortes fizeram o mar crescer a uns 4 m de altura e as ondas castigavam bastante o casco do nosso bravo barco azul. As coisas começaram a voar mais e mais e logo depois da janta eu fui para o quarto, pois a cabeça doía com essa montanha russa do Drake. As poucas vezes que acordei e sai para ver como estavam as coisas, vi mesas pelo chão, garrafas rolando e ninguém a vista, o que significava que todos estavam curtindo o Drake em suas cabines.


Dia 19/11 Terça-Feira Chegando chegando

A noite veio com muita pancadaria e ondas fortes batendo no través de bombordo, o que obrigou uma mudança de curso e diminuir um pouco a velocidade. O café da manhã passou rápido e tivemos que apoiar nossos pratos e agarrar as xicaras. Esse era o verdadeiro Drake mostrando suas garras. Dei minha palestra sobre Mudanças Climáticas pela manhã, para um grupo até que relativamente grande (umas 20 pessoas). O vento subiu mais ainda por volta do meio dia e começamos a ver terra por volta das 11hs da manhã, mas teríamos ainda mais umas 4 horas pela frente até as águas abrigadas do Canal de Beagle.

Por volta da hora do almoço, ventos muito fortes começaram a bater no navio, e por coincidência e direção, fizeram o barco acelerar. Agora estamos em posição para receber o prático a bordo e prontos para ir a Port Williams mais uma vez, mas como é muito cedo temos que ficar boiando na entrada do canal de Beagle esperando. Logo pelas 18h00 o prático chileno entrou no navio e começamos a nos mover para fundear na frente da cidade. Eu estava eufórico com a possibilidade de internet mas logo veio a ducha de água fria - internet horrivel ! Tivemos nosso tradicional cocktail do Capitão (a despedida), janta, e um pouco de festa e bate papo no bar. Fui dormir tarde tentando colocar tudo em ordem para as poucas (2 horas !!!) que tinhamos em Ushuaia com internet. E cá estou agora em um café, comendo tostadas de jamon e colocando o blog no ar. Logo mais estamos zarpando novamente para mais um Drake e desta vez a previsão é muitoooooo ruim ! Vamos ver no que vai dar.
Previsão do Modelo WWIII do CHM/Marinha, mostrando que a coisa vai ficar feia na nossa passagem !


terça-feira, 12 de novembro de 2013

Drake Drake


Os dias em Punta Arenas voam porque o trabalho nunca para. Para quem vê as fotos, parece apenas diversão e passeio. Talvez porque seja tudo diferente, é essa a impressão, mas o que temos nesses poucos dias no escritório central, na verdade é uma quantidade enorme de trabalho detalhado na operação, pequenas (mas infinitas) coisas para organizar, pois lá na Antártica não teremos tempo nem chance de corrigir nada. Tudo tem que estar perfeito.

   
Oficina da Antarctica XXI

Trabalhando na oficina

A “oficina” em um dia normal de trabalho. Só não é 24 horas por dia porque precisamos de descanso também. No dia 8 à noite, tivemos nosso tradicional churrasco de despedida na casa de Dom Jaime, um dos donos e também o presidente do conselho da Antártica XXI e logo pelo dia 9 de manhã, as 06h30, acordamos cedo e enfiamos meia tonelada de bagagem e material em uma van rumo a Ushuaia.
Ovelhas
Churrasco na casa de Dom Jaime
Nosso transporte para Ushuaia
Passo Punta Delgada (um pequeno Ferry)


Foram 13 horas de viagem por uma estrada que mesclava terra e pedra batida e um asfalto bem ruim e muitas ovelhas e guanacos. Passamos pelo Passo Garibaldi por volta das 7h da noite chegando bastante casados e famintos à Ushuaia. Pelo menos valeu a pena pela fantástica comida del Bodegon fueguino. Um maravilhoso restaurante no fim do mundo com excelente cerveja artesanal austral.  Ficamos no hotel Los Naranjos para uma pernoite curta, pois entraríamos no navio no dia seguinte.
A caminho de Ushuaia
Passo Garibaldi (bela vista)
El Bodegón


Dia seguinte (10/11) entramos no navio para começar a arrumação – prender cartazes, arrumar o escritório, papéis e mais papéis, tudo limpo e arrumado para a temporada. Tinhamos apenas um dia para fazer tudo isso e deu tempo com folga. Tanto que a tarde até deu para dar uma volta pela cidade, visitar os lugares conhecidos e os velhos amigos. No Irish Pub Ideal, bem no centro, encontramos ainda nosso boné de expedição, assinado e pendurado na temporada passada. Nesse bar, pessoas que viajam por praticamente metade do mundo ali passam e deixam seus recados para quem quiser ler. Do outro lado da rua, era possível ver o Ocean Nova no porto, reluzente. A minha casa na Antartica esperava por mim ali no porto. Ainda deu tempo de uma passada no bar para jogar conversa fora com os amigos e depois cama...o dia seguinte esperava pela gente com várias coisas para se fazer.
Caminhando por Ushuaia...o Ocean Nova ao fundo.

Assinaturas no boné da última temporada


Dia 11 foi o dia “D”. Às 3 hs pontualmente abriríamos o navio para receber os turistas que iriamos levar para a primeira viagem. Eu ainda tinha que fazer compra para o escritório, tarefa complicada, pensando no curtíssimo tempo que tínhamos. Miete, nossa shopkeeper saiu comigo e mais Diana, atrás de várias pequenas e indispensáveis coisas. Passamos 4 horas correndo entre as lojas de Ushuaia, eu com meu “portunhol” básico, mas me fazendo entender, e Miete com um chileno as vezes rápido demais para os ouvidos dos argentinos, mas conseguimos nos safar a tempo de voltar a bordo e ainda por cima ver Sebastian Arrebola. Um grande amigo argentino que foi meu primeiro líder de expedição em 2009 e estava pelo porto em um outro trabalho e veio dar um abraço de despedida. Legal ver os amigos antárticos.
Navio pronto para zarpar de Ushuaia

Os passageiros começaram a chegar pontualmente às 15hs e em menos de duas horas tínhamos o navio pronto para zarpar. Seguimos para Port Williams, do outro lado do canal, durante o cocktail the boas vindas e a janta, e já comecei a entrar no ritmo. Quando olhei o relógio só faltavam 15 minutos para me aprontar para minha primeira tarefa: guiar um grupo pelas ruas de Port Williams. Nigel (um inglês de quase 50 anos super bem humorado e especialista em pássaros e história antártica) pegou o primeiro grupo para caminhar pela linha de costa, Johnatan (ou apenas Jhono), o francês fotógrafo da expedição tomou a frente de um grupo de umas 10 pessoas para o Iate Clube, e eu peguei o resto, uns 20 passageiros, para visitar o principal monumento de Port Williams – a proa do Yelcho, o barco chileno que salvou o grupo de Shackelton da Ilha Elefante quase 100 anos atrás. Como estava escuro e chovendo (!) decidimos apenas tirar umas fotos e seguir para o “Mikalve” o bar do Iate Clube que fica instalado dentro de um barco antigo, cheio de bandeiras e recados de iatistas que atravessaram o Drake e foram para a Antártica. O Bar “exala” um cheiro de história, de conquistas e de superações, muitas histórias engraçadas e outras tristes. É um luar mágico, como a porta de um mundo que parece meio desconectado do resto do planeta.
Uma passada no bar Mikalve antes de dormir.


Saímos de lá um pouco antes das 23 hs em uma noite silenciosa e fria, caminhando por uns 15 minutos até o porto e o navio que nos aguardava.  Tudo pronto para começar a viagem – partimos a meia noite em ponto rumo ao Cab o de Hornos e ao Drake. Eu ainda fiquei arrumando minhas coisas, amarrando tudo, porque na minha previsão do tempo o Drake não seria fácil. Fui dormir pra lá de1 hora da manhã, cansado e com o corpo moído, mas feliz de estar indo mais uma vez para Neverland. Algumas horas depois entramos no Drake, mas eu estava dormindo. Então o próximo post será quando eu tiver um pouco mais de tempo.

quinta-feira, 7 de novembro de 2013

Primeira parada

Antes de iniciar a temporada, existe um trabalho gigantesco a ser feito. Para mim serão aproximadamente 9 viagens (digo...9 trajetos pela península antártica, incluindo 5 passagens pelo Estreito de Drake) e isso requer um planejamento estratégico imenso da equipe. Além disso, essa é a primeira e praticamente única oportunidade de conhecer os colegas e quem irá trabalhar no que durante a viagem. Não é algo simples e requer, além da experiência de todos do "staff team", muitas cabeças pensantes.

Então, minha primeira parada é em Punta Arenas, uma pequena cidadela no sul do Chile, na porta da Antártica, na região de Magalhães, onde se encontra o escritório da Antarctica XXI, ou "oficina", como e diz aqui em espanhol. A viagem do Brasil pela TAM no JJ 8020 até que foi tranquila apesar da chuva fraca em São Paulo, a não ser pelo trecho de Santiago até Punta Arenas, que tive que trocar de lugar 3 vezes no avião por problemas na organização dos assentos pela LAN. Vôo lotado, mas um visual bem legal atravessando os Andes.

Chuva fraca em SP antes de partir

Atravessando a cordilheira dos Andes

Quase chegando em Santiago (eita vôo apertado!) 

Em Santiago encontrei Ruslan, nosso piloto e especialista em Zodiacs, os famosos botes infláveis que usamos na Antártica. Era a primeira vez que eu encontrava um dos membros da equipe desta temporada, e mal tivemos tempo para apresentações, já começou a correria. Tinhamos apenas alguns minutos de conexão pois a fila da imigração em Santiago era fenomenal ! Dali zarpamos para Punta Arenas em mais um vôo da LAN, apertadíssimos, com parada em Puerto Montt, e lá em Punta Arenas Dom Manuel estava nos esperando no aeroporto com a velha e conhecida placa da Antarctica XXI. Em meia hora de carro, saimos do aeroporto e chegamos a zona portuária de Punta Arenas, na "oficina", onde nossos colegas nos esperavam ansiosamente - não pela nossa chegada - mas sim porque marcava a saída para a janta.

Enfim, na "oficina" - minha casa por mais alguns dias.
Comer e trabalhar - uma combinação perigosa porque se você não controla, chega facilmente a uma barriga descomunal. Durante a viagem, sempre que possível, eu vou falar um pouco das iguarias antárticas. Hoje por exemplo, comi Guanaco, um quadrúpede muito conhecido aqui pelo sul e parente da Lhama (e por sinal, muito gostoso preparado com pimenta e batatas assadas). 

O Guanaco servido com batatas no "La Cuisine" em Punta Arenas
Pouco tempo de sono, o dia seguinte em Punta Arenas foi de reuniões, preparação e muita, mas muita MESMO, papelada ! Visto de trabalho, contrato, permissões, autorizações, além de todo o planejamento. Mas é um tempo necessário para se conhecer (principalmente as caras novas) além de tudo que virá pela frente.

"Startup Meeting"
E o meu dia 2 em Punta Arenas terminou com mais uma janta e muito batepapo no Skybar do Hotel Dreams. Nada mal, mas sinto que ainda preciso entrar no ritmo. Amanhã teremos um pouco mais de trabalho de organização, mas com um pouquinho mais de tempo livre para algumas compras ainda necessárias para a viagem, e então, dia 9 seguimos logo cedo para Ushuaia, onde dia 10 de Novembro entraremos na nossa casa flutuante.

Até lá. (volto a escrever de Ushuaia).

domingo, 3 de novembro de 2013

Partindo rumo ao sul

SOUTHBOUND significa o movimento rumo ao sul. Não é de imediato, e não nos teletransportamos simplesmente para a Antártica. Eu tenho um longo caminho até lá, uma peregrinação. A primeira é um "Pit Stop" programado com a família. Afinal, passar praticamente 2 meses fora incluindo Natal tem seu preço. Mas o bom é que todos entendem e apoiam esse meu "trabalho quando todos estão de férias".
Sai do Rio, a cidade maravilhosa, rumo a Santos, minha base do coração, onde estão minhas "coisas antárticas" como luvas, meias, gorro, casado, bússola, binóculo e outras traquitanas que preciso por lá. A melhor imagem que expressa essa minha viagem é o símbolo do Diário Antártico - a Skua voando para longe. 
Símbolo do Diário Antártico no facebook (http://www.facebook.com/diarioantartico)
Aqui eu fico apenas uns 4 dias, o suficiente para dizer adeus, e acertar pequenos detalhes financeiros e logísticos antes de minha ida para o Chile. Meu embarque é quarta-feira dia 6 de Novembro e já tenho tudo pronto, até mesmo o checkin. Mas mesmo em casa, minha mente vai longe, para além do Estreito de Drake. Hoje, olhando as imagens do GARS (http://ivs.bkg.bund.de/vlbi/ohiggins/) vejo que o tempo não está lá dos melhores - quente demais ! temperaturas batendo na casa do zero grau e muita umidade, o que significa neve e ventos fortes e gelados (acreditem: -10°C é muito melhor e mais confortável que 0°C !).

Dados meteorológicos da estação GARS O'Higgins em Puerto Covadonga. Vento, 0°C e muita umidade no ar.

Com isso, o que vemos na webcam do GARS é um bolo de pinguins gordos apinhados se protegendo do vento. (Sim! gordinhos...estão comendo super bem e a fase de namoro ainda nem começou). O curioso é que dá para ver de onde vem o vento. Normalmente eles viram o bico para o vento ficando praticamente "aerodinâmicos". Mas nem por isso eles deixar de defecar, e conforme o vento muda, eles rodam acompanhando e por isso mesmo é possível ver "linhas" de "cocô de pinguim" formando quase que uma rosa dos ventos (muito mal cheirosa por sinal!) ao redor de onde eles param.


Pinguins se protegendo do vento em Puerto Covadonga.
Mas tudo isso ainda não é muito visível porque tem muita neve e a colônia ainda não começou efetivamente a ser montada, embora de tempos em tempos eu entro aqui e conto mais de 300 pinguins nas imagens. 
Tudo isso vai acabar quando eu estiver lá. Dai será ao vivo e a cores (e com cheiro !). Mais 3 dias e estou dentro do avião rumo ao sul - SOUTHBOUND mais uma vez.