Dia 20/11 Quarta-Feira Drake mais uma vez
A primeira viagem “ship express” chegou ao fim rapidamente e
a correria foi enorme para nós. As milhões de pequenas coisas para fazer a
bordo se multiplicaram e passaram para a categoria de “zilhões”, e assim, o dia
20 passou com uma velocidade de um raio. Entramos no canal de Beagle as 16
horas do dia 19 e o prático nos levou graciosamente (ou melhor, rapidamente)
para a frente de Port Williams, mas sem chance de desembarque. Era apenas um
controle de aduana e passaportes. Ainda assim, deu para curtir umas horinhas da
noite com os amigos no bar, jogando conversa fora e escutando música. Eu nem
dormi – virei direto a noite terminando o blog e as fotos, além de escrever os
e-mails que precisava. Em Port Williams consegui sinal para a internet e assim
atualizei muita coisa no meu computador. Às 2 horas da manhã o prático
argentino assumiu a dificílima tarefa de atravessar o navio de Port Williams
para Ushuaia (estou sendo sarcástico !) e por volta das 7h00 atracamos
novamente no nosso porto de partida, mas dessa vez com muita neve, e um vento
gelado de quebrar o queixo. Com o café da manhã tomado, já começamos o trabalho
pesado de bagagens e troca de passageiros e com um pouco de esforço, por volta
das 10 hs da manha já tínhamos despachado praticamente todos os passageiros,
restando apenas pequenas tarefas a bordo. Rapidamente montei minha mochila com
o computador, peguei-me casaco e zarpei para a cidade a procura de um café com
internet gratuita. Assim pude atualizar o blog a tempo. Tinha que voltar as
14h30 para o navio para estar completamente pronto para receber novos
passageiros. É engraçado como o tempo é relativo. Olhando agora parece até que
foi tudo bem tranquilo e fiz tudo que eu queria, mas na verdade, durante aquela
manhã e tarde, o tempo correu tanto que a minha impressão é que deixei coisas
para terminar (o que é meio verdade). Pelo menos pude falar com a família e
alguns poucos e seletos amigos. Eu não era o único, Ben, Pernille, Mike, Miette
e Nico estavam comigo por ali.
Aproveitando, embora já na segunda semana de blog, devo
falar rapidamente sobre meus companheiros de Antártica XXI.
| Wandering Albatroz voando sobre as águas do Drake |
Apresentações feitas, Mike e eu ficamos no cais entre 3 e 4
hs da tarde para receber os novos turista. “Battle stations” (postos de
combate), gritava Mike cada vez que chegava um pequeno grupo. E realmente foi
uma batalha – passaportes, traduções, identificações. Uffa...eramos 23
diferentes nações a bordo e as 16h40 minutos tínhamos todos os passageiros a
bordo. Seguimos para Port Williams para mais uma sessão de tortura com a aduana
chilena e prontamente seguimos viagem às 20hs par Cabo de Hornos. Infelizmente
tivemos que deixar Agustine em Port Williams – saudades ! E assim entramos no
Drake – eu morto de sono e casado, mas sensação de dever cumprido.
Dia 21/11 Quinta-Feira Drake Shaking Drake
O balanço do mar fazia eu escorregar da cama e antes de
levantar já tinha percebido que a previsão que tínhamos parecia se concretizar.
Ondas fortes e vento forte ! mas com um detalhe – a direção do mar e vento
estava “empurrando” o navio na direção certa. Com isso, o balanço era muito
melhor do que eu esperava. Contudo, os passageiros estavam sofrendo de “enjôo
psicossomático”, ou seja, estavam enjoando só pelo fato de ser o Drake. Não
tinha muita coisa para fazer a não ser me organizar. Pela manhã dei uma
palestra sobre oceanografia geral do Oceano Austral, e mesmo com mar forte e um
balanço desconfortável, os passageiros que estavam assistindo (uns 20 talvez)
se mantiveram firmes e fortes. Pela tarde, após o almoço, tive mais tempo para
mim, e pude experimentar novas técnicas de fotografia com meus amigos
albatrozes e petréis. Ainda aproveitei para interagir mais, assistindo a
palestras sobre baleias e sobre história antártica, dadas por Mike e Nigel,
respectivamente, além de pequenas coisinhas. Eu estava feliz também porque
havia recebido as licenças ambientais e poderia começar a coletar material para
minha amiga Erli nessa próxima viagem. Eu já havia recuperado meus sensores e
baixado os dados, que curiosamente mostravam temperaturas muito frias (-28°C)
agora em outubro e setembro de 2013, enquanto que o inverno parece ter sido bem
mais ameno pela península (-12°C). E assim o primeiro dia full Drake terminou
com grandes “rollers”, ondas bem altas que faziam o navio balançar muito, mas
um balançar devagar e continuo, daqueles que não dá enjoo. Só precisava de um
pouco de equilíbrio e pronto. Drake sweet Drake.
Dia 22/11 Sexta-Feira Drake ensolarado Drake
Acordei com um forte sol entrando pela vigia da minha cabine
e aos poucos começava a sentir que as ondas estavam longas e bem menores do que
ontem. No mapa de navegação, tínhamos cruzado 3/4 do Drake e seguíamos firmes e
em velocidade para sudeste, para o rumo entre as ilhas Smith e Deception. O
café da manhã seguiu tranquilo até alguém gritar “baleiaaa”. A confirmação veio
logo depois da ponte: uma baleia azul de 30 metros de comprimento nadava
graciosamente na frente do navio. É óbvio que paramos, e ficamos dando voltas
lentamente para se aproximar dela, mas, como todas as baleias grandes, elas não
curtem muito navios e logo se afastou deixando apenas a visão do seu esguicho
no horizonte. Voltei para o meu tranquilo café quente pelo menos até as 9hs
pois logo em seguida eu estava dando uma palestra sobre dinâmica do gelo
marinho, para um grupo de uns 15 sobreviventes do Drake. Até que foi tranquilo.
O Drake estava calmo apesar das ondas de 3-4 m de altura em um swell bem longo
vindo de noroeste.
Os dias no Drake são longos e sem muitas opções. Eu coloquei
minhas fotos em ordem antes da palestra da tarde que era sobre os procedimentos
de segurança com zodiac. Nesse momento, o navio entrou em uma calmaria ao
redor, com um nevoeiro de cortar com faca. Não dava para ver um palmo na frente
do nariz. E com isso, só nos restou a janta, e o final da noite no bar
assistindo a Marcha dos Pinguins na versão original em francês, com os
comentários de Jono sobre como o filme foi feito. Todo mundo cedo para cama – o
dia será longo.
Dia 23/11
Sábado Gerlache – Curverville Island, Neko Harbour e Port Lockroy
Cinza e branco, essas eram as cores oficiais de Cuverville
em uma manhã super fria e de maré alta, na maior colônia de pinguins Gentoo da
região. Assim que chegamos à praia percebemos que o gelo seria um problema. Não
havia espaço para desembarcar por causa da neve acumulada em uma forma de
prateleira com um grande espaço vazio abaixo aberto pela maré, entre rocha e
gelo. Tivemos que cavar o caminho a frente, meio dentro meio fora d’água e para
isso usamos o sapão de neoprene, que em teoria deveria ser a prova d’água.
Descobri minutos depois que o meu tinha um furo e logo eu tinha uns 5 litros de
água dentro do meu. Nada problemático. Dava para aguentar até o final do
desembarque. E os pinguins e passageiros aproveitaram bastante. Era ali em
Cuverville que dava para perceber que os 5 metros que tínhamos que deixar entre
nós e os pinguins era completamente desrespeitado pelos pinguins. Era só ficar
quietinho e sentado na neve que os curiosos gentoos se aproximavam quase que
passando por cima de nossas botas.
| Pés de pinguins gentoo |
| 5 metros de pinguin pode ser "bem perto" |
E assim passou a manhã rápida com um almoço mais cedo que o
normal pois estávamos entrando em Neko harbour, a paradisíaca baia Andvord com
seus glaciares até o topo da calota antártica e águas paradas, mesmo sendo tudo
cinza e branco por causa do mau tempo. Era hora de fazer exercício. Subir a
escaleira de neve até o topo do mundo (quer dizer, mais ou menos o topo, pelo
menos por ali), uma plataforma de rocha que se projeta para dentro do Glacier e
aponta para a entrada da baia, com uma barulhenta colônia de pinguins Gentoo.
Ali é o lugar ideal para ver o glacier de Neko se desprendendo e caindo
ruidosamente na água, mas pelo frio e vento daquela manhã, acho que o glacier
dediciu dormir até um pouco mais tarde. Não ouvimos nada, sequer uma pedrinha
de gelo caindo na água, por todo o período de desembarque.
Recuperei ainda um dos meus sensores e desci para a praia
fechando a linha aberta pelos passageiros e zarpamos dali rumo a Port Lockeroy,
para um desembarque na pequena ilha Gouldier antes da janta. Bem, pelo menos
era essa a idéia, mas infelizmente tinha um “francês” no caminho. O navio
L’Austral, de bandeira e hábitos franceses, se atrasou na operação em Port
Lockeroy e ficamos sentados na borda do gelo da baia esperando a graça francesa
mover seus traseiros dali. É ... as vezes bate stress entre os navios porque a
boa vontade é uma característica rara entre os operadores de turismo. Tudo isso
demorou mais de 1 hora o que deixou todos com muita fome. Eu aproveitei para
instalar mais um sensor na torre de Port Lockeroy, com a ajuda da chefe da
base, a Helen e ainda deu tempo de bater um pouco de papo com as meninas de
Lockroy naquela atmosfera dos anos 50 que a base exala. A janta chegou bem a
tempo antes de eu ter um colapso de fome, as 21h00, seguido do merecido sono na
minha cama com meu travesseiro gigante. Nada melhor do que uma cama quentinha
depois de um dia gelado e cinzento, que por sinal, é o padrão dessa segunda
viagem.
Dia 24/11 Domingo Lemaire and Petermann Island
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| Minha meditação em Verdnasky |
Entramos no Canal de Lemaire com um nevoeiro muito forte e cheguei a pensar que não daria certo chegar mais ao sul. No entanto, apesar da neve fortíssima que caia naquele dia, Petermann
island foi absolutamente normal (e muita fria). Mal dava para ver um palmo na
frente do nariz. Pelo menos consegui instalar meu equipamento. Fizemos o trajeto normal dos passageiros e no finalzinho ainda consegui ir para a parte sul da ilha em um lugar que eu não conhecia muito. É estranho...segunda viagem e o meu ritmo é de introspecção. Adoro fechar a fila pois normalmente é o tempo que consigo ficar sozinho e aproveito mais a natureza mágica da Antártica.
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| Quebrando o gelo em Penola Strait |
| Quebrando o gelo em Penola Strait |
Voltamos ao navio na hora do almoço e o capitão decidiu ver quanto o Ocean Nova aguentava de gelo. Ao sul do estreito de Penola havia muito gelo e mesmo assim o navio entrou firme e forte, quebrando o gelo para a alegria dos passageiros. Estávamos chegando a Verdnasky - a estação ucraniana nas ilhas Argentinas, nosso objetivo mais ao sul. Foi um desembarque dificil porque a ilha estava sem acesso direto e tinhamos que parar os zodiacs no gelo e caminhar por uns 400 metros sobre uma placa que para mim não parecia muito estável. Mesmo assim, fizemos o desembarque e eu fiquei de "boatsman" na borda daquele gelo fino, cuidando dos barcos. Excelente - pude desfrutar completmente da paisagem em solitário. Meditei por 20 minutos deitado no zodiac, sozinho, ouvindo o som do mar batendo no gelo, gotas, vento, skuas,
gaivotas, pinguins....pequenos tintilares da natureza. Delicioso.
Logo os passageiros começaram a voltar e alguns deram um pouco de trabalho pois estavam completamente tontos por causa da Galinska (acho que é assim que se escreve), a bebida parecida com vodka que é servida em Verdnasky. Embarcamos todos (com certa dificuldade) porque o gelo fino da borda estava muito frágil e a cada investida do bote arrebentava toda a borda. Afinal, todos queriam voltar a bordo logo para desfrutar do excelente churrasco antártico. E assim terminou mais um dia em Neverland.
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| Tina e o Antarctic Barbecue |
Dia 25/11 Segunda-Feira Paradise bay – the bay of whales
Fui acordado hoje as 6h15 pelo chamado no sistema de som do
navio avisando que haviam orcas nadando ao redor do navio. Bem, meu cansaço
ainda era visível e decidi que meu travesseiro era melhor do que qualquer
espetáculo de orcas. Mesmo assim pulei da cama um pouco depois, para mais um
dia no paraíso – estávamos em Paradise Bay. Porém, o paraíso estava um pouco
mais cinza do que o de costume. Paramos na frente da estação argentina
Almirante Brown que estava desativada – ninguém em casa, e com metros e metros
de neve na porta da frente. Assim que chegamos na praia tivemos um pouco de
trabalho para abrir caminho entre tanta neve. Minha tarefa era subir até o pico
que tem atrás da estação abrindo caminho no meio de tanta neve fofa. Foi ai que
o paraíso se mostrou um pouco menos paradisíaco. Ventos fortes de até 25 nós
batiam com força na encosta gelada e levantavam nuvens pesadas de neve que
giravam como pequenos tornados no gelo. A caminhada foi difícil e a subida mais
ainda, mas a vista valia muito a pena. Ao redor da estação, pinguins Gentoo
faziam uma boa algazarra e lá de cima do pico era possível identificar as
manchas de guano na neve e a concentração de pinguins lá embaixo na estação. O
vento subiu mais ainda e com certeza ultrapassou a marca dos 30 nós. O
desembarcadouro na pedra que tínhamos usado para chegar a terra agora era
lavado por ondas de 1 m de altura e muitos debris de icebergs que se
espatifavam contra as pedras. Deu bastante trabalho para colocar todos os
passageiros nos botes e voltar para o navio. Ficamos absolutamente molhados com
o spray das ondas que batiam com força nos zodiacs, mas enfim entramos a bordo
e fomos para um merecido almoço.
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| Pulando na neve em Almirante Brown - Paradise Bay |
A tarde chegou com ventos fortes fazendo o navio adernar
bastante, e era praticamente impossível ficar mais do que poucos minutos fora
do barco. Com todo esse vento, o céu abriu em um azul profundo com nuvens
negras no horizonte, carregadas de neve. Movemos o navio para um pouco mais ao
norte, para um arquipélago chamado de Melchior Islands. Um resquício antigo da
conexão entre a Antártica e a América do Sul, pois as rochas em parte das ilhas
são as mesmas que encontramos nos dois continentes. Grandes paredes de
andesita, com partes em granito rosado e intrusões de basalto, todas cobertas
com uma grossa camada de glacê de neve bem branca ou mesmo gelo bem antigo, bem
azul. Mesmo com o vento forte decidimos
lançar ancora atrás da estação argentina (isso mesmo ! Outra estação argentina
abandonada !) e colocar os bote na água para um passeio através dos canais e
labirintos entre as ilhas. Eu fiquei por último e tive apenas 4 passageiros
comigo o que tornou a navegação um pouco mais difícil por causa do baixo peso e
vento forte. Ainda assim, deu bastante prazer navegar por aquelas águas cheias
de icebergs e pedaços de gelo flutuando entre os canais agitados pelo swell de
alguns metros que bata na face norte das ilhas e penetrava pelos canais em
ondas gordas. Eu naveguei por ali fazendo dupla com o zodiac do chefe Jamie,
explorando as aberturas e as formas do gelo preso no meio das ilhas. Em um
momento, Jamie parou e um passageiro pegou um pequeno bloco de gelo branco com
poucas bolhas, para alguns drinks no bar. Dai começou o desafio – eu vi um gelo
negro (praticamente sem bolhas) boiando perto do zodiac e falei que aquele
poderia ser um pouco melhor para drinks. Alguém (não me lembro quem) disse que
era grande demais e impossível de pegar (haha!). Nada é impossível por aqui, ou
quase. Em nosso bote com 4 bravos passageiros e eu como piloto, decidimos
trazer aquele imenso bloco pesando uns 200-250 kilos e em 10 minutos, com muito
trabalho e usando o cabo da ancora do bote, e obviamente com a plateia do outro
barco, batalhamos duro e pimba ! trouxemos para bordo um imenso pedaço de gelo,
sob aplausos e festa dos passageiros. Com a alma lavada e o orgulho saciado,
voltamos ao barco ainda com vento forte e então veio a notícia – estávamos
voltando rumo a Ushuaia. A previsão do Drake era tão ruim nos próximos dias que
decidimos não fazer Deception Island que estava previsto para a manhã do dia
seguinte, e tomamos rumo um pouco mais aberto para cruzar o Drake em um ângulo
melhor para enfrentar o swell e o vento forte. Fiquei no bar até um pouco mais
tarde, conversando com Mike, Daniel (o chef da cozinha), Gabriel (bartender),
Miete e Jono, e depois fui tentar domir com o balanço do bar batendo no costado
do navio de tempos em tempos.
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| Super gelo de 200 kg para dentro do barco - tarefa fácil |
Dia 26/11 Terça-feira- Drake Drake
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| O Drake pela vigia |
Amanheceu com um Drake liso e praticamente sem ondas. Essa
calmaria antes da tempestade é típica e dava para perceber o clima de tensão no
ar. Tinhamos um dia cheio de palestras e pequenas coisas para fazer, mas o mais
importante – preparar o navio para o que viria adiante. O capitão corria como
louco, batendo a casa dos 13 nós, velocidade máxima do navio, e ao longe víamos
o horizonte cinza escuro e o vento aumentando cada vez mais. Durante minha
palestra sobre Mudanças Climáticas, o mar já começava a bater com mais força no
navio, que balançava bastante, mas ainda em um nível aceitável. O resto do dia
correu normal, mas tenso – pessoas pedindo pílulas contra enjoo e um
almoço/janta com mais ou menos 60% de público. Fui para o bar a noite ver se
assistia um filme legal mas na verdade estava mesmo era passando um filme chato
e decidi ir dormir mais cedo, embalado por um Drake nervoso e que parecia estar
pronto para uma luta.
| Força 11 ! |
Dia 27/11 Quarta-feira Drake powerfull Drake
Não foi fácil. Realmente não foi fácil. O dia começou como
esperado, as ondas ainda meio altas com 4-5 metros de altura e vento
relativamente forte entrando pelo nariz do navio, um pouco à esquerda
(bombordo). Quando passávamos uma onda um pouco mais alta mexia tudo. Fiz umas
filmagens e pequenas fotos na ponte de comando, com o espetáculo de mar bravo e
ondas altas. Tive ainda uma palestra pela manhã e foi o que salvou meu dia.
Então veio o almoço e dai foi o caos. Justamente na hora mais importante, o
navio entrou em uma zona com ondas mais altas ainda e a cada passagem de vaga
grande, inclinávamos uns 25 graus, o que é bastante. A falta de experiência dos
passageiros em mar bravo era óbvia, quando víamos pratos e copos voando para
todos os lados. Ao invés de se agarrar nas mesas (que são fixas), as pessoas se
agarravam nas cadeiras e dai é que rolavam mesmo. Que bagunça ! Mas o pessoal
do hotel trabalha muito bem e controlou a situação perfeitamente. Durante a
tarde, alguns passageiros se dispersaram para suas cabines e outros para o
Panorama Lounge, para assistir um filme. Eu aproveitei para tirar fotos das
ondas e Ben trouxe um inclinômetro – para medir a inclinação do barco nas ondas
maiores. Acreditem ! o vento aumentou ainda mais e começamos a ser castigados
por ondas de até 10 metros de altura. O pico de inclinação chegou a 42 graus o
que significa praticamente andar pelas paredes. A coisa começou a ficar
perigosa dai e o capitão decidiu fechar todos os decks, a biblioteca na popa e
o Panorama Lounge. As coisas no meu quarto simplesmente voavam de um lado para
outro e tive bastante trabalho de organizar tudo dentro do armário.
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| Mais um pouco de força 11 |
Na cozinha, molhos, bolinhos, frutas, frituras, simplesmente
voavam, e quando passei no corredor do meu quarto (que dá de frente para a
cozinha) escorria molho de tomate pela porta. Apesar do clima de destruição, o
moral estava alto e ficamos todos juntos no restaurante e lobby do navio,
fazendo piadas e brincando com a inclinação. Era impossível ter janta e o chef
Daniel partiu para o plano de guerra – sandwiches, frutas e sorvetes – e mesmo
assim ainda voou comida por todos os lados. Quando a noite chegou, ainda fomos
para o Panorama longe fazer um limpa, reabrimos o navio e aos poucos o mar
começou a ficar menos agressivo. Ainda tive uma ou duas ondas maiores que
bagunçaram meu quarto mas nada tão grande como o que tivemos durante o dia. Eu
fico imaginando o pequeno “Pelagic”, o veleiro que estava em Port Lockroy e que
agora estava cruzando o Drake atrás da gente. Saldo: várias coisas quebradas,
inclusive os ovos do chef Daniel, ondas de até 10 m de altura e ventos que
bateram na casa dos 50 nós (100 km por hora mais ou menos).
Dia 28/11 Quinta-feira Dia de arrumar a casa
Acordei as 7h00 e fiquei zanzando pelos corredores do navio
até o restaurante abrir para o café da manhã. Eu estava morto de fome. Embora
estivéssemos protegidos pelas ilhas e a entrada do Canal de Beagle, o vento era
forte batendo na casa dos 60 nós (mais de 120 km/h), fazendo com que o navio
ficasse um pouco agitado. Ondas de 1 m e vento forte tornavam impossível a
operação com o Prático. A manhã seguiu relativamente tranquila, mas de muito
trabalho – limpeza de tudo que havia quebrado na cozinha e principalmente para
nós do grupo, a organização da sala onde deixamos material de neve e estoque do
shopping a bordo. O prático entrou a bordo depois de algum tempo, por volta das
10hs, em uma manobra bastante arriscada emparelhando a lancha rápida da marinha
com o navio, em um canal protegido onde o vento parecia estar um pouco melhor.
Dai seguimos para Port Williams onde tive a grata surpresa de ver o Almirante
Maximiliano, o navio brasileiro H41, ancorado no porto, aparentemente
aguardando por melhores condições de tempo para atravessar o Drake. Bem, tomara
que tenham mais sorte do que nós. Agora nossos planos são de desembarcar as
17h30 em Port Williams e cruzar para Ushuaia apenas nesta próxima madrugada.
Com isso, esse será a postagem desta viagem e a próxima, que começa amanhã dia
29/11, será postada dia 03/12 a partir de Frei Station, na ilha Rei George. E
que Netuno nos proteja em mais uma travasseia do Drake em dois dias.
| A zona que ficou a geladeira da cozinha |
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| Daniel contando os ovos quebrados. |
PS: Postando esse texto agora e desfrutando uma boa cerveja Beagle no Tantsara em Ushuaia, percebi a próxima viagem será um pouco mais complicada para postar informações. Vamos direto para as Ilhas Shetlands e depois esperaremos o vôo com a Primeira Antártica Clássica no dia 3 de dezembro. Até lá !








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