Dia 12/11 Terça-Feira Drake sweet Drake
Eu pulei da cama quando o relógio tocou as 6h00 para ver
onde estávamos. Já deixamos Cape Horn para trás e entravamos em um Drake calmo
com pouco vento e sol. Uma visão e tanto. Pequenos petréis, grandes petréis, e
albatrozes de várias espécies usavam a passagem do navio como uma montanha
russa divertida e nos proporcionavam um espetáculo, como se quisessem ser
fotografados. Fiz uma colagem de fotos e coloquei no facebook, usando a rede do
navio que por sinal é bastante cara ! mas valeu a pena. Assim pelo menos a
família e os amigos sabem onde estou e o que estou fazendo. Não tive muito
tempo para escrever e-mails ou mesmo os cartões postais. Devo fazer isso mais
para frente, mas tenho que fazer. Tudo é novo, tudo absolutamente novo e
excitante. Sair da América do Sul e partir para Neverland era tudo o que eu
queria, e estávamos finalmente a caminho. É claro, tinha o Drake, mas até o
momento parece que estava tudo tranquilo. Dei uma palestra sobre “Southern
Ocean Oceanography” e aproveitei o resto do tempo no trabalho do navio. As
pequenas e infinitas coisas que nunca terminam a bordo haha. Fui dormir bem
tranquilo mas na verdade eu queria mesmo era trabalhar no computador, mas assim
que eu deitei a cabeça no travesseiro, minha cama começou a me puxar para dentro
e tive que desligar o computador. Sweet dreams of Neverland.
| Drake Lake Drake |
Dia 13/11 Quarta-Feira Drake Drake
Acordamos em um Drake tranquilo e liso, com pouco vento e
muitos pássaros na traseira do navio. Aproveitei minha manhã fazendo
fotografias dos pássaros na popa do navio. Ainda estou aprendendo a mexer na
câmera e Nico, meu companheiro de quarto e excelente fotógrafo, tem me dado
altas dicas de como fazer isso. À tarde tive uma palestra sobre “sea ice
dynamics” e ansiosamente esperamos pelo final da travessia. Por volta das 22hs avistamos Smith Island e a
Ilha Deception. Estávamos finalmente entrando em Neverland.
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| Petréis e Albatrozes ao redor do navio. |
Dia 14/11 Quinta-Feira Ilha Cuverville e Wilhelmina Bay
Nosso primeiro desembarque foi muito esperado. Cuverville é
“mamão com açúcar” pois é relativamente plano e tranquilo, com muitos pinguins
Gentoo. Eu fiquei de Zodiac Driver pela manhã transportando as ordas de
passageiros para a praia e relativamente livre para andar por onde eu quisesse
ao longo da manhã. Foi um momento onde pude tirar várias fotos aproveitando a
luz magnífica daquele lugar. Um casal francês bem novinho está dando a volta ao
mundo e agora conosco na Antártica, e ela está tocando Ukelele (o pequeno
violão havaiano) em cada lugar. Acabei aprendendo algumas notas para, quem sabe
em um futuro próximo, ter o meu próprio Ukulele :) Tocar na Antártica é um
privilégio. Passamos a manhã tranquila naquele lugar, com os passageiros
extasiados com a beleza da ilha.
Pela tarde seguimos rumo NE para Willhelmina Bay, onde
fizemos um longo (e gelado!) passeio de zodiac. Meu grupo, 8 alemães e um casal
belga, me fez trocar a língua para o alemão, o que me fez pensar que tenho que
treinar mais. Ainda preciso de alguns minutos para trocar de língua. Parece que
com o tempo o alemão tem desaparecido do meu cérebro e só posso reavivar a
memória treinando. Como sempre, meti a mão na água para tirar um bloco de gelo
para o bar a noite, embora eu praticamente não tenho tido vontade de
frequentá-lo. Acabei indo dormir cedo para aproveitar o dia seguinte onde
entraríamos no Lemaire.
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| Cuverville & Wilhelmina bay |
Dia 15/11 Sexta-Feira Lemaire, Petermann Island &
Plenneau Bay
Dia de pular fora da cama bem cedo. As 5h00 pulei da cama e
fui rápido para o Panorama Louge atrás da belíssima vista do Canal de Lemaire.
Estávamos entrando nele, um pouco atrás de um outro navio de turismo, o “Polar
Pionner” e seguimos para Petermann Island, o nosso destino mais autral. A ilha
é uma formação vulcânica com um enorme platô que fdeve ter sido soerguido na
última deglaciação pois e possível encontrar marcas do nível do mar em parte da
ilha que hoje está bem acima (uns 50 m) do nível atual. O sol apareceu e acabou
fazendo muito calor. Embora as temperaturas no ar variassem ao redor dos 0°C, o
meu pequeno termômetro instalado junto ao corpo marcava uma temperatura de 12°C
(!). Verão antártico ! Localizei de pois de um tempo meu sensor de temperatura
na ilha, instalado em 2012, e agora eu teria uma ideia de como as temperaturas
tinha variado no inverno. Na ilha encontramos pinguins Gentoo e Adélie
dividindo o mesmo espaço, e próximo aos abismos de rocha, encontramos ainda um
ruidoso grupo de Cormorões de olho azul.
Todos os ninhos de adélie estavam com ovos e os gentoos ainda estavam na
fase de “namoro”. Era engraçado ver os gentoos roubando pedras dos ninhos dos
adélies.
À tarde nos movemos para Plenneau Bay onde fizemos um
passeio entre icebergs e encontramos uma ampla e firme placa de gelo para
aguentar todos do grupo para uma foto. Quando juntamos as 82 pessoas no centro
da placa, ele cedeu um pouco e faz uma piscina no meio da neve, o suficiente
para molhar alguns, mas nada perigoso. Terminamos a foto e saímos rapidamente
da placa que pareceu estar começando a se desestabilizar. Durante as duas horas
seguintes, passeamos entre icebergs e placas de gelo, a procura de um pouco de
vida marinha, mas tirando uma linha de pinguins que saiam da água próximo a uma
banquisa de gelo, não havia mais nada por ali. Na volta, um excelente
“barbecue” nos esperava a bordo, com muita carne e vinho quente. Sob o sol
maravilhoso do fim de tarde antártico, era tudo que precisávamos para nossa
próxima etapa – seguir para Port Lockeroy.
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| O Canal de Lemaire e Petermann Island |
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| Barbecue e Plenneau Bay |
Dia 16/11 Sábado – Port Lockroy & Ohrne Cove
A noite foi barulhenta, com muitas pancadas no costado
feitas por grandes blocos de gelo na passagem do navio. Quebramos muito gelo para
passar pela área sul do estreito de Gerlache, até a Ilha Gouldier onde está a
base de Port Lockroy. Praticamente fechado, o acesso a ilha Gouldier era uma
barreira intransponível com gelo de até 2 m de espessura. O Capitão do nosso
bravo navio decidou tomar outra rota, dando a volta na ilha e entrando ao norte
pelo canal de Neumeyer. Tivemos muito trabalho para chegar a Port Lockroy e
encontramos uma capa espessa de gelo sobre a Baia da Ilha Goldier. Ao invés de
operarmos com Zodiacs para transportar os passageiros, decidimos “fixar” o
navio no gelo e caminhar até a estação. Ficamos entre Jougla Point e Port
Lockeroy, caminhando pelo gelo duro com apenas alguns buracos na linha de maré.
Recuperei o meu pequeno sensor de temperatura que eu tinha instalado na torre
de Port Lockeroy um ano antes e estava excitado para ver como seria a variação
de temperatura por ali no inverno. Quando voltei ao navio na hora do almoço eu
baixei os dados e vi que na verdade o inverno tinha sido bem tranquilo, com
temperaturas relativamente altas (-10°C em média). Nevava muito pela manhã com
um tempo fechado e cinza, mas conseguimos aproveitar bem a manhã. O “Pelagic”,
um veleiro de 50 pés de aço que faz charters para a Antártica, estava fundeado
logo atrás da estação, mas não havia ninguém em casa.
À tarde zarpamos para Ohrne Harbour, para subir uma enorme
parede de neve e gelo até uma das mais belas formações daquela área. Muita
neve, muita mesmo ! e o povo queimou calorias subindo aquilo tudo. A operação
foi meio corrida e acabei ficando no meio do caminho, onde a maioria dos
turistas e concentrava, cuidando um pouco daqueles que não estavam com fôlego
para subir a parede. No final das contas, entre indas e vindas, eu devo ter
subido e descido umas 4 vezes no total ! (Academia pra que ?!). No fina do dia
eu estava bastante cansado mas satisfeito por mais uma missão cumprida. Em
Orhne, a colônia de pinguins “Chinstrap” estava muito bem, alguns ninhos já com
ovo, e praticamente nenhuma carcaça pela volta, embora nós observamos as skuas,
as aves de rapina aqui na Antártica, bastante ativas. Um dos passageiros
conseguiu inclusive fotografar uma skua pegando um ovo em um dos ninhos.
No final do dia, a festa foi concentrada no rancho da
tripulação no convés inferior. Era o aniversário de René, o Hotel Manager com
direito a karaokê e muita comida filipina (a maioria da tripulação é filipina,
gente muito boa e alegre). Mas eu tinha que dormir e não fiquei até muito tarde.
Eu estou tendo uma relação de amor e ódio com minha cama por aqui. As vezes
quero dormir e ela não deixa, as vezes quero trabalhar nela e ela também não
deixa.
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| Passeando no gelo na baia da ilha Goldier e meus amigos antárticos |
Dia 17/11 –
Domingo Ilha Deception & South Shetlands
Navegamos pela madrugada até a ilha Deception já sabendo que
a noite iria ser curta. A previsão de chegada em Baily Head na borda oriental
de Deception estava prevista para as 05h30 da manhã. Então o jeito foi colocar
o relógio cedo, pular da cama e se preparar. Seria um desembarque difícil.
Baily Head é uma praia extensa voltada para nordeste com um swell (ondas
longas) bastante grande. A praia é lavada pelas ondas a uma altura de mais de 5
metros e vimos ali blocos de gelo lançados por tempestades que dão a impressão
de ter passado um tsunami por ali. A operação naquela praia consiste em enfiar
o bote em velocidade praia acima, e 3 a 4 pessoas com Waders (um sapão de
pescador, a prova d’água) seguram o bote enquanto tomamos uma ducha fria de
água pelas ondas. Minha função era exatamente essa: segurar o barco na parte
mais profunda da praia para que ele não virasse, juntamente com Mike, Jamie
& Nico. Aproveitei e coloquei um capacete com a minha câmera Gopro
instalada para filmar tudo. Entre indas e vindas, desembarcamos todos sem
problemas (apenas um pouco molhados) e partimos para uma visita rápida a Baily
Head com seus mais de 100.000 pinguins de barbicha (Chinstrap). A colônia
estava bastante acordada com os pinguins gritando por todos os lados a procura
de seus pares. Poucas carcaças na praia, o que indicava que estava tudo indo
muito bem. A maioria dos ninhos já tinha
pelo menos 1 ovo e muito em breve os pares estariam colocando o segundo ovo.
Espero voltar aqui nas próximas semanas para começar a coletar o material
prometido para as meninas da UFRJ (Dra. Erli e companhia).
As 8h30 começamos o movimento de retorno, já completamente
congelado e com os pés molhados, para me apropriar de um excelente e quente
café da manhã. Enquanto isso, o navio deslizava tranquilamente para a entrada
da baia, onde desembarcamos as 10h00 em Whalers Bay, dentro de Deception. Minha
tarefa foi levar um grupo até a “Janela de Netuno”, como é conhecido o “gap” na
parede da cratera com uma vista espetacular para o oceano. Embora com algumas
nuvens e um pouco de sol, a atmosfera estava tão clara que podíamos ver ilhas e
a península lá distante no horizonte. Voltando para o ponto de desembarque, já
havia um movimento frenético dos passageiros para o famoso “polar plunge” – um
banho nas águas “quentes” da praia em Deception. Na verdade, por causa da
atividade vulcânica, a água em alguns pontos fica aquecida por fumarolas
submersas, o suficiente para os passageiros se aventurarem na água. A grande
maioria não hesitou em mergulhar, o que já era mais ou menos esperado.
Voltamos para o navio ao meio-dia para um almoço merecido e
logo iniciamos nosso rumo a águas abertas do Drake. Estavamos voltando a
Ushuaia. Logo na saída, pela tarde, começou o leve balanço e já metade do navio
desapareceu nas suas cabines. O rádio do Dr. Sérgio não parava com chamados
constantes de passageiros enjoados. Na hora da janta já era possível perceber
que uns 20% estava fora de combate, e a previsão era de que ia ficar pior.
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| Deception Island e uma visitinha na sala de máquinas do Ocean Nova |
Dia 18/11 Segunda-Feira Drake Drake Drake
Noite complicada para mim. Não consegui dormir direito e não
foi por causa do balanço. Tive pesadelos e fiquei acordando toda hora. Tinhamos
uma noite inteira para dormir bem e a minha foi picada. O navio está indo bem
apesar das ondas rápidas e do vento forte pela proa. A manhã passou rápido com
várias pequenas coisas para fazer, recolher botas, preencher papeladas e dar
atenção para os turistas. A tarde tive minha palestra sobre ciência na
Antártica, com um bravo grupo de uns 25 passageiros que resistiram ao balanço e
assistiram até o fim. Nessa hora, como previa a meteorologia, ventos cada vez
mais fortes fizeram o mar crescer a uns 4 m de altura e as ondas castigavam
bastante o casco do nosso bravo barco azul. As coisas começaram a voar mais e
mais e logo depois da janta eu fui para o quarto, pois a cabeça doía com essa
montanha russa do Drake. As poucas vezes que acordei e sai para ver como estavam
as coisas, vi mesas pelo chão, garrafas rolando e ninguém a vista, o que
significava que todos estavam curtindo o Drake em suas cabines.
Dia 19/11 Terça-Feira Chegando chegando
A noite veio com muita pancadaria e ondas fortes batendo no
través de bombordo, o que obrigou uma mudança de curso e diminuir um pouco a
velocidade. O café da manhã passou rápido e tivemos que apoiar nossos pratos e
agarrar as xicaras. Esse era o verdadeiro Drake mostrando suas garras. Dei
minha palestra sobre Mudanças Climáticas pela manhã, para um grupo até que
relativamente grande (umas 20 pessoas). O vento subiu mais ainda por volta do
meio dia e começamos a ver terra por volta das 11hs da manhã, mas teríamos
ainda mais umas 4 horas pela frente até as águas abrigadas do Canal de Beagle.
Por volta da hora do almoço, ventos muito fortes começaram a
bater no navio, e por coincidência e direção, fizeram o barco acelerar. Agora
estamos em posição para receber o prático a bordo e prontos para ir a Port
Williams mais uma vez, mas como é muito cedo temos que ficar boiando na entrada
do canal de Beagle esperando. Logo pelas 18h00 o prático chileno entrou no navio e começamos a nos mover para fundear na frente da cidade. Eu estava eufórico com a possibilidade de internet mas logo veio a ducha de água fria - internet horrivel ! Tivemos nosso tradicional cocktail do Capitão (a despedida), janta, e um pouco de festa e bate papo no bar. Fui dormir tarde tentando colocar tudo em ordem para as poucas (2 horas !!!) que tinhamos em Ushuaia com internet. E cá estou agora em um café, comendo tostadas de jamon e colocando o blog no ar. Logo mais estamos zarpando novamente para mais um Drake e desta vez a previsão é muitoooooo ruim ! Vamos ver no que vai dar.
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| Previsão do Modelo WWIII do CHM/Marinha, mostrando que a coisa vai ficar feia na nossa passagem ! |







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