domingo, 29 de dezembro de 2013

Classica Antarctica 05 - Good Bye Antarctica

Dia 23/12/2013 Segunda-feira Frei Rock Day

Acordei contente, talvez porque gosto de mudança e essa viagem não é nem um pouco monótona. Hoje é dia de troca de passageiros e o tempo estava tranquilo apesar do vento constante e gelado que invadia a baia Maxwell. Dia padrão com café da manhã, meeting, bagagens e passageiros. Por volta das 10h30 já estávamos todos na cabeceira da pista recebendo o avião com novos passageiros. Beijos e abraços, um adeus sentido e emocionante. Cada grupo é diferente e muito humano. A experiência antártica é única e fazemos muitos amigos aqui. Eu por exemplo fiquei abraçado a uma família filipina (pai, mãe e 3 filhos) extremamente alegre e que contagiava a todos. Foi uma despedida legal e deu energia e gás para a última viagem da temporada para mim.
 
Show de baleias logo no primeiro dia de viagem
Zarpamos de Maxwell bay pontualmente às 15 horas rumo à península. Nosso objetivo era desembarcar em Mikkelsen pela manhã do dia 24. O clima no navio era de natal. Enfeites, gente alegre, música, ambiente bem familiar. Eu, tradicionalmente, coloquei elefantes de tecido feitos artesanalmente e com muito carinho pela dona Silia, presos ao teto do escritório do navio como enfeites e desejos de felicidade, paz e prosperidade. Cada um dos meus amigos entre o staff podia escolher e pegar o que lhe conviesse. Acho que foi o melhor presente que eu poderia dar, pois era carregado de carinho e felicidade. Aproveitei ainda o dia para falar com a minha filhota querida que estava visitando os avós, escrever e-mails e organizar minhas amostras a bordo. O primeiro dia passou assim voando e minha cabeça também. Sei exatamente como os pinguins se sentem quando chega o final do verão. A hora de partir estava chegando e a ansiedade começa a crescer mais uma vez. Acho que precisamos partir para poder amar voltar aqui tão intensamente. Boa noite Antarctica.

Dia 24/12/2013 Terça-feira Spert Island + Mikkelsen

Sorte é uma palavra forte mas se aplica facilmente a viagens desse tipo. Curiosamente eu pulei da cama rapidamente quando meu relógio tocou e fui para o panorama lounge. Mal cheguei por ali recebi a noticia de Mariano que estávamos rumando para Spert Island. No dia anterior, o plano era seguir até Mikkelsen Island mas as condições eram boas apesar da forte neblina e da neve que caia. O mar estava calmo do lado de Spert e com isso Mariano decidiu fazermos um cruzeiro de Zodiac pelos labirintos paradisíacos de Spert. O local é de difícil navegação por causa de vários icebergs que ficam entalados nos labirintos entre as ilhas, e com mar ruim é praticamente impossível navegar ali. Mas não haviam ondas então – nossos sonhos tornaram-se realidade. Eu amo de paixão pilotar e mais ainda em um lugar como esse. Me meti com 10 passageiros, na verdade duas famílias americanas que estavam viajando juntas, pelos labirintos, brigando com blocos menores de gelo e passando pertinho de icebergs gigantes. Nevou o tempo todo mas ainda assim foi uma navegação super emocionante. Nem preciso dizer o quanto meus passageiros gostaram da viagem. Voltamos a bordo super satisfeitos e ainda com tempo de aproveitar a tarde logo ali depois da curva, em Mikkelsen. No meio do caminho ainda curtimos algumas baleias que deram um show a parte saltando na frente do barco.
Spert Island by Bjorn. Nice Picture ! Dirigir zodiacs é a coisa que eu mais amo fazer.
Desembarcamos logo depois do almoço e mais uma vez eu fui ajudar com o Snowshoers, desta vez guiados pelo Jamie, já que Nico havia nos deixado no último vôo. Ainda nevava e a visibilidade era baixa. Mas fizemos o mesmo percurso que da última vez eu havia estado e paramos para observar focas dorminhocas na praia. Foi um passeio curto porque a ilha é pequena mesmo e eu ainda aproveitei para coletar mais uma amostra para a Erli. O dia de Natal passou rápido e voltamos ao navio para a ceia. Na verdade, Natal por aqui é uma comemoração longa. O salão do restaurante foi decorado e logo depois da janta ainda tivemos uns minutos de festa na cabine de Ben e Pernile, com direito a presentes e muitas risadas. Mais a noite (perto da meia-noite) a biblioteca do navio tinha sido fechada só para a tripulação e para nós staff. Mike, vestido de Papai Noel, dava presentes para toda a tripulação, entre música alta e comida. Eu fiquei até uma hora da manhã por ali e fui dormir em seguida pois estava mais do que cansado. Já tinha falado com a família e agora era hora de dormir. O trabalho por aqui não ia parar nem no Natal. Feliz Natal Ocean Nova.
Papai Noel Mike ! (divertidíssimo)


Dia 25/12/2013 Quarta-feira Lemaire, Yalour e Verdnasky

Eram 07 hs da manhã quando começamos a atravessar o canal de Lemaire e obviamente o navio inteiro estava de pé. Mesmo com as comemorações de Natal na noite anterior, o ritmo para o café da manhã era frenético. Já tínhamos programa definido e o céu azul com sol quente já prometia um dia dos Deuses. Passamos pelo canal sem problemas apesar dos blocos enormes de gelo por ali. É incrível como ainda tinha bastante gelo marinho pela volta, sobreviventes do verão antártico. Provavelmente iriam derreter até o final do verão, mas mesmo assim eu estava surpreso como a área ainda apresentava gelo por todos os lados. Ao sul do canal de Lemaire, um pouco depois das ilhas Argentinas, existe outro grupo de ilhas chamadas de Yalour, nome de um barco dos tempos de exploração antártica. A idéia era fazer um cruzeiro longo de 1 hora e depois desembarcar na ilha. Ficamos assim entre gelo, rochas e focas dorminhocas passeando por ali e mesmo depois de desembarcar passageiros, alguns ainda queriam continuar passeando e fiquei então de taxi-boat. Com essa uma hora extra eu tirei mais fotos e parti em busca de vida selvagem, mas por ali só tinha mesmo pinguins e gelo. Infelizmente nenhuma baleia ou foca.

Voltamos mais uma vez para o barco, para o almoço de Natal (que na verdade era com comida tão boa quanto qualquer outro dia – graças ao chef Daniel), pois logo pela tarde iriamos a Verdnasky. Eu fiquei mais uma vez de taxi-boat, entre o navio e a estação, e dando apoio para o pessoal que iria fazer uma caminhada mais longa. Entre as ilhas Argentinas, eu corria com o zodiac pelos canais, levando passageiros, e corria mais ainda quando estava sozinho no barco. O dia foi paradisíaco, sem uma gota de vento e com muito sol. Não podia mesmo terminar de forma simples. A janta veio com uma decisão maravilhosa de Mariano – iriamos fazer mais um programa pós-janta. Deslocamos o navio um pouco mais ao norte, para a entrada do Lemaire, em uma baia chamada de Plenneau. Entre icebergs, montanha e um por de sol que perdura por horas (pois na verdade só fica um pouco menos claro durante a noite do verão polar), saímos com os zodiacs para um cruzeiro noturno. A luz estava fantástica e encontramos focas (uma leopardo, inclusive), pinguins, elefantes marinhos, gelo e mais gelo.
Por de sol em Plenneau.


Mesmo sendo curto, apenas uma hora, o passeio rendeu fotos espetaculares. Voltamos ao barco e no caminho de volta pelo Lemaire, com o por do sol atrás entre as montanhas do canal, os reflexos do gelo e pedra na água parada estavam divinos. Passamos mais uma hora só tirando fotos enquanto o navio navegava tranquilamente rumo norte. Fui dormir feliz por mais um dia no paraíso.

Dia 26/12/2013 Quinta-feira Paradise Bay & Cuverville Island

Eu não esperava que o tempo ficasse firme porque quando acordei vi pela janela que o céu estava encoberto, mas não havia uma nesga sequer de vento. A Baia Paraiso parecia um espelho refletindo icebergs e pedaços de gelo, além das montanhas ao redor, apesar do céu cinza. O ritmo era o mesmo: café da manhã, briefing, desembarque. Eu fiquei responsável pela subida na neve atrás da estação Almirante Brown, cuidando para que os passageiros não usassem uma descida quase vertical para fazer ski-bunda (que consiste basicamente em deslizar pela neve usando seu próprio traseiro).  O tempo começou a abrir e a temperatura caiu um pouco com um leve vento que soprava do Glacier Skontorp. Eu desci a montanha e peguei um dos zodiacs e duas famílias americanas (10 pessoas) para um bom passeio através de icebergs até a frente do Skontorp, passando pela colônia de Cormorões Antárticos que já estavam com os filhotes já grandes saindo dos ninhos.

Brown Station. O topo de Paradise Bay.
Depois do vai e vem do final do desembarque, já com os caiaques também de volta ao barco, juntamos o time em um zodiac na frente de um glacier todos vestidos com a camiseta do Tal Tree Festival – o festival de música organizado pelo Mike em cada verão canadense – para tirar uma foto. Foi no mínimo engraçado e frio. Voltamos para o barco para um rápido almoço e logo às 15hs desembarcamos novamente, desta vez em Cuverville. Programa padrão: pinguineira, subida na montanha e passeio de zodiac, mas dessa vez o céu abriu e um sol maravilhoso iluminou todo o canal Herrera e arredores. O cenário estava espetacular e valeu muito a pena subir a montanha para tirar fotos e ainda dar a volta na ilha com o zodiac. Melhor impossível.

O dia passou voando assim como todos os outros e terminou com o tradicional Antarctic Barbecue ao ar livre do deck 5 seguido pelo Antarctic Quiz organizado por Ben e Mike, ainda com a surpresa de um grupo de orcas que cruzou com o navio bem no meio de estreito de Gerlache. Eu fui dormir cedo, pois na madrugada ainda tive outra tarefa. Encontramos outro navio por volta da meia-noite para abastecer a cozinha com uns 400 kg de comida. Nada demais. Em 5 minutos estávamos prontos mas custei muito para voltar a dormir. O dia seguinte me aguardava bem cedo.


Dia 27/12/2013 Sexta-feira Deception Island & Polar Plunge

Último dia de desembarque, última chance de pisar em terras antárticas antes de entrar no avião. Nossa manhã começou cedíssimo com o acordar de Mariano pelo sistema de som às 06h45. Desembarcariamos em Baily Head antes do café da manhã que foi transformado em Brunch (café da manhã + almoço). Eu tinha a tarefa de colocar o sapão e ficar de prontidão na água para segurar o zodiac pois o desembarque em Baily é sempre difícil. A pinguineira estava super ativa e centenas de pinguins subiam e desciam pela ladeira até a praia. Consegui ficar no final da fila de passageiros o que me deu um pouco mais de tempo de curtir a paisagem. Deitei na lateral da pinguin highway e os pinguins simplesmente me ignoraram, passando bem pertinho de mim. Um ou outro parava para tentar descobrir o que exatamente eu era, e paravam bem pertinho. Depois subi um pouco a pinguineira e fiquei observando os minúsculos filhotes que já tinham nascido, talvez com no máximo 2 ou 3 dias de idade. 
Filhotes minusculos em Baily Head
E assim a manhã passou tranquila até voltarmos a bordo as 10 hs, já verde de fome. Me deliciei com um excelente café da manhã com direito até a camarão grelhado e salmão, preparado pelo chef Daniel e equipe. E logo as 12 horas desembarcamos novamente em Deception, desta vez dentro da baia Whalers. Eu caminhei com os passageiros até a janela de Netuno, como de costume e voltei a praia aguardando minha despedida – o Polar Plunge. A água até que não estava fria e dessa vez batemos o record de passageiros na água. Foram mais de 40 ! Eu pulei quase no final, junto com Dr. Sérgio e Yanko, nosso segundo oficial de navegação. Coisa de louco ? na verdade não. Apenas uma despedida a altura de estar em Neverland. Saímos de Deception logo em seguida, e ai sim foi minha despedida, com a família antártica toda reunida no deck 5, dizendo adeus a Deception e brindando ao futuro.
Até que o banho não foi gelado (Deception Island).
Agora navegávamos tranquilamente pelo Bransfield em direção a Frei. A esta hora amanhã não estarei mais em Neverland e será uma mistura de saudades com ansiedade. Foram quase 50 dias de aventuras, muito trabalho e muitas alegrias e surpresas. Se alguém me perguntar se estou feliz, vou dizer que sim e que não, mas não tenho como explicar. Sinto aquela mesma sensação de antes, quando estou partindo para poder voltar. Quem sabe as poucas horas até o vôo a sensação mude, sei lá. Por hora, só me resta comemorar a despedida com os amigos e passageiros.

Dia 28/12/2013 Sábado Good Bye Ocean Nova

Bem...na verdade a navegação não foi tão tranquila assim. Logo depois de sairmos de Deception o tempo mudou e ventos fortes começaram a castigar o barco. O navio virou um barco fantasma e na janta mal havia 10 passageiros conosco. Esse era o preço de terem 5 dias excelentes. Qualquer movimento diferente todos passam mal. As 21h30 tivemos a apresentação final de slides, já dentro da baia Maxwell, mas ainda com vento forte e ondas. Não durou 15 minutos e os poucos passageiros que assistiram saíram voando de lá. Eu ainda tinha que arrumar parte das minhas coisas e fui para a minha cabine fechar a mala. Logo percebi que não ia dar para ficarmos na frente de Frei. Haviam dois navios parados ali ocupando o lugar de ancoragem melhor e um pouco mais para fora da baia o navio não segura com vento forte. Bate de cá e bate de lá, capitão Edar decidiu colocar o barco próximo da geleira na Ilha Nelson, ao lado de Maxwell bay. Paramos de balançar um pouco mas o sinal da internet deixou também de existir. Por isso, decidi deixar para atualizar o blog já em Punta Arenas, com uma internet um pouco melhor. Fui dormir lá pela 1 hora da manhã, já com tudo pronto e roupa separada para desembarcar.
Belíssimo por de sol, mas o vento deixou o mar agitado em Maxwell Bay.

Foi tudo muito rápido na verdade Acordei as 06hs, tomei café e terminei de levar rádio e carregador para o escritório, bem como fechar a caixa de amostras que eu deixaria para a Erli em Frei. As malas dos passageiros e a minha já estava na gangway e só foi esperar o momento certo. O capitão Edar reposicionou o navio na entrada da baia mesmo sem ancorar, e o vento e as ondas deixaram a manobra bastante difícil por ali. Sorte que minhas malas estavam cobertas com uma capa a prova d’água. Tudo ficou rapidamente ensopado com as ondas. Pulei no terceiro bote pilotado pelo Mike e fiz exatamente o que eu queria – sair à francesa. Me despedi apenas de dois ou três que insistiram em me dar um abraço. Eu odeio despedidas, não gosto de dizer adeus. Então foi melhor assim. Deixei chocolate e bilhetes para a família antártica e em menos de 15 minutos estava sozinho mais uma vez na praia de Frei. Iria aguardar os passageiros ali.
 
Mike pilotando o terceiro zodiac com bagagens, rumo a Frei. Good Bye Ocean Nova.

Às 10h00 o último bote chegou na praia, com um tempo horrível, ondas e vento, molhando tudo. Despedi-me de Mariano e Bjorn, bem como Mike e o resto da trupe. Liderei o grupo de passageiros na subida até a pista de forma bastante tranquila e em menos de 40 minutos estávamos todos confortavelmente sentados no avião, zarpando da antártica. Good bye Ocean Nova, Good bye Neverland. Duas horas depois chegamos ao aeroporto em Punta Arenas sob um calor de 10 graus e sol forte. Rapidamente os passageiros se dispersaram e pude calmamente seguir meu caminho para a oficina da Antarctica XXI, com Loli, Doutor Sérgio, Jamie e Carolina (esta última é a responsável pela recepção dos passageiros em Punta Arenas).

Partindo do Aeroporto para o escritório da AXXI.

Eu ainda estava meio disperso, meio que acordando de um sono profundo. E assim terminou minha aventura antártica. Ainda fiz umas compras, entreguei minhas roupas, fechei a documentação de final de operação e me preparei para um domingo de descanso, sob uma chuva fina que começava a cair em Punta Arenas no final do dia. Pelo menos a noite foi excelente, com um jantar divino com os amigos, um jantar de despedida, com risadas e lembranças boas de um tempo distante. Sim....distante, pois Neverland não é a minha realidade. As lembranças desta temporada são como sonhos. Gelo, pinguins, neve, focas, baleias, ondas, paraísos congelados.

 
A comida "esquisita" del Remezon. Castor, Guanaco, Ganso, Coelho. 

Dia 29/12/2013 Domingo Brazil Brazil


Meu vôo é apenas na madrugada de segunda-feira dia 30 mas hoje é meu dia de descanso. Apenas para não deixar em branco – chove, silêncio no escritório, trabalho (fotos e mais fotos para o facebook), falar com a família, olhar para dentro de si mesmo antes de deixar esta terra que me acolheu tão bem. Good Bye Diário Antártico.


domingo, 22 de dezembro de 2013

Classica Antarctica 04 - de pinguins Imperadores à Orcas

Dia 18/12/2013 Quarta-feira Frei Rock Day

Frei Rock Day é dia de trabalho duríssimo mas gratificante. Eu me sentia estranho pois sabia que o grupo que viria a frente seria meu penúltimo. O tempo voava muito rápido e em breve eu estaria indo embora de Neverland. O vôo veio no tempo normal mas deu trabalho para fazer o traslado da praia pois a neve estava muito fofa e cheia de buracos. O reboque que usamos para bagagens acabou quebrando e o trabalho dobrou. Mas com trabalho de equipe até que fizemos uma troca em um tempo razoável sem dar tempo para os passageiros perceberem o tremendo problema que estávamos passando. Eu fui para a cabeceira da pista acompanhar o time de filmagem que queria ver a aterrisagem e fui requisitado para fazer taxi-boat na praia. 2 viagens para mim  e pronto ! já estava em minha cabine pronto para a próxima viagem. Até que ficamos bastante tempo por ali pois Diana, nossa chefe da Antarctica XXI estava a bordo almoçando e acertando detalhes da nossa operação. Deu até para tirar uma pequena soneca, até que fui acordado pelo chamado carregado de ansiedade do staff pois um pinguim imperador tinha sido avistado na praia. Correria total, em menos de dois minutos eu estava novamente equipado e pronto para pilotar zodiacs e levar passageiros para a praia. Era um acontecimento tremendo mas não totalmente incomum. Penso que 2 pinguins imperadores já tinham sido avistados por ali anteriormente, mas ainda assim um espetáculo. Tinhamos menos de 15 minutos para tirar fotos e zarpar sem comprometer o tempo de viagem, e foi o que fizemos, quick & clean, passageiros in e out e antes das 16hs já estávamos navegando pelas tranquilas águas do Bransfield rumo a Antarctic Sound. Era minha deixa para tirar atraso de sono e descansar um pouco.
Imperador de Frei

quarta-feira, 18 de dezembro de 2013

Classica Antarctica 03 - Sol sol sol mais uma vez

Dia 13/12/2013 Sexta-feira Frei Rock Day

Acordei super cedo e a situação era a mesma da noite – um nevoeiro denso de cortar com faca cobria toda a baia Maxwell. Já era de se esperar que não haveria vôo pela manhã e ficamos em standby nesse tempo. Eu aproveitei para organizar minhas coisas e fazer uma pequena mudança – eu iria para a proa do navio, na cabine 301. Como meu querido amigo Bjorn estava chegando no próximo vôo, Loli dividiu novamente as cabines e colocou Bjorn com Nico, no meu lugar e com isso eu ganhei uma cabine só para mim. Por um lado é bom pois ganho privacidade, mas por outro é ruim pois eu acabava acordando com o despertador do Nico.

Logo depois do almoço Mariano me pediu para ajudar no desembarque em Ardley island, uma pequena ilhota bem perto da base e praticamente na frente do nosso ponto de fundeio. Nevava muito e a visibilidade era baixíssima, mas pimba! Veio a chamada de emergência – o vôo iria decolar de Punta Arenas em uma hora e teríamos que estar prontos para a faina de troca de passageiros. Tudo correu como planejado e rápido. Pegamos as malas, subimos com a Van para a pista, o avião chegou e trocamos as malas em 20 minutos. No entando, os passageiros que estavam chegando eram mais numerosos – 61, e as malas muito mais pesadas. Acho que transportamos mais ou menos uma tonelada e meia de material (Fácil!) e não demorou muito o navio tomou seu rumo para Spert Island para o programa do dia seguinte. Era minha primeira noite naquela cabine nova e o balanço gostoso e a privacidade vieram em excelente hora.

Hector e seu Big Foot


Dia 14/12/2013 Sábado Cierva Cove & Hydruga

Meu relógio tocou pontualmente e olhei para fora pela janela já sentindo que o dia seria diferente. Muito swell e muito vento do lado desprotegido da ilha. Mesmo antes do café da manhã veio a decisão de Mariano, trocamos Spert Island para Cierva Cove que ficava muito mais protegida. A idéia era ter um passeio de Zodiac entre gelo e icebergs por ali. Fiz par com Pernile e partimos para dentro da baia brigando com o gelo mas conseguindo se aproximar bem da costa, onde milhares de pinguins gentoos entram em terra em uma ruidosa Penguin Highway. Continuamos pela baia adentro até que “puff!”, Pernile atingiu um pedaço de gelo muito duro e abriu um rombo no barco dela. Nada muito perigoso, mas passei mais da metade dos passageiros dela para o meu bote e continuamos mais uns minutos antes de voltarmos ao barco. Ainda vimos uma preguiçosa foca de Weddell dormindo em uma placa de gelo, ignorando nossa presença por ali.

À tarde atravessamos o canal de Gerlache rumo a Hydruga, para um desembarque também longo e com sol. Nada de muito diferente desde nossa última visita por ali, a não ser o cheiro bem mais forte de guano que saia da pinguineira.  Fizemos um passeio normal de 2h30 e voltamos para o barco para janta e depois um pouco de bate-papo no bar, até que veio o alarme – orcas ! Dessa vez encontramos um grupo grande do tipo A, o maior de todos, literalmente brincando ao redor do barco. Por mais de duas horas ficamos entre umas 20 a 25 orcas, com vários filhotes e uns 3 grandes machos, navegando em círculos e tirando fotos, no frio congelante que estava de noite.


Orca show in Gerlache

Fui dormir logo depois já bastante cansado do movimento e aguardando o próximo dia mais ao sul.

Dia 15/12/2013 Domingo Lemaire, Petermann e Verdnasky

O dia amanheceu fechado e com muito gelo no canal de Lemaire, até um pouco de neve, mas assim que atravessamos o canal e chegamos na ilha Petermann, saiu o sol e o vento praticamente parou. Assim que eu desembarquei, Mariano me pediu para ajudar Nico com o grupo de Snowshoe, que consiste em um sapato que mais parece uma tábua de passar roupa e facilita sua caminhada na neve. Fantástico ! fizemos uma tremenda volta na ilha passando por lugares que eu ainda não conhecia. Luz, sol, céu azul, fotos fantásticas da cordilheira da península e da caminhada. Eu fui abrindo a fila e Nico foi fechando. Aproveitei muito ! Pena que acabou depois de apenas 3 horas.
O navio continuou rumo sul até chegar em Verdnasky, para desembarcarmos na estação ucraniana e caminharmos pelo mar congelado entre as ilhas Argentinas. O sol continuava fantástico e com o céu aberto deu para aproveitar bem a paisagem ao redor, embora eu não curta muito essa base. Não sei explicar o porquê. Zarpamos de lá as 17 hs rumo a Lemair novamente dessa vez passando para norte. Sol forte, fiz umas boas fotos com a câmera apontando para a popa do navio, com o sol brilhando, e deixando nossa posição mais ao sul mais uma vez. Estávamos rumando para Paradise Bay e o cansaço tomou conta de mim. Fui dormir precisando muito dormir. O dia seguinte seria mais uma vez bem cheio.
Pinguins pulando para nadar em Verdnasky


Dia 16/12/2013 Segunda-feira Paradise Bay e Neko + BBQ

Entramos em Paradise Bay bem cedinho de manhã e ainda navegávamos entre icebergs quando meu relógio despertou. No briefing fiquei com a tarefa de organizar o primeiro grupo na base Almirante Brown e ainda dar uma olhada (e manutenção) no memorial que tem na ilha. É uma pequena caixa de plástico com um livro dentro, em homenagem a um guia de expedição que morreu em 1995. O memorial fica em uma pedra acima da estação e estava em péssimas condições, pois havia entrado água dentro da caixa plástica. Deixei o livro secando e troquei os plásticos de proteção para tentar salvar um pouco da história antártica. No livro, uma amiga conta um pouco da vida do guia, e as pessoas que ali passam e lêem fazem sua contribuição, não só em homenagem ao explorador, mas também à própria Antártica e sua beleza e perigos. Não fiquei muito por ali porque tinha ainda que levar um grupo a um cruzeiro de zodiac até o glaciar Skontorp, entre icebergs e pedaços de gelo por toda a baia, mas ainda deu tempo de coletar mais uma amostra de solo para a Erli.

O memorial em Alm. Brown

Voltamos para o barco para o tão aguardado almoço e pouco tempo depois já estávamos dentro da baia Anvord seguindo rumo a Neko Harbour. O sol forte já dava sinais de que a caminhada seria “quente”. Já na subida ao pico de Neko várias pessoas tiravam os casacos tentando refrescar um pouco. Sol forte, muito protetor solar e chapéu de aba larga. Combinação perfeita para Neko. A vista do glacier estava espetacular com toda aquela luz, mas havia pouco vento e não tivemos nenhum espetáculo de quebra de gelo como da ultima vez, apesar de uma ou duas pequenas avalanches no topo do glaciar. Foi uma tarde longa, com um desembarque de 3 horas, e por ultimo eu ainda fiquei de zodiac driver para ajudar no transporte de passageiros e carga, já sentindo o cheiro maravilhoso de carne assada que saia do navio. Era dia de churrasco a bordo.

O Antarctic Barbecue aconteceu ali mesmo em Neko, em baixa velocidade saindo da baia, e ainda assim com um ventinho frio. Logo depois fomos todos para o Panorama Lounge para o Antarctic Quis organizado mais uma vez pelo Ben e pelo Mike, enquanto eu organizava um pouco minhas fotos no computador. Foi ali que Mariano me deu a grata e tão esperada “folga” para o dia seguinte. Fui dormir tranquilo, embora bastante cansado. As férias curtas no dia seguinte vieram em boa hora.

Dia 17/12/2013 Terça-feira Deception & Baily Head

É estranho como reagimos quando temos tempo. Embora eu soubesse que minha manhã era livre, acordei pontualmente com o relógio, mas ainda fiquei de preguiça na cama para dar tempo de tomar café em paz e com pouca gente na volta. Estávamos em Deception e eu tinha planejado curtir minha manhã. O navio foi para Telephon Bay, no fundo da baia dentro da cratera e eu coloquei um casaco azul, minhas calças a prova d’água e troquei meu chapéu por um boné. Estava vestido como um passageiro qualquer e desembarquei como um, sem rádio e apenas com o objetivo de curtir minha manhã livre de trabalho. O passeio foi bom, um pouco curto, mas bom, e terminei assistindo os bravos (e malucos) passageiros no Polar Plunge. Voltamos a bordo logo em seguida e o navio se deslocou para fora da ilha, para Baily Head, nosso desembarque logo depois do almoço. Nesse período minhas curtíssimas férias haviam acabado e voltei a ativa com força total. Descemos na praia com a maré super baixa e seguimos para dentro da ruidosa colônia de Chinstraps, sob um sol fraco e sem vento, e que deixava a temperatura local bastante alta. Ali no reino dos Chinstraps, os pinguins não tem medo algum e um deles veio bicar meu pé, talvez testando o sabor da borracha das minhas botas ou só vendo se eu era uma foca diferente.

Chinstrap curioso em Baily Head


Voltamos a bordo para o cocktail do Capitão e o jantar de despedida, e assim, navegando novamente para a Ilha Rei George e a baia Maxwell, terminava mais uma clássica antártica. Aparentemente teríamos vôo bem cedo mas como tínhamos um outro navio a nossa frente, o “Sea Adventure”, não sabíamos o que ia acontecer na baia. Por isso parei o blog por aqui, as 20:30 hs da noite, na esperança de ainda hoje publicar na internet de Frei. Dormir bem era meu plano para hoje.


sexta-feira, 13 de dezembro de 2013

Classica Antarctica 02 - das Shetlands à Lemaire e de volta

Dia 08/12/2013 Domingo Frei Rock Day

Ops ! acabei de me perder nos dias da semana. Isso acontece quando trabalhamos 7 x 7. Comecei a escrever os detalhes dessa viagem e vi que de alguma maneira eu me perdi. Dia 08 domingo foi Frei Day, dia de troca de passageiros em Frei. Acordei com o sol forte batendo na vigia do meu quarto e praticamente sem vento. Que mudança ! Da última vez que estivemos aqui em Frei o tempo estava tão ruim que não víamos 1 metro a frente. O dia ia ser normal (aparentemente). Café da manhã as 08h00 e transporte das bagagens as 10h00. Como de costume, fui no primeiro bote carregado de bagagens até a praia onde nosso fiel senhor do Big Foot nos aguardava. Bagagens carregadas, subimos a pista em uma ensolarada manhã de domingo, mas não tão sonolenta como de costume, pois a base estava ansiosa para o evento da tarde: show do Metálica. Sim...a banda de Rock tinha passado no dia anterior por ali e agora estava na estação argentina de Carlini para fazer um show. Infelizmente nosso navio não foi convidado, mas o pessoal da base sim, então eles queriam mesmo era se livrar logo da gente. O avião chegou pontualmente fazendo um estrondoso sobrevoo a baixa altitude sobre a pista, e em menos de 15 minutos depois de aterrissar, já tínhamos terminado todo o trabalho com as bagagens. Céu azul, sem vento ainda, descemos para a praia e começamos o embarque do novo grupo. Good bye CA01, Welcome CA02. Eram 48 passageiros de várias nacionalidades, mas ainda com maioria americana. Eu estava morto, para variar, e fui direto para a cama depois do almoço. Não tínhamos previsão de atividade e iriamos cruzar o Estreito de Bransfield por toda a noite para chegar a Foyn Harbor no dia seguinte. Então, o resto do meu dia foi de dormir, comer, dormir – enfim descanço.

Dia 09/12/2013 Segunda-feira Entreprise Island e Danco Island

Acordei com o movimento do motor em baixa rotação. Como minha cabine fica no deck 02, na linha d’água e acima da sala de maquinas, qualquer mudança de rotação ou ângulo das hélices é sentido como mudança de som. Estavamos em aproximação de Foyn Harbour, nas ilhas Enterprise. Seria um passeio de zodiac pela manhã e eu estava afoito pois essa é realmente uma das coisas que mais gosto de fazer aqui. Pilotar um zodiac é uma experiência única. É como se o bote fosse uma extensão do meu pensamento, responde rápido aos comandos, mesmo os errados. Passamos a manhã entre as ilhas, explorando, até o naufrágio de um baleeiro antigo que estava sendo usado por dois veleiros e um pequeno navio de turistas como base. Foi um passeio tranquilo.

Zodiac trip em Foyn Harbour

Voltamos para o barco para o almoço e logo em seguida nos posicionamos no canal Herrera, na ilha Danco. Um pedaço de rocha coberta de neve e gelo com uma altura de pelo menos uns 300 m e de difícil escalada, mas com uma vista fantástica de 360 graus sobre o canal Herrera. O sol estava forte e acho que tostei um pouco apesar da grossa camada de protetor que eu sempre passo. Eu tinha um sensor instalado no topo da ilha que recuperei e ainda coletei material para o projeto Skuas e Pinguins da Erli na pinguineira no topo da ilha. Depois de tanto subir na neve fofa eu estava exausto e com muita fome. A janta veio na hora certa e o sono depois dela também. Finalizei meu dia no bar, escrevendo um pouco no computador, papeando com os amigos e aproveitando a vista do glacier Petzvald em Paradise Bay, onde fizemos um cruzeiro com o navio bem próximo da frente do glacier. Um pouco perto demais para mim ! mas o capitão estava confiante e o passeio foi bom. Nada como um dia duro de trabalho para que nossa cama fique mais confortável.
  
Dia 10/12/2013 Terça-feira Peterman Island & Dorian Bay

Às 06:00 hs pontualmente Mariano acordou a todos, estávamos na porta do canal de Lemaire. Havia bastante gelo e icebergs no caminho e o tempo estava cinza e encoberto. Ainda assim atravessamos com facilidade o canal e o acesso a ilha Petermann estava aberto. Nosso desembarque foi simples e rápido. Fiquei cuidando dos passageiros próximos ao refúgio argentino abandonado e aproveitei para coletar mais uma amostra para Erli. A ilha Petermann é bastante grande e há vários espaços cobertos de neve com boas caminhadas, perto de pinguineiras ou rochas. Tomei rumo ao “gap” que dá acesso a parte sul da ilha e minha tarefa era abrir caminho até a última pedra possível. Fiquei por um bom tempo ali esperando os primeiros passageiros que demoraram um pouco a chegar. Assim consegui meditar um pouco. O silêncio e a paz só eram quebrados com o som do rádio, que fiz questão de diminuir o volume. Eu adoro esse lugar – paz ! é isso que me lembra Petermann.
Foca Leopardo na frente de Lockroy

Voltamos ao barco para o almoço e tivemos trabalho para sair de Lemaire. Com o vento, o canal tinha ficado bloqueado com gelo e o caminho para Port Lockroy estava tomada por debris de pack ice e remanescentes de icebergs. Port Lockeroy ficava cada vez mais distante no tempo pois o navio tinha muita dificuldade para passar por ali. Quando Mariano nos chamou para a Gangway e o desembarque, já eram passados 16 hs. O Staff team entrou no bote e tentamos por 40 minutos chegar a Port Lockeroy sem sucesso. O gelo estava muito fechado e pedaços imensos de sea ice fechavam a passagem. Mariano quase quebrou o hélice do bote algumas vezes e ainda assim não nos movíamos. Lutamos para sair daquela armadilha de gelo, com danos em um dos remos (tentando liberar a frente do bote) e sem o sucesso de chegar a Port Lockroy, Mariano decidiu pedir ajuda ao navio e abrir caminho pela parte noroeste da ilha Gouldier até Dorian Bay. Havia um veleiro ali, o “Icebird”, que os disse que a frente de gelo tinha apenas uns 500 metros, e que o navio conseguiria passar facilmente. Colocamos todos os passageiros em botes, e enquanto o navio abria caminho pelo gelo, seguíamos atrás como um grande cisne azul e pequenos filhotes, até Dorian Bay. Ali, o “Icebird” já repousava nas águas tranquilas onde Amyr Klink tinha invernado com o Paratii. Descemos até a cabana inglesa que abria hoje um museu, como uma máquina do tempo, decorada e mantida como era a 50 anos atrás, e caminhamos pela costa de Dorian entre pinguins e neve. Lugar paradisíaco esse ! e excelente para veleiros.

Doce e querida Dorian Bay

Voltamos a bordo bem a tempo, no final da tarde, e bem a tempo de aproveitar mais um Antarctic Barbecue, temperado a vinho quente, bratwurst e cookies de chocolate branco. Chef Daniel estava inspiradíssimo. Ainda deu tempo de ir ao bar para o Antarctic Quiz coordenado por Ben e Mike, e ficar jogando Uno com Gabriel, o bartender, e Miette. Fui dormir depois da meia-noite, cansado do dia puxado, mas feliz por mais um dia sem um pingo sequer de monotonia.

Dia 11/12/2013 Quarta-feira Neko Harbour & Ohrne Harbour

Minha cabeça ainda doía de sono quando acordei com o relógio exatamente no momento que Mariano dava o bom dia habitual no sistema de auto-falante. Pulei da cama para o encontro diário do café da manhã onde dividimos as responsabilidades nas atividades do dia. Eu fiquei como taxi-boat para Neko Harbour, e me preparei para instalar mais um sensor para o próximo ano. A praia estava cheia de gelo e bem diferente da última vez que estivemos aqui. Boa parte da neve tinha degelado e a praia estava cheia de debris de gelo e pequenas pedras, mostrando que o glacier de Neko Harbour estava bastante ativo. Eu comecei cedo, levando o povo que faria a caminhada com raquetes de neve para a praia e abrindo caminho pelos blocos de gelo. Depois de algumas viagens, todos os passageiros estavam em terra e eu larguei ancora com o bote a uns 50 metros da praia e peguei uma carona no bote de Ruslan para poder subir ao topo do morro em Neko e instalar meu sensor. A caminhada até que foi fácil, pois a neve estava dura. Aparentemente tinha feito um pouco de frio na semana anterior já que os grãos de neve eram bem grandes e uma fina camada de gelo cobria toda a ponta de Neko. Após subir o pico e aproveitar a vista, comecei a descer com alguns passageiros quando de repente veio um estrondo enorme. Um pedaço do tamanho de um prédio se desprendia da geleira com muito barulho e mergulhava fundo na baia fazendo um mini-tsunami. Como combinado nesses casos, entramos todos no rádio avisando da onda, já que estávamos em um local bem alto e logo vi que o povo na praia se movia rapidamente para um local mais alto. Olhei meu bote e vi uma onda de uns 3 metros de altura indo na direção dele, mas virando para a praia...passou perto ! o bote estava em águas mais profundas e escapou por um pouquinho da onda. Blocos do tamanho de um ônibus se mexiam como se fossem de isopor e a praia foi completamente varrida pela onda. Desci correndo e quando cheguei lá estava Mariano sentado calmamente em cima de um dos nossos tambores de emergência, com os passageiros à volta tirando fotos. Todos bem, e “bem” excitados com a onda que varreu a praia. Um espetáculo e tanto.
Gaivota pescando
Voltamos a bordo, eu como taxi-boat novamente, e começamos a nos mover ara Ohrne Harbour, do lado direito da entrada (ou saída) do Canal Herrera. Mariano me pediu para trabalhar novamente como taxi-boat e por fim fazer um cruzeiro de zodiac com os passageiros que não queriam caminhar. Afinal, Ohrne Harbour era uma subida pesada e nem todos tinham preparo suficiente para isso. Peguei 10 passageiros e partimos para dar a volta no “Pão de Açúcar” antártico, já que assim se parece o morro de Ohrne Harbour. Encontramos vários pinguins, cormorões, uma foca e aparentemente uma baleia ao longe. Dei a volta pela baia bem próximo dos glaciares e entramos fundo no meio dos debris de gelo no fundo da baia. Peguei o gelo habitual para o bar e voltamos ao barco, e parti para dar suporte ao pessoal de terra para um evento muito especial: um casamento. Sim ! um casal de passageiros estava “casando”, em uma cerimônia dirigida pelo capitão do barco, em uma banquisa de gelo na praia e apenas para 4 convidados e padrinhos/madrinhas. Não é sempre que vemos um casamento antártico e o casal estava completamente feliz com o sonho realizado.

Voltamos ao barco e um pouco antes da janta tivemos uma surpresa: encontramos um grupo relativamente grande de orcas, caçando uma baleia “Sei”. Não tínhamos uma confirmação de se a caçada tinha sido um sucesso, mas vimos por várias vezes a baleia “Sei” fugindo e as orcas cercando. No final as orcas começaram a se juntar e seguir rápido rumo norte e não vimos mais a baleia “Sei”. Ou ela conseguiu escapar ou as orcas conseguiram jantar. E assim o dia se foi, e mais uma vez estávamos a caminho de Deception. Esta Classica Antarctica 02 estava chegando ao fim. Amanhã será o último dia. Buenas noches Ocean Nova.

Dia 12/12/2013 Quinta-feira Deception Island & Yankee Harbour

O balanço do barco diz tudo, e nessa manhã fria dizia que estávamos nos aproximando de Deception, já que um swell bem firme embalava a minha cama. A vontade de sair dela era zero, mas o dever nos chamou as 06:30 hs na frente dos Foles de Netuno. Eu tomei café, voltei para o quarto e troquei de roupa, e segui para a Gangway onde um frio gélido entrava pela porta. Baixíssima visibilidade. Mal dava para ver a praia. Mas seria um desembarque simples até. Segui com um grupo para a Janela de Netuno onde víamos o penhasco cheio de petréis e as ondas estourando na praia negra do lado de fora da ilha, e nada mais. Só nevoa. Ainda assim e com esse frio todo, uns 12 passageiros pularam na água no tradicional Polar Plunge. Voltamos para o almoço bem a tempo de eu parar com o rocar do meu estômago.

Waterboat em Deception


Nos movemos para Yankee Harbour e ainda consegui tirar uma breve soneca de 1 hora depois do almoço, e tínhamos pela frente um desembarque longo. Yankee Harbour era névoa pura e mal conseguíamos ver o final da praia. Desembarcamos na ponta onde ficam os elefantes marinhos e eu segui de guia de final de linha. Quando todos os passageiros já tinham visto os elefantes marinhos, peguei um bote e segui para a outra ponta da praia (que tem mais de 3 km de comprimento) enquanto os passageiros caminhavam pela praia tirando fotos e curtindo a névoa densa. A paisagem mudou então de cinza para branco, com uma neve fina e fria caindo por tudo. A pinguineira estava bastante ativa e tivemos trabalho controlando o tráfego de pinguins e passageiros, mas no final deu tudo certo. Finalizado o desembarque, tomei uma ducha quente merecida e partimos para o cocktail de despedida com o Capitão, e a janta. Eu já estava em frenesi, pois isso significava 3 horas para Maxwell Bay e internet chilena. Por hora o tempo continua fechado e não sabemos de nenhum plano de vôo, mas pelo menos temos a esperança e os planos. E assim termina mais uma Classica Antarctica (a de número 02) e amanhã é Rock Day in Frei.

sábado, 7 de dezembro de 2013

Classica Antarctica 01 - do Mar de Weddell a Portal Point

Dia 04/12/2013 Quarta-feira Antarctic Sound

Era tarde da noite quando fui dormir. O navio ainda sentia o swell forte e o spray das ondas se acumulava em gelo ao redor de tudo no nariz no navio. Eu balançava na cama de tempos em tempos e o embalo até que facilitou meu sonho. Sonhei com o Brasil, com a praia em Santos, minha filhota, enfim...sonho de saudades. Mas o dia para mim começava cedo e despertei rapidamente quando meu relógio tocou as 06:00 hs. Eu senti durante a noite que o rumo do navio era errático e com várias pancadas de gelo no costado. Não reconheci de primeira o lugar em que estávamos quando levantei e olhei pela janela, e só depois de um tempo é que percebi que estávamos ainda em uma latitude mais ao norte. Era a entrada de Brown Bluff, na ponta da península, ainda sob domínio de Antarctic Sound. Durante a noite o navio tinha encontrado condições ruins de gelo e Mariano optou por ficar mais ao norte. Fazia um frio de gelar os ossos na praia lotada de pinguins adélie e todos os ninhos da pinguineira giante estavam com seus respectivos pinguins voltados para o vento, para proteger melhor os ovos. O vento frio vinha da calota polar sobre a península e soprava com força e baixíssima temperatura. Eu tentei fazer a primeira coleta de sedimento na pinguineira para o projeto da Erli, mas foi mais difícil do que eu imaginava. O solo estava completamente congelado e duro, e tirar sedimento dali foi uma tarefa árdua. Consegui encher um pote, mas com muitas pedrinhas. Tomara que sirva para ela. Ainda caminhei pelo glacier com outros passageiros e fechamos a praia para voltar ao barco quentinho e um almoço merecido.
Adelies em Brown Bluff

O vento diminuiu e o navio se deslocou mais para dentro do golfo Erebus & Terror, na porção noroeste do Mar de Weddel. Havia gelo marinho com uma espessura fenomenal e muita neve. Aquela parte do mar de Weddell ainda tinha gelo marinho de vários anos sobrepostos, formando uma barreira quase intransponível. Descemos ainda umas 25 milhas para sul até que o gelo começou a bloquear demais o navio. Não havia muito o que fazer e paramos para colocar os botes na água mais os caiaques (sim ! caiaques) e fizemos um tour na borda do gelo marinho, descemos em uma placa de gelo para foto do grupo e apesar do frio congelante. Janta na mesa, banho quente e cama ! era tudo o que eu precisava pois estava mais do que cansado.

Caiaques em Erebus & Terror Gulf

Dia 05/12/2013 Quinta-feira Gourdin e Astrolab

O dia amanheceu com céu azul e sol mas com vento muito forte e durante a noite o navio teve dificuldades para passar em Antarctic Sound por causa do gelo que estava derivando para dentro do Estreito de Bransfield. Ainda assim conseguimos chegar bem no horário do café na pequena ilha Gourdin, a Terra do Rei Pinguim. Na pequenina ilha do tamanho de um estádio de futebol encontramos pelo menos 20.000 pares de pinguins, das 3 espécies: Adélies, Gentoos e Chinstraps. O desembarque foi difícil por causa das ondas, vento forte e uma praia ainda coberta por muito gelo. Aparentemente estava fácil apenas para os pinguins que iam e vinham da água com pedrinhas na boca e a barriga cheia de comida. Ainda encontramos várias focas caranguejeiras dormindo na praia (se é que dava para chamar de praia: uma parece de pedra e gelo que tivemos que escalar para subir na ilha). O grupo de caiaques entrou na água também e aos poucos fomos transportando todos os passageiros. Não tive tempo de pegar amostras pois era um desembarque complexo devido a quantidade de pinguins próximos a rota que traçamos pela ilha. Mas no final deu tudo certo apesar do imenso trabalho de tirar e colocar os passageiros nos botes de transporte, incluindo o banho de água salgada que tomamos quando voltamos por causa das ondas e do vento fortíssimo. As rajadas eram tão fortes que obrigou o navio a ficar manobrando para nos dar uma sombra de vento e permitir o embarque do zodiac no navio.

A ilha do Rei Pinguim - Gourdin 

E assim que voltamos a bordo, como que por mágica, o vento parou, o sol continuou firme e a nossa frente (depois de umas horas de navegação) tínhamos Astrolab Island, com seus picos altos e uma enorma geleira sobre a montanha, o paraíso das aves. Era o lugar ideal para lançar zodiacs na água e dar uma volta, e foi o que fizemos. As montanhas na ponta norte da ilha são chamadas de “dentes de dragão” pois lembram mesmo os dentes de um enorme dragão adormecido. E entre os dentes existem canais que permitem atravessarmos de um lado a outro da ilha. A face leste da ilha estava qualhada de icebergs se debatendo nas ondas e se espatifando em vários pedaços, então ficou fácil para encontrarmos um bom pedaço de gelo para os drinks no bar. Antes de subir a bordo ainda encontramos uma foca leopardo descansando preguiçosamente em uma placa de gelo no meio das ondas. Com o sol e céu azul, o espetáculo estava completo. Haviam ainda baleias na área mas meu zodiac estava pesado e lento e resolvemos voltar a bordo. Os outros zodiacs ainda ficaram circulando por um tempo mas logo estavam todos a bordo para a merecida janta.


Embora o dia tivesse sido cheio, ainda deu tempo de fazer caipirinhas de kiwi, a pedidos de alguns passageiros australianos. Nada mal para terminar a noite. Dormi como uma pedra, casado mas feliz de mais um dia antártico com sol.

Dia 06/12/2013 Sexta-feira Cierva cove, Hydruga e Portal Point

Acordei com o wakeup call de Mariano pelo sistema de som do navio, 2 minutos antes do meu relógio tocar. Estava ensolarado e sem vento e o navio navegava tranquilamente dentro de Cierva Cove, na parte norte de Gerlache. O café da manhã foi navegando entre icebergs e pedaços de gelo, em direção a Hydruga Rocks, uma série de ilhas baixas cobertas com pouca neve e povoadas por pinguins chinstraps, cormorões, gaivotas, skuas e sempre com uma ou outra foca por ali. Passamos a manhã calmamente na ilha com sol e aproveitando o visual. A turma do caiaque (sim ! ainda não tinha comentado isso – 10 passageiros tem uma expedição única – remar entre blocos de gelo, pinguins e focas) remava ao longe e víamos esguichos de baleias no horizonte. Um dia perfeito, eu posso dizer ! Aproveitei e coletei material para o projeto Pinguins e Skuas da Erli e ainda tirei umas fotos bem calmamente e na maior paz.

Após o almoço o tempo continuou aberto, com um pouco mais de nuvens, mas ainda sem vento e com uma sensação boa sem frio. Estávamos entrando novamente no lado continental da península, em um local onde no passado cientistas acessavam a alta calota de gelo, chamado Portal Point. Este é um dos poucos locais por aqui que não vemos pinguim algum e sim, apenas gelo, na verdade, muitooo gelo. Portal Point fica ao fundo de uma baia cheia de icebergs e um glacier que tem pouca inclinação e permite uma caminhada suave, mas sobre uma ponte de gelo (ou seja, nos dois lados da ponte tem um abismo!). Fizemos uma caminhada tranquila, e fiquei no meio do caminho cuidando de alguns passageiros que não quiseram subir tudo. A vista era fantástica e o tempo ajudou bastante – sem vento e com um sol por trás das nuvens. Ainda desci a tempo de fazer um pequeno cruzeiro de zodiac com alguns passageiros entre os grandes blocos de gelo encalhados na baia rasa de Portal Point. E na volta para o navio, sentíamos o cheio de churrasco no ar de longe – nossa janta era o famoso Antarctic Barbecue e com certeza foi o melhor até o momento porque tinha sol, sem vento, mar tranquilo e boa música e comida. Além da carne deliciosa eu ainda guardei dois cookies de chocolate que o pessoal da cozinha faz de sobremesa. Simplesmente delicioso. O dia terminou com um por de sol fantástico em Gerlache norte, rumo a Deception, nosso próximo destino no dia 7.

Portal Point - a ponte de gelo.

Dia 07/12/2013 Sexta-feira Deception Island e Yankee Harbour


Deception é Deception ! como o próprio nome diz. Eram 08:00 hs quando entramos pelos Foles de Netuno, como é chamada a entrada da ilha e lançamos âncora em Whalers Bay. Fiquei com a parte da caminhada até a “Janela de Netuno”, o gap na parede da ilha, e passei frio porque não me movimentei o suficiente. Na verdade estava ventando um pouco, céu parcialmente nublado e eu gelado sem me mexer. Combinação nada agradável. Mesmo assim, bravos (ou loucos) passageiros se lançaram na água para o famoso polar plunge e eu prontamente pulei no último bote para o aconchego do navio. Seria um dia corrido. A tarde fomos para Yankee harbour, um porto natural na Ilha Greenwich, onde pude recuperar mais um sensor. O sol abriu e o vento praticamente parou, tornando a tarde super agradável. Yankee é uma ponta natural de rochas formando uma semi baia com elefantes marinhos, pinguins, skuas e outros pássaros. De Yankee ainda podemos ver o Sharp Peak em Livingston Island, o símbolo da empresa. Ficamos umas 3 horas por ali entre caminhadas e passeios de zodiac, até que deu a hora de voltar para casa e tomar um banho quente. Essa seria a última noite do grupo, onde normalmente comemoramos com um coquetel, janta especial e uma festinha com fotos da viagem. Foi o que passou e por volta das 23hs estávamos entrando na baia Fildes (ou Maxwell) e nas águas agora tranquilas para nosso ponto de fundeio. A previsão é de que teríamos vôo as 10 hs da manhã do dia 08. Então só me restou ficar no computador terminando o blog, arrumar minhas coisas e dormir para mais uma Classica Antarctica.

Por de sol na baia Fieldes (clique na imagem para ver maior).

terça-feira, 3 de dezembro de 2013

Antarctic Express - short short

Dia 29/11/2013 Sexta-Feira Antarctica Express

Domir pra que ? Não me lembro de ter ido deitar e já era sexta dia 29/11. A festa de despedida foi grande pois esse grupo se identificou muito com a viagem, provavelmente por causa do Drake pesado que enfrentamos. Eu passei praticamente a noite toda trabalhando de DJ e ajudando Gabriel no Bar. Quando fechamos o panorama longe já se passavam de 4 hs da manhã. Tomei café correndo e já trabalhando, entre instalação do banner na escada de entrada do navio, bagagens de passageiros que saíam e outros que chegavam e toda a carga de comida que estava chegando – de ovos a pão, de verduras a yogurte. Quando deu 10h30 meus braços estavam arranhados e duros de carregar caixas e ainda fedendo a cebola (carreguei uns 4 sacos grandes). Ainda assim eu estava animado para ir a cidade, ver se arrumava uma boa camisa que eu estava precisando e um café com internet. A camisa eu até achei, mas a internet não. Aparentemente coma tempestade, as comunicações ficaram prejudicadas. Consegui conexão só no porto, e ainda faltando 15 minutos para entrarmos. Então tive que acelerar o processo de envio do blog.

Os passageiros começaram mesmo a chegar entre 15 e 16 hs e até eu foi tranquilo, embora um pouco demorado por conta da pesagem das malas. Dessa vez estávamos pesando toda a bagagem para organizar o vôo de volta dia 3 de Dezembro. O vento começou a soprar um pouco mais forte na hora de zarpar mas mesmo assim Ushuaia aparecia radiante sob um sol baixo e as montanhas da cordilheira Darwin ainda brancas de neve. Atravessamos em algumas horas o canal, durante o treinamento de abandono do barco (obrigatório para os passageiros) e chegamos em Port Williams na hora da janta, para um passeio semi-noturno pela cidade e pelo Mikalvi. Como eu gosto desse lugar ! a Ilha Navarino é um excelente ponto turístico, com uma vista magnífica. Os cachorros soltos na rua são tão amigáveis que chegam  junto rapidamente para lamber nossos pés e brincar apenas com um leve aceno de mão. Encontrei meu velho amigo “pretinho”, um cachorro magro e super alegre que vive no Iate Clube e brincamos um pouco até a hora de voltar ao navio. Eu estava morto. Precisava dormir o mais rápido possível e mal encostei na cama, com meu celular tocando música, nem me lembro qual era a segunda música da lista – apaguei instantaneamente.
 
Porto de Ushuaia...pronto para a AE01

Dia 30/11/2013 Sábado – Drake sweet Drake

Acordamos cedo as 6h00 na intenção de descer em Cape Horn, mas o vento tinha aumentado muito durante a noite e estávamos pegando 50 nós entre as ilhas. Cape Horn era visível com seu monumento ao Wandering Albatroz, mas impossível de desembarcar. Deixamos o prático perto da ilha e seguimos rumo sudeste, rumo a Neverland. Ao invés do tapete mágico vermelho das histórias das 1001 noites, me sinto em um tapete azul de aço, com seu indescritível “Z” branco no nariz do barco, cortando rápido as águas azuis do mar no fim do mundo rumo ao paraíso branco. Serão ainda 27 dias de viagem até eu voltar a realidade, algo tão distante mas já tão perto que dá aquele aperto no coração. Só me resta aproveitar cada minuto como se fosse o último.

Lake Drake

O dia passou de forma tranquila com o balanço habitual sempre intercalado de pequenas pancadas de ondas rápidas no costado de boreste. Eu trabalhei um pouco nas fotos, dei uma palestra, assisti outras e dormi um pouco também (êta  balancinho bommm), e assim o tempo acaba voando um pouco.

Dia 01/12/2013 Domingo – Lazy Drake Lake

Acordei com o sol batendo na vigia do meu quarto e um céu azul lá fora. Entrávamos na parte final da viagem em um Drake Lake. Praticamente não haviam ondas (grandes) e o barco navegava rápido e tranquilo pelas águas azuis do Drake. A temperatura havia caído bastante e já estávamos em Neverland mais uma vez. Naquele dia eu não tinha absolutamente nada para fazer (sem palestras e sem duties) então li um pouco, vi filme, dormir, zanzei pelo navio, bati papo...tudo na mais santa paz. Até que passou rápido o dia. Uma hora ou outra até vimos umas baleias, o navio se aproximou, mas nada fora do anormal para um Drake Lake. A noite por volta das 23hs era possível ver as luzes de Frei bem ao longe no horizonte e fui dormir esperando o dia seguinte que seria cheio.

Dia 02/12/2013 Segunda-feira Half Moon, Aitcho e Robert Point

Bom dia Half Moon ! foi minha frase no facebook, em uma ensolarada mas fria e ventosa manhã de segunda-feira. Estávamos ancorados na frente da pequena ilha com desembarque previsto para 08:30 hs. A ilha é uma rocha vulcânica em forma de meia lua a sudeste da ilha Livingston nas Shetlands do Sul e embora tenha alguns pontos de escarpas altas, ela apresenta boa parte da área coberta de um campo de neve sobre antigas linhas de praia feita de seixos e matacões rolados. Ali tem uma ruidosa colônia de pinguins de barbicha (Chinstraps) e muitas aves como skuas, gaivotas e sternitas. Estava um pouco difícil de caminhar por conta de uma camada grossa de gelo por cima da neve, que deve ter se formado nos dias anteriores a nossa chegada. Demos uma boa volta na ilha, visitando a colônia e encontramos ainda algumas focas dormindo graciosamente sobre a neve na ponta sul. Subindo para norte na ilha, pelo extenso campo de neve, chegamos a praia do outro lado onde encontramos uma baleia Minke morta, sem parte da mandíbula e da língua. Muito provavelmente tinha sido vítima do ataque de orcas que tem por hábito comer apenas essas partes que estavam faltando. Era uma carcaça com boas semanas de idade e para deleite de skuas e outros pássaros, estava acessível para ser devorada.

O vento subiu bastante e dificultou nosso retorno ao barco, para o almoço. Já pela tarde mudamos de posição para um grupo de ilhas próximo chamado Aitcho, especificamente a ilha Barrientos que tem uma colônia de pinguins chinstraps mesclados com gentoos. Eu ainda dei um pulo na Ilha Robert com Ben dirigindo o bote, para explorar uma ponta conhecida e ver se havia algo de interessante para vermos. Encontramos um grupo de elefantes marinhos e uma série de cabanas chilenas e uma base abandonada, completamente destruída. É uma pena, pois o local era interessante, mas a paisagem apocalíptica estragava bastante o cenário. Voltamos a Barrientos para a insanidade antártica tradicional do Polar Plunge. Vários intrépidos passageiros pularam na água gelada em troca de um “shot”’ de vodka e uma toalha seca. Foi no mínimo divertido.

Novamente movemos o navio para uma posição melhor, para a ilha Robert, onde desembarcamos antes da janta mais uma vez. A praia era pequena o swell batia com força o que me deixou completamente molhado enquanto eu cuidava dos passageiros que desembarcabam. O céu estava lindo, azul e com um por de sôl maravilhoso, mas minhas mãos congelavam com a água molhada sobre elas. Não foi fácil o desembarque, mas fizemos. Tivemos ainda a companhia agradável de várias baleias jubartes que se alimentavam praticamente coladas ao navio. Os passageiros aproveitaram bastante e a janta transcorreu tranquilamente até o final, quando veio a notícia triste: teríamos vôo no dia seguinte as 06:00 hs da manhã o que significava acordar pelo menos as 04:00 hs. Ninguém ficou contente, o que era de se esperar, mas aparentemente havia uma tempestade chegando e o risco de ficarmos presos com passageiros era grande, então o que nos restava a fazer era tocar o barco e se preparar para Frei Rock’n Roll Day. Chegamos na baia Maxwell na frente de Frei as 22h30 e eu ainda tinha muita coisa para fazer, permitindo que eu fosse dormir apenas as 2 hs da manhã. Seria com certeza um dia longo. Ainda antes de dormir eu fiz a barba...era meu tradicional dia de “cara limpa” que marca a metade da viagem para mim. Em 26 dias estarei saindo definitivamente do navio e voltando a realidade.

Baleias no por do sol

Dia 03/12/2013 Terça-feira Frei “Rock” Day

A troca de passageiros é sempre uma tarefa complicada e bastante estressante. Quando ocorre no horário desta última e nas condições de tempo que tivemos, é pior ainda. Eram 03:50 da manhã quando eu pulei da cama e fui pegar um chocolate quente. O navio estava quase todo adormecido, tirando nós staffs que tínhamos como principal tarefa passar toda a bagagem para o deck 2 e preparar a gangway. O tempo não estava muito firme e uma leve brisa já mostrava que iria vir chumbo grosso durante o dia. Não eram 05:00 quando eu já estava todo encapotado dentro do zodiac carregado de malas rumo a praia em Frei e em menos de 30 minutos estávamos com o nosso “Big Foot” carregado e subindo a pista com Hector ao volante. Hector, nosso motorista e fiel escudeiro de Frei, é responsável por toda a comunicação com a base aérea chilena da Ilha Rei George. Meu café da manhã foi meio sandwiche de presunto, devorado dentro da van a caminho da área Charlie, onde esperávamos o vôo para as 06:10 hs. Quando o avião pousou, foi aquela loucura que eu já estava acostumado de outras operações, mas que eu não esperava era uma mudança de tempo tão violenta. De uma fraca neve as 06:30 pulamos para uma nevasca com ventos de 40 nós em menos de 15 minutos e a pista virou cena de filme de terror na Antártica.

Avião chegando na pista

Com um certo esforço conseguimos tirar todos os passageiros da pista para a praia e levar os passageiros da praia para a pista, para iniciarmos a segunda e mais complexa parte da operação que consistia em transportar passageiros e bagagem no meio de um mar em fúria. Ondas de 1,5 m explodiam na praia quebrando o gelo que ainda se acumulava por ali e a visibilidade tinha caído para menos de 100 metros. Logo coloquei um sapão e fui para a água ajudar Mariano a controlar os botes em uma operação um tanto “molhada” que consistia em virar o bote com a popa para a praia, para evitar que a água entrasse com muita força. A adrenalina me ajudava a me manter aquecido, pois eu estava completamente ensopado. As ondas passavam por cima da minha cabeça e entravam pela roupa sapão adentro. As 08:00 já tínhamos praticamente todos os passageiros e bagagens a bordo, completamente molhados e um pouco enjoados pois o navio já jogava muito com as ondas e vento que castigavam em um mar força 10 com certeza. Eu ainda tomei um banho quente antes de subir para o Panorama Lounge onde o clima era de pós-guerra, pois os passageiros ainda tiveram que passar pela apresentação de segurança e abandono do navio, molhados, com os coletes-salva vidas e bastante enjoados, e não demorou muito para o doutor ter muito trabalho com pílulas anti-enjoo e sacos de vômito.
Abrimos caminho entre as ondas rumo 125 SE para a ponta da Península Antártica – estávamos indo para o mar de Weddell e Antarctic Sound. O navio parecia um navio-fantasma, com menos de 10 dos quase 50 passageiros perambulando pelo navio. Ainda tirei um cochilo antes do almoço para descansar e o dia passou entre cochiladas e apresentações quase que individuais já que a maioria dos passageiros estava escondida dentro de suas cabines.

E agora, depois do jantar, estávamos navegando tranquilamente por Antarctic Sound rumo a Devil Island. Apesar da tranquilidade os passageiros continuam escondidos em suas cabines. Ainda assim, que venha uma boa noite de começo da Antarctica Classica 01.

Navio de Gelo - entrando em Antarctic Sound (abaixo e a direita)