domingo, 22 de dezembro de 2013

Classica Antarctica 04 - de pinguins Imperadores à Orcas

Dia 18/12/2013 Quarta-feira Frei Rock Day

Frei Rock Day é dia de trabalho duríssimo mas gratificante. Eu me sentia estranho pois sabia que o grupo que viria a frente seria meu penúltimo. O tempo voava muito rápido e em breve eu estaria indo embora de Neverland. O vôo veio no tempo normal mas deu trabalho para fazer o traslado da praia pois a neve estava muito fofa e cheia de buracos. O reboque que usamos para bagagens acabou quebrando e o trabalho dobrou. Mas com trabalho de equipe até que fizemos uma troca em um tempo razoável sem dar tempo para os passageiros perceberem o tremendo problema que estávamos passando. Eu fui para a cabeceira da pista acompanhar o time de filmagem que queria ver a aterrisagem e fui requisitado para fazer taxi-boat na praia. 2 viagens para mim  e pronto ! já estava em minha cabine pronto para a próxima viagem. Até que ficamos bastante tempo por ali pois Diana, nossa chefe da Antarctica XXI estava a bordo almoçando e acertando detalhes da nossa operação. Deu até para tirar uma pequena soneca, até que fui acordado pelo chamado carregado de ansiedade do staff pois um pinguim imperador tinha sido avistado na praia. Correria total, em menos de dois minutos eu estava novamente equipado e pronto para pilotar zodiacs e levar passageiros para a praia. Era um acontecimento tremendo mas não totalmente incomum. Penso que 2 pinguins imperadores já tinham sido avistados por ali anteriormente, mas ainda assim um espetáculo. Tinhamos menos de 15 minutos para tirar fotos e zarpar sem comprometer o tempo de viagem, e foi o que fizemos, quick & clean, passageiros in e out e antes das 16hs já estávamos navegando pelas tranquilas águas do Bransfield rumo a Antarctic Sound. Era minha deixa para tirar atraso de sono e descansar um pouco.
Imperador de Frei


Dia 19/12/2013 Quinta-feira Erebus e Terror Gulf & Brown bluff

Acordei no horário habitual para o meeting antes do café da manhã e olhei pela janela com um mar qualhado de placas de gelo marinho com muita neve. A idéia era fazermos um cruzeiro de zodiac pela manhã que começou muito bem – orcas ! muitas orcas, mas extremamente rápidas. Vimos o grupo passando perto do navio e entrando no gelo e rapidamente colocamos os botes na água para ir atrás delas. O pessoal dos caiaques também foram para a água e em alguns minutos tínhamos o navio inteiro entrando pelo mar semi congelado atrás das orcas. Não foi uma tarefa fácil pois o gelo formava labirintos que abriam e fechavam ao sabor dos ventos, e de repente me vi em um lugar longe do navio e diferente de onde eu estava alguns minutos antes. Formamos um grupo e começamos a voltar, e eu via o gelo se fechando a frente. Quando olhei para trás após passar bem apertado por duas placas, vi o grupo de caiaques todos juntos tirando foto e pimba! Não tinha mais eles em vista. Assim que cheguei ao navio recebemos o chamado pelo rádio vindo de Bem, pedindo ajuda. O gelo tinha se fechado e eles estavam sem saída, e as placas eram tão grandes que seria impossível mesmo para o navio abrir caminho. Depois de duas horas avaliando a situação e depois de todos os caiaques estarem seguros sobre uma placa de gelo e os passageiros no zodiac (também sobre a placa de gelo), decidimos aguardar a mudança da maré que com certeza traria a abertura do gelo por ali. Foram praticamente 6 horas de espera. Eles estavam bem – tinham comida, estavam aquecidos com roupas secas e se divertiam esperando. E nós no navio também íamos controlando a situação da melhor maneira possível, com vídeos, palestras e outras atividades. No finalzinho da tarde a maré começou a fluir mais rápido e o gelo se abriu rapidamente permitindo o resgate do nosso “team Shakleton”.
Mesmo com essas adversidades não desistimos e trocamos a atividade da tarde para uma pós-janta. Fizemos um desembarque continental em Brown Bluff, e dessa vez a pinguineira de Adélies já estava com os primeiros filhotes por ali. Eu ainda trabalhei como taxi-boat e assim o dia passou rápido, cheio de aventuras e muito trabalho. Dessa vez eu fui dormir com muito sono e apaguei assim que minha cabeça encostou no travesseiro.
Os primeiros filhotes de Brown Bluff


Dia 20/12/2013 Sexta-feira Mikkelsen harbour e Cierva Cove

Eu pulei da cama quando meu relógio tocou porque tinha uma sensação de que tinha que levantar rápido. Não deu outra: uns minutos depois Marino acordou o navio dizendo que haviam baleias a frente saltando. Calmamente fui para o Panorama Lounge pensando em ver as baleias como normalmente eu estava acostumado, mas Mariano estava super certo. Um gigante de algumas toneladas acabava de sair quase que inteiro da água fazendo um baita estardalhaço. Corri e peguei minha câmera e consegui tirar boas fotos das baleias (duas ao todo) pulando. Que belo café da manhã ! Passamos boa parte da manhã cruzando o Bransfield até a ilha Trinity e nesse meio tempo dei minha palestra sobre mudanças climáticas. Trabalho normal diário até chegar a Mikkelsen Harbour. Fui requisitado pelo Mariano para fazer Snowshoeing com Nico que ainda não conhecia o local. Embora pequena, a ilha tem muitos pinguins e sempre há focas. Passeamos ao redor das pinguineiras e terminamos na praia que na maré baixa fica com uma extensa área exposta. Bom para caminhar. No final ainda fiz dois cruzeiros de zodiac com passageiros, examinando as estranhas formas de icebergs do local, e sob o olhar vigilante de Comorões de olho azul. Eles chegaram bem pertinho da gente, tão perto eu consegui bons close-ups com minha câmera.
Closeup de um cormorão de olho azul em Mikkelsen

Voltamos ao barco para o almoço enquanto nos deslocávamos para Cierva Cove, completamente tapada de icebergs, growlers e muitos pedaços pequenos de gelo. Ia ser difícil navegar por ali mas estávamos prontos para a tarefa. 7 botes na água e cada um por si, demos uma volta de 1 hora entre as águas geladas, a entrada da pinguineira da estação Primavera (uma estação argentina fechada que fica na parte de fora da baia de Cierva), e gigantes icebergs. Um deles lembrava até a casa do superman (hehe). Não havia vento então foi aproveitamento máximo desse passeio. Voltamos a bordo e logo a agenda ficou cheia: janta e pronto – uma festa só para o staff onde teríamos que aparecer vestidos de super-herói. Eu era “Andre The Anchor” e coloquei minha sunga vermelha por cima da segunda pele preta que uso por baixo do uniforme contra o frio e meu tradicional chapéu. Eu estava simplesmente ridículo ! mas igualmente bem fantasiado como meus colegas (haha). Mas nem morto coloco fotos aqui ! Fica para a imaginação dos leitores. Mas o mais engraçado é que a cabine de Pernile e Bem ficou pequena para a festa e decidimos ir para o bar, fantasiados mesmo. Sai no corredor e topei de frente com nada mais nada menos que o capitão Edar (vixi!) que me cumprimentou com um formal boa noite e aparentemente ignorou a vestimenta ridícula que eu estava usando – aparentemente! Foi uma noite engraçada e divertida no mínimo.

Dia 21/12/2013 Sábado Cuverville Island, Neko harbour e BBQ

A noite foi tranquila mas as vezes eu acordava com pancadas secas no casco bem debaixo da minha janela. Como minha cabine agora está na proa, pequenos pedaços de gelo que o navio encontra pelo caminho viram uma sinfonia noturna. Bem...tenho o sono pesado então isso até que não importa muito. Chegamos a Cuverville com sol e sem vento algum. Eu fiquei de taxi-boat, tarefa que eu adoro, e aproveitei para tirar umas finas de icebergs enquanto pilotava o zodiac vazio entre a praia e o navio. A baia na frente de Cuverville estava qualhada de blocos de tamanho médio com grandes espaços entre eles. Depois de transportar os passaeiros subi a trilha do lado direito da praia que dá acesso a uma das pinguineiras, para controlar o fluxo de passageiros entre as highways dos pinguins. E o movimento era grande. Em 30 minutos parado ali eu vi uma (ou duas) skuas pegarem 4 ovos. Elas deviam estar com fome. Os pinguins reagiam da melhor maneira possível tentando proteger os ninhos mas as skuas são espertas e afinal, esse é o ciclo natural da vida.
Um dia da caça e outro do caçador

Voltei a praia com o chamado de Mariano para pilotar novamente, pequenos cruzeiros de 20-30 minutos, e contornei a ilha com uma vista magnífica do canal Herrera cheio de icebergs e completamente sem vento. Parecia um espelho de água. O melhor de pilotar é exatamente isso, a paisagem muda na velocidade que o zodiac se desloca. Voltamos a bordo para o almoço e deslocamos o navio apenas um pouco mais ao norte, para Neko Harbour, também com sol e um calor de matar. Tive que tirar pelo menos 2 das 4 camadas de roupa que normalmente eu uso. Pilotei e caminhei o suficiente para uma pequena maratona, e no final ainda tivemos um cruzeiro de zodiac no meio do gelo a procura de baleias minke. De tempos em tempos ouvíamos o som do esguiço (respiração) delas, e as vezes um vulto no gelo mas elas são muito tímidas. Ficamos por ali mais um tempo até que comecei a maratona de transporte navio-praia até umas 6h00 da tarde, quando então voltei definitivamente para o navio e me preparei para o tradicional Churrasco Antártico. Como sempre, a noite terminou com o Antarctic Quis, cerveja, muitas risadas e muito sono. O dia tinha sido bastante puxado e meus braços doíam. Boa noite Gerlache – seguíamos rumo a Deception.

Gilda e Doctor Sergio no caiaque em Cuverville.

Dia 22/12/2013 Domingo Deception Island

Mais uma vez dormi enquanto o navio navegava tranquilamente para dentro da cratera afogada de Deception. Eu até tinha planejado acordar mais cedo para colocar a minha câmera Gopro e filmar a entrada, mas minha cama estava tão quentinha que decidi ficar até o limite dos 15 minutos antes do café da manhã. Nosso objetivo era desembarcar em Telephon Bay para uma caminhada e eu ficaria de taxi-boat. O vento estava forte e a temperatura tinha caído bastante – fazia 0°C e a sensação era de bem menos. O vento empurrava ondas para a praia o que dificultava ainda mais a manobra com os botes. Logo de cara já percebi que eu ficaria ensopado. Manobrei o primeiro e o segundo bote e ancorei perto da praia. Mariano queria que eu acompanhasse o final da fila de passageiros que subia até a cratera da última erupção em Telephon Bay. Foi uma caminhada curta que terminou na praia uma hora depois, para o tradicional Polar Plunge, mas desta vez sob vento bem forte. Já me molhei inteiro pois com vento assim mudamos os barcos de orientação e os passageiros entram pela popa, mas para quem fica na água segurando os barcos é onda na cara na certa. Mesmo todo ensopado, peguei um dos zodiacs para um passeio até o fundo da baia, onde ainda havia gelo marinho e uma boa dezena de focas caranguejeiras e de Weddell dormindo. Não sei como os bravos e intrépidos nadadores conseguiram suportar o frio intenso que fazia, mas umas 15 pessoas pelo menos entraram na água.
Voltamos para o almoço enquanto o navio saída de Deception, para dar uma olhada nas condições de tempo. Fizemos uma parada em Bailey Head para um cruzeiro de zodiac que foi uma aventura. Eu fiquei ensopado de tantas ondas que tomamos de proa. O vento fazia com que a água viesse diretamente no meu rosto. Mas mesmo assim foi bom, lindo para se dizer, e todos os passageiros ficaram contentes mesmo completamente ensopados.

Baily Head e muitooo ventooo


Saímos da li e rumamos pacientemente para King George Island, navegando ao largo de Livingston, Greenwich e Robert Islands. Dia de despedida, de dizer adeus de tomar uns tragos no bar depois da janta. Amanhã será Frei Hard Rock Day. Então, fui dormir cedo para aguentar o tranco e a última viagem da minha temporada antártica.

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