Dia 18/12/2013 Quarta-feira Frei Rock Day
Frei Rock Day é dia de trabalho duríssimo mas gratificante. Eu me sentia
estranho pois sabia que o grupo que viria a frente seria meu penúltimo. O tempo
voava muito rápido e em breve eu estaria indo embora de Neverland. O vôo veio
no tempo normal mas deu trabalho para fazer o traslado da praia pois a neve
estava muito fofa e cheia de buracos. O reboque que usamos para bagagens acabou
quebrando e o trabalho dobrou. Mas com trabalho de equipe até que fizemos uma
troca em um tempo razoável sem dar tempo para os passageiros perceberem o
tremendo problema que estávamos passando. Eu fui para a cabeceira da pista
acompanhar o time de filmagem que queria ver a aterrisagem e fui requisitado
para fazer taxi-boat na praia. 2 viagens para mim e pronto ! já estava em minha cabine pronto
para a próxima viagem. Até que ficamos bastante tempo por ali pois Diana, nossa
chefe da Antarctica XXI estava a bordo almoçando e acertando detalhes da nossa
operação. Deu até para tirar uma pequena soneca, até que fui acordado pelo
chamado carregado de ansiedade do staff pois um pinguim imperador tinha sido
avistado na praia. Correria total, em menos de dois minutos eu estava novamente
equipado e pronto para pilotar zodiacs e levar passageiros para a praia. Era um
acontecimento tremendo mas não totalmente incomum. Penso que 2 pinguins
imperadores já tinham sido avistados por ali anteriormente, mas ainda assim um espetáculo.
Tinhamos menos de 15 minutos para tirar fotos e zarpar sem comprometer o tempo
de viagem, e foi o que fizemos, quick & clean, passageiros in e out e antes
das 16hs já estávamos navegando pelas tranquilas águas do Bransfield rumo a
Antarctic Sound. Era minha deixa para tirar atraso de sono e descansar um
pouco.
| Imperador de Frei |
Dia 19/12/2013 Quinta-feira Erebus e Terror Gulf & Brown bluff
Acordei no horário habitual para o meeting antes do café da manhã e
olhei pela janela com um mar qualhado de placas de gelo marinho com muita neve.
A idéia era fazermos um cruzeiro de zodiac pela manhã que começou muito bem –
orcas ! muitas orcas, mas extremamente rápidas. Vimos o grupo passando perto do
navio e entrando no gelo e rapidamente colocamos os botes na água para ir atrás
delas. O pessoal dos caiaques também foram para a água e em alguns minutos tínhamos
o navio inteiro entrando pelo mar semi congelado atrás das orcas. Não foi uma
tarefa fácil pois o gelo formava labirintos que abriam e fechavam ao sabor dos
ventos, e de repente me vi em um lugar longe do navio e diferente de onde eu
estava alguns minutos antes. Formamos um grupo e começamos a voltar, e eu via o
gelo se fechando a frente. Quando olhei para trás após passar bem apertado por
duas placas, vi o grupo de caiaques todos juntos tirando foto e pimba! Não tinha
mais eles em vista. Assim que cheguei ao navio recebemos o chamado pelo rádio
vindo de Bem, pedindo ajuda. O gelo tinha se fechado e eles estavam sem saída,
e as placas eram tão grandes que seria impossível mesmo para o navio abrir
caminho. Depois de duas horas avaliando a situação e depois de todos os
caiaques estarem seguros sobre uma placa de gelo e os passageiros no zodiac
(também sobre a placa de gelo), decidimos aguardar a mudança da maré que com
certeza traria a abertura do gelo por ali. Foram praticamente 6 horas de
espera. Eles estavam bem – tinham comida, estavam aquecidos com roupas secas e
se divertiam esperando. E nós no navio também íamos controlando a situação da
melhor maneira possível, com vídeos, palestras e outras atividades. No
finalzinho da tarde a maré começou a fluir mais rápido e o gelo se abriu
rapidamente permitindo o resgate do nosso “team Shakleton”.
Mesmo com essas adversidades não desistimos e trocamos a atividade da
tarde para uma pós-janta. Fizemos um desembarque continental em Brown Bluff, e
dessa vez a pinguineira de Adélies já estava com os primeiros filhotes por ali.
Eu ainda trabalhei como taxi-boat e assim o dia passou rápido, cheio de
aventuras e muito trabalho. Dessa vez eu fui dormir com muito sono e apaguei
assim que minha cabeça encostou no travesseiro.
Dia 20/12/2013 Sexta-feira Mikkelsen harbour e Cierva Cove
Eu pulei da cama quando meu relógio tocou porque tinha uma sensação de
que tinha que levantar rápido. Não deu outra: uns minutos depois Marino acordou
o navio dizendo que haviam baleias a frente saltando. Calmamente fui para o
Panorama Lounge pensando em ver as baleias como normalmente eu estava
acostumado, mas Mariano estava super certo. Um gigante de algumas toneladas
acabava de sair quase que inteiro da água fazendo um baita estardalhaço. Corri
e peguei minha câmera e consegui tirar boas fotos das baleias (duas ao todo)
pulando. Que belo café da manhã ! Passamos boa parte da manhã cruzando o
Bransfield até a ilha Trinity e nesse meio tempo dei minha palestra sobre mudanças
climáticas. Trabalho normal diário até chegar a Mikkelsen Harbour. Fui
requisitado pelo Mariano para fazer Snowshoeing com Nico que ainda não conhecia
o local. Embora pequena, a ilha tem muitos pinguins e sempre há focas.
Passeamos ao redor das pinguineiras e terminamos na praia que na maré baixa
fica com uma extensa área exposta. Bom para caminhar. No final ainda fiz dois
cruzeiros de zodiac com passageiros, examinando as estranhas formas de icebergs
do local, e sob o olhar vigilante de Comorões de olho azul. Eles chegaram bem
pertinho da gente, tão perto eu consegui bons close-ups com minha câmera.
Voltamos ao barco para o almoço enquanto nos deslocávamos para Cierva
Cove, completamente tapada de icebergs, growlers e muitos pedaços pequenos de
gelo. Ia ser difícil navegar por ali mas estávamos prontos para a tarefa. 7
botes na água e cada um por si, demos uma volta de 1 hora entre as águas
geladas, a entrada da pinguineira da estação Primavera (uma estação argentina
fechada que fica na parte de fora da baia de Cierva), e gigantes icebergs. Um
deles lembrava até a casa do superman (hehe). Não havia vento então foi
aproveitamento máximo desse passeio. Voltamos a bordo e logo a agenda ficou
cheia: janta e pronto – uma festa só para o staff onde teríamos que aparecer
vestidos de super-herói. Eu era “Andre The Anchor” e coloquei minha sunga
vermelha por cima da segunda pele preta que uso por baixo do uniforme contra o
frio e meu tradicional chapéu. Eu estava simplesmente ridículo ! mas igualmente
bem fantasiado como meus colegas (haha). Mas nem morto coloco fotos aqui ! Fica
para a imaginação dos leitores. Mas o mais engraçado é que a cabine de Pernile
e Bem ficou pequena para a festa e decidimos ir para o bar, fantasiados mesmo.
Sai no corredor e topei de frente com nada mais nada menos que o capitão Edar
(vixi!) que me cumprimentou com um formal boa noite e aparentemente ignorou a
vestimenta ridícula que eu estava usando – aparentemente! Foi uma noite
engraçada e divertida no mínimo.
Dia 21/12/2013 Sábado Cuverville Island, Neko harbour e BBQ
A noite foi tranquila mas as vezes eu acordava com pancadas secas no
casco bem debaixo da minha janela. Como minha cabine agora está na proa,
pequenos pedaços de gelo que o navio encontra pelo caminho viram uma sinfonia
noturna. Bem...tenho o sono pesado então isso até que não importa muito.
Chegamos a Cuverville com sol e sem vento algum. Eu fiquei de taxi-boat, tarefa
que eu adoro, e aproveitei para tirar umas finas de icebergs enquanto pilotava
o zodiac vazio entre a praia e o navio. A baia na frente de Cuverville estava
qualhada de blocos de tamanho médio com grandes espaços entre eles. Depois de
transportar os passaeiros subi a trilha do lado direito da praia que dá acesso
a uma das pinguineiras, para controlar o fluxo de passageiros entre as highways
dos pinguins. E o movimento era grande. Em 30 minutos parado ali eu vi uma (ou
duas) skuas pegarem 4 ovos. Elas deviam estar com fome. Os pinguins reagiam da
melhor maneira possível tentando proteger os ninhos mas as skuas são espertas e
afinal, esse é o ciclo natural da vida.
Voltei a praia com o chamado de Mariano para pilotar novamente, pequenos
cruzeiros de 20-30 minutos, e contornei a ilha com uma vista magnífica do canal
Herrera cheio de icebergs e completamente sem vento. Parecia um espelho de
água. O melhor de pilotar é exatamente isso, a paisagem muda na velocidade que
o zodiac se desloca. Voltamos a bordo para o almoço e deslocamos o navio apenas
um pouco mais ao norte, para Neko Harbour, também com sol e um calor de matar.
Tive que tirar pelo menos 2 das 4 camadas de roupa que normalmente eu uso.
Pilotei e caminhei o suficiente para uma pequena maratona, e no final ainda
tivemos um cruzeiro de zodiac no meio do gelo a procura de baleias minke. De
tempos em tempos ouvíamos o som do esguiço (respiração) delas, e as vezes um
vulto no gelo mas elas são muito tímidas. Ficamos por ali mais um tempo até que
comecei a maratona de transporte navio-praia até umas 6h00 da tarde, quando
então voltei definitivamente para o navio e me preparei para o tradicional
Churrasco Antártico. Como sempre, a noite terminou com o Antarctic Quis,
cerveja, muitas risadas e muito sono. O dia tinha sido bastante puxado e meus
braços doíam. Boa noite Gerlache – seguíamos rumo a Deception.
Dia 22/12/2013 Domingo
Deception Island
Mais uma vez dormi enquanto o navio navegava tranquilamente para dentro
da cratera afogada de Deception. Eu até tinha planejado acordar mais cedo para
colocar a minha câmera Gopro e filmar a entrada, mas minha cama estava tão
quentinha que decidi ficar até o limite dos 15 minutos antes do café da manhã.
Nosso objetivo era desembarcar em Telephon Bay para uma caminhada e eu ficaria
de taxi-boat. O vento estava forte e a temperatura tinha caído bastante – fazia
0°C e a sensação era de bem menos. O vento empurrava ondas para a praia o que
dificultava ainda mais a manobra com os botes. Logo de cara já percebi que eu
ficaria ensopado. Manobrei o primeiro e o segundo bote e ancorei perto da
praia. Mariano queria que eu acompanhasse o final da fila de passageiros que
subia até a cratera da última erupção em Telephon Bay. Foi uma caminhada curta
que terminou na praia uma hora depois, para o tradicional Polar Plunge, mas
desta vez sob vento bem forte. Já me molhei inteiro pois com vento assim
mudamos os barcos de orientação e os passageiros entram pela popa, mas para
quem fica na água segurando os barcos é onda na cara na certa. Mesmo todo
ensopado, peguei um dos zodiacs para um passeio até o fundo da baia, onde ainda
havia gelo marinho e uma boa dezena de focas caranguejeiras e de Weddell
dormindo. Não sei como os bravos e intrépidos nadadores conseguiram suportar o
frio intenso que fazia, mas umas 15 pessoas pelo menos entraram na água.
Voltamos para o almoço enquanto o navio saída de Deception, para dar uma
olhada nas condições de tempo. Fizemos uma parada em Bailey Head para um
cruzeiro de zodiac que foi uma aventura. Eu fiquei ensopado de tantas ondas que
tomamos de proa. O vento fazia com que a água viesse diretamente no meu rosto.
Mas mesmo assim foi bom, lindo para se dizer, e todos os passageiros ficaram
contentes mesmo completamente ensopados.
| Baily Head e muitooo ventooo |
Saímos da li e rumamos pacientemente para King George Island, navegando
ao largo de Livingston, Greenwich e Robert Islands. Dia de despedida, de dizer
adeus de tomar uns tragos no bar depois da janta. Amanhã será Frei Hard Rock Day.
Então, fui dormir cedo para aguentar o tranco e a última viagem da minha
temporada antártica.



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