domingo, 29 de dezembro de 2013

Classica Antarctica 05 - Good Bye Antarctica

Dia 23/12/2013 Segunda-feira Frei Rock Day

Acordei contente, talvez porque gosto de mudança e essa viagem não é nem um pouco monótona. Hoje é dia de troca de passageiros e o tempo estava tranquilo apesar do vento constante e gelado que invadia a baia Maxwell. Dia padrão com café da manhã, meeting, bagagens e passageiros. Por volta das 10h30 já estávamos todos na cabeceira da pista recebendo o avião com novos passageiros. Beijos e abraços, um adeus sentido e emocionante. Cada grupo é diferente e muito humano. A experiência antártica é única e fazemos muitos amigos aqui. Eu por exemplo fiquei abraçado a uma família filipina (pai, mãe e 3 filhos) extremamente alegre e que contagiava a todos. Foi uma despedida legal e deu energia e gás para a última viagem da temporada para mim.
 
Show de baleias logo no primeiro dia de viagem
Zarpamos de Maxwell bay pontualmente às 15 horas rumo à península. Nosso objetivo era desembarcar em Mikkelsen pela manhã do dia 24. O clima no navio era de natal. Enfeites, gente alegre, música, ambiente bem familiar. Eu, tradicionalmente, coloquei elefantes de tecido feitos artesanalmente e com muito carinho pela dona Silia, presos ao teto do escritório do navio como enfeites e desejos de felicidade, paz e prosperidade. Cada um dos meus amigos entre o staff podia escolher e pegar o que lhe conviesse. Acho que foi o melhor presente que eu poderia dar, pois era carregado de carinho e felicidade. Aproveitei ainda o dia para falar com a minha filhota querida que estava visitando os avós, escrever e-mails e organizar minhas amostras a bordo. O primeiro dia passou assim voando e minha cabeça também. Sei exatamente como os pinguins se sentem quando chega o final do verão. A hora de partir estava chegando e a ansiedade começa a crescer mais uma vez. Acho que precisamos partir para poder amar voltar aqui tão intensamente. Boa noite Antarctica.

Dia 24/12/2013 Terça-feira Spert Island + Mikkelsen

Sorte é uma palavra forte mas se aplica facilmente a viagens desse tipo. Curiosamente eu pulei da cama rapidamente quando meu relógio tocou e fui para o panorama lounge. Mal cheguei por ali recebi a noticia de Mariano que estávamos rumando para Spert Island. No dia anterior, o plano era seguir até Mikkelsen Island mas as condições eram boas apesar da forte neblina e da neve que caia. O mar estava calmo do lado de Spert e com isso Mariano decidiu fazermos um cruzeiro de Zodiac pelos labirintos paradisíacos de Spert. O local é de difícil navegação por causa de vários icebergs que ficam entalados nos labirintos entre as ilhas, e com mar ruim é praticamente impossível navegar ali. Mas não haviam ondas então – nossos sonhos tornaram-se realidade. Eu amo de paixão pilotar e mais ainda em um lugar como esse. Me meti com 10 passageiros, na verdade duas famílias americanas que estavam viajando juntas, pelos labirintos, brigando com blocos menores de gelo e passando pertinho de icebergs gigantes. Nevou o tempo todo mas ainda assim foi uma navegação super emocionante. Nem preciso dizer o quanto meus passageiros gostaram da viagem. Voltamos a bordo super satisfeitos e ainda com tempo de aproveitar a tarde logo ali depois da curva, em Mikkelsen. No meio do caminho ainda curtimos algumas baleias que deram um show a parte saltando na frente do barco.
Spert Island by Bjorn. Nice Picture ! Dirigir zodiacs é a coisa que eu mais amo fazer.
Desembarcamos logo depois do almoço e mais uma vez eu fui ajudar com o Snowshoers, desta vez guiados pelo Jamie, já que Nico havia nos deixado no último vôo. Ainda nevava e a visibilidade era baixa. Mas fizemos o mesmo percurso que da última vez eu havia estado e paramos para observar focas dorminhocas na praia. Foi um passeio curto porque a ilha é pequena mesmo e eu ainda aproveitei para coletar mais uma amostra para a Erli. O dia de Natal passou rápido e voltamos ao navio para a ceia. Na verdade, Natal por aqui é uma comemoração longa. O salão do restaurante foi decorado e logo depois da janta ainda tivemos uns minutos de festa na cabine de Ben e Pernile, com direito a presentes e muitas risadas. Mais a noite (perto da meia-noite) a biblioteca do navio tinha sido fechada só para a tripulação e para nós staff. Mike, vestido de Papai Noel, dava presentes para toda a tripulação, entre música alta e comida. Eu fiquei até uma hora da manhã por ali e fui dormir em seguida pois estava mais do que cansado. Já tinha falado com a família e agora era hora de dormir. O trabalho por aqui não ia parar nem no Natal. Feliz Natal Ocean Nova.
Papai Noel Mike ! (divertidíssimo)


Dia 25/12/2013 Quarta-feira Lemaire, Yalour e Verdnasky

Eram 07 hs da manhã quando começamos a atravessar o canal de Lemaire e obviamente o navio inteiro estava de pé. Mesmo com as comemorações de Natal na noite anterior, o ritmo para o café da manhã era frenético. Já tínhamos programa definido e o céu azul com sol quente já prometia um dia dos Deuses. Passamos pelo canal sem problemas apesar dos blocos enormes de gelo por ali. É incrível como ainda tinha bastante gelo marinho pela volta, sobreviventes do verão antártico. Provavelmente iriam derreter até o final do verão, mas mesmo assim eu estava surpreso como a área ainda apresentava gelo por todos os lados. Ao sul do canal de Lemaire, um pouco depois das ilhas Argentinas, existe outro grupo de ilhas chamadas de Yalour, nome de um barco dos tempos de exploração antártica. A idéia era fazer um cruzeiro longo de 1 hora e depois desembarcar na ilha. Ficamos assim entre gelo, rochas e focas dorminhocas passeando por ali e mesmo depois de desembarcar passageiros, alguns ainda queriam continuar passeando e fiquei então de taxi-boat. Com essa uma hora extra eu tirei mais fotos e parti em busca de vida selvagem, mas por ali só tinha mesmo pinguins e gelo. Infelizmente nenhuma baleia ou foca.

Voltamos mais uma vez para o barco, para o almoço de Natal (que na verdade era com comida tão boa quanto qualquer outro dia – graças ao chef Daniel), pois logo pela tarde iriamos a Verdnasky. Eu fiquei mais uma vez de taxi-boat, entre o navio e a estação, e dando apoio para o pessoal que iria fazer uma caminhada mais longa. Entre as ilhas Argentinas, eu corria com o zodiac pelos canais, levando passageiros, e corria mais ainda quando estava sozinho no barco. O dia foi paradisíaco, sem uma gota de vento e com muito sol. Não podia mesmo terminar de forma simples. A janta veio com uma decisão maravilhosa de Mariano – iriamos fazer mais um programa pós-janta. Deslocamos o navio um pouco mais ao norte, para a entrada do Lemaire, em uma baia chamada de Plenneau. Entre icebergs, montanha e um por de sol que perdura por horas (pois na verdade só fica um pouco menos claro durante a noite do verão polar), saímos com os zodiacs para um cruzeiro noturno. A luz estava fantástica e encontramos focas (uma leopardo, inclusive), pinguins, elefantes marinhos, gelo e mais gelo.
Por de sol em Plenneau.


Mesmo sendo curto, apenas uma hora, o passeio rendeu fotos espetaculares. Voltamos ao barco e no caminho de volta pelo Lemaire, com o por do sol atrás entre as montanhas do canal, os reflexos do gelo e pedra na água parada estavam divinos. Passamos mais uma hora só tirando fotos enquanto o navio navegava tranquilamente rumo norte. Fui dormir feliz por mais um dia no paraíso.

Dia 26/12/2013 Quinta-feira Paradise Bay & Cuverville Island

Eu não esperava que o tempo ficasse firme porque quando acordei vi pela janela que o céu estava encoberto, mas não havia uma nesga sequer de vento. A Baia Paraiso parecia um espelho refletindo icebergs e pedaços de gelo, além das montanhas ao redor, apesar do céu cinza. O ritmo era o mesmo: café da manhã, briefing, desembarque. Eu fiquei responsável pela subida na neve atrás da estação Almirante Brown, cuidando para que os passageiros não usassem uma descida quase vertical para fazer ski-bunda (que consiste basicamente em deslizar pela neve usando seu próprio traseiro).  O tempo começou a abrir e a temperatura caiu um pouco com um leve vento que soprava do Glacier Skontorp. Eu desci a montanha e peguei um dos zodiacs e duas famílias americanas (10 pessoas) para um bom passeio através de icebergs até a frente do Skontorp, passando pela colônia de Cormorões Antárticos que já estavam com os filhotes já grandes saindo dos ninhos.

Brown Station. O topo de Paradise Bay.
Depois do vai e vem do final do desembarque, já com os caiaques também de volta ao barco, juntamos o time em um zodiac na frente de um glacier todos vestidos com a camiseta do Tal Tree Festival – o festival de música organizado pelo Mike em cada verão canadense – para tirar uma foto. Foi no mínimo engraçado e frio. Voltamos para o barco para um rápido almoço e logo às 15hs desembarcamos novamente, desta vez em Cuverville. Programa padrão: pinguineira, subida na montanha e passeio de zodiac, mas dessa vez o céu abriu e um sol maravilhoso iluminou todo o canal Herrera e arredores. O cenário estava espetacular e valeu muito a pena subir a montanha para tirar fotos e ainda dar a volta na ilha com o zodiac. Melhor impossível.

O dia passou voando assim como todos os outros e terminou com o tradicional Antarctic Barbecue ao ar livre do deck 5 seguido pelo Antarctic Quiz organizado por Ben e Mike, ainda com a surpresa de um grupo de orcas que cruzou com o navio bem no meio de estreito de Gerlache. Eu fui dormir cedo, pois na madrugada ainda tive outra tarefa. Encontramos outro navio por volta da meia-noite para abastecer a cozinha com uns 400 kg de comida. Nada demais. Em 5 minutos estávamos prontos mas custei muito para voltar a dormir. O dia seguinte me aguardava bem cedo.


Dia 27/12/2013 Sexta-feira Deception Island & Polar Plunge

Último dia de desembarque, última chance de pisar em terras antárticas antes de entrar no avião. Nossa manhã começou cedíssimo com o acordar de Mariano pelo sistema de som às 06h45. Desembarcariamos em Baily Head antes do café da manhã que foi transformado em Brunch (café da manhã + almoço). Eu tinha a tarefa de colocar o sapão e ficar de prontidão na água para segurar o zodiac pois o desembarque em Baily é sempre difícil. A pinguineira estava super ativa e centenas de pinguins subiam e desciam pela ladeira até a praia. Consegui ficar no final da fila de passageiros o que me deu um pouco mais de tempo de curtir a paisagem. Deitei na lateral da pinguin highway e os pinguins simplesmente me ignoraram, passando bem pertinho de mim. Um ou outro parava para tentar descobrir o que exatamente eu era, e paravam bem pertinho. Depois subi um pouco a pinguineira e fiquei observando os minúsculos filhotes que já tinham nascido, talvez com no máximo 2 ou 3 dias de idade. 
Filhotes minusculos em Baily Head
E assim a manhã passou tranquila até voltarmos a bordo as 10 hs, já verde de fome. Me deliciei com um excelente café da manhã com direito até a camarão grelhado e salmão, preparado pelo chef Daniel e equipe. E logo as 12 horas desembarcamos novamente em Deception, desta vez dentro da baia Whalers. Eu caminhei com os passageiros até a janela de Netuno, como de costume e voltei a praia aguardando minha despedida – o Polar Plunge. A água até que não estava fria e dessa vez batemos o record de passageiros na água. Foram mais de 40 ! Eu pulei quase no final, junto com Dr. Sérgio e Yanko, nosso segundo oficial de navegação. Coisa de louco ? na verdade não. Apenas uma despedida a altura de estar em Neverland. Saímos de Deception logo em seguida, e ai sim foi minha despedida, com a família antártica toda reunida no deck 5, dizendo adeus a Deception e brindando ao futuro.
Até que o banho não foi gelado (Deception Island).
Agora navegávamos tranquilamente pelo Bransfield em direção a Frei. A esta hora amanhã não estarei mais em Neverland e será uma mistura de saudades com ansiedade. Foram quase 50 dias de aventuras, muito trabalho e muitas alegrias e surpresas. Se alguém me perguntar se estou feliz, vou dizer que sim e que não, mas não tenho como explicar. Sinto aquela mesma sensação de antes, quando estou partindo para poder voltar. Quem sabe as poucas horas até o vôo a sensação mude, sei lá. Por hora, só me resta comemorar a despedida com os amigos e passageiros.

Dia 28/12/2013 Sábado Good Bye Ocean Nova

Bem...na verdade a navegação não foi tão tranquila assim. Logo depois de sairmos de Deception o tempo mudou e ventos fortes começaram a castigar o barco. O navio virou um barco fantasma e na janta mal havia 10 passageiros conosco. Esse era o preço de terem 5 dias excelentes. Qualquer movimento diferente todos passam mal. As 21h30 tivemos a apresentação final de slides, já dentro da baia Maxwell, mas ainda com vento forte e ondas. Não durou 15 minutos e os poucos passageiros que assistiram saíram voando de lá. Eu ainda tinha que arrumar parte das minhas coisas e fui para a minha cabine fechar a mala. Logo percebi que não ia dar para ficarmos na frente de Frei. Haviam dois navios parados ali ocupando o lugar de ancoragem melhor e um pouco mais para fora da baia o navio não segura com vento forte. Bate de cá e bate de lá, capitão Edar decidiu colocar o barco próximo da geleira na Ilha Nelson, ao lado de Maxwell bay. Paramos de balançar um pouco mas o sinal da internet deixou também de existir. Por isso, decidi deixar para atualizar o blog já em Punta Arenas, com uma internet um pouco melhor. Fui dormir lá pela 1 hora da manhã, já com tudo pronto e roupa separada para desembarcar.
Belíssimo por de sol, mas o vento deixou o mar agitado em Maxwell Bay.

Foi tudo muito rápido na verdade Acordei as 06hs, tomei café e terminei de levar rádio e carregador para o escritório, bem como fechar a caixa de amostras que eu deixaria para a Erli em Frei. As malas dos passageiros e a minha já estava na gangway e só foi esperar o momento certo. O capitão Edar reposicionou o navio na entrada da baia mesmo sem ancorar, e o vento e as ondas deixaram a manobra bastante difícil por ali. Sorte que minhas malas estavam cobertas com uma capa a prova d’água. Tudo ficou rapidamente ensopado com as ondas. Pulei no terceiro bote pilotado pelo Mike e fiz exatamente o que eu queria – sair à francesa. Me despedi apenas de dois ou três que insistiram em me dar um abraço. Eu odeio despedidas, não gosto de dizer adeus. Então foi melhor assim. Deixei chocolate e bilhetes para a família antártica e em menos de 15 minutos estava sozinho mais uma vez na praia de Frei. Iria aguardar os passageiros ali.
 
Mike pilotando o terceiro zodiac com bagagens, rumo a Frei. Good Bye Ocean Nova.

Às 10h00 o último bote chegou na praia, com um tempo horrível, ondas e vento, molhando tudo. Despedi-me de Mariano e Bjorn, bem como Mike e o resto da trupe. Liderei o grupo de passageiros na subida até a pista de forma bastante tranquila e em menos de 40 minutos estávamos todos confortavelmente sentados no avião, zarpando da antártica. Good bye Ocean Nova, Good bye Neverland. Duas horas depois chegamos ao aeroporto em Punta Arenas sob um calor de 10 graus e sol forte. Rapidamente os passageiros se dispersaram e pude calmamente seguir meu caminho para a oficina da Antarctica XXI, com Loli, Doutor Sérgio, Jamie e Carolina (esta última é a responsável pela recepção dos passageiros em Punta Arenas).

Partindo do Aeroporto para o escritório da AXXI.

Eu ainda estava meio disperso, meio que acordando de um sono profundo. E assim terminou minha aventura antártica. Ainda fiz umas compras, entreguei minhas roupas, fechei a documentação de final de operação e me preparei para um domingo de descanso, sob uma chuva fina que começava a cair em Punta Arenas no final do dia. Pelo menos a noite foi excelente, com um jantar divino com os amigos, um jantar de despedida, com risadas e lembranças boas de um tempo distante. Sim....distante, pois Neverland não é a minha realidade. As lembranças desta temporada são como sonhos. Gelo, pinguins, neve, focas, baleias, ondas, paraísos congelados.

 
A comida "esquisita" del Remezon. Castor, Guanaco, Ganso, Coelho. 

Dia 29/12/2013 Domingo Brazil Brazil


Meu vôo é apenas na madrugada de segunda-feira dia 30 mas hoje é meu dia de descanso. Apenas para não deixar em branco – chove, silêncio no escritório, trabalho (fotos e mais fotos para o facebook), falar com a família, olhar para dentro de si mesmo antes de deixar esta terra que me acolheu tão bem. Good Bye Diário Antártico.


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